Les Intouchables.
Acabamos de ver no Cine Sabesp.
Um rapaz negro do banlieu, da periferia, um pouco rude, da malandragem, amante de um bom pétard (baseado), e ainda por cima imigrante (quase um sans papier, debate nacional na França) vai a uma entrevista de emprego esperando ser dispensado.

Faz tudo para ser dispensado, mas agrada ao empregador.
Que é um deficiente físico milionário, e que o contrata.
Uma combinação improvável.

Briss, o ajudante negro, prefere na verdade viver do seguro social, não está a fim do trampo.
“Você não se incomoda de viver da ajuda dos outros?”, pergunta a ele o paraplégico.
“E você? Se incomoda?”, responde o rapaz, na lata.
A partir daí, é uma história sobre a alegria de viver, joie de vivre.

O filme brinca com nossas expectativas de correção e incorreção política.
Quando Adama, o problemático irmão mais novo de Briss (metido com o tráfico), vem parar na mansão de Phillippe, o milionário paraplégico, o que é que o espectador espera (mesmo secretamente)?
Assalto, violência sexual, caos.
Vai ficar esperando.

Há, é claro, alguns clichês. A cultura popular de novo como sendo um antídoto contra a chatice da cultura erudita? Kool & the Gang contra Vivaldi? Cansou.
Não é um problema, o tempero hollywoodiano não tira o filme do seu caminho reto.


O filme enfrenta o preconceito latente não só contra o deficiente, mas contra a maconha, o sexo pago, a desobediência civil e até o preconceito contra os ricos, o sexo na meia idade. Tudo com um tremendo senso de humor.

Encara o problema da tolerância alienada dos pais contra as malcriações dos filhos mimados da modernidade.
Brinca com os 10 mandamentos da comédia romântica tradicional (a secretária gostosa que faz doce vai acabar cedendo? hahahahahaha, não vou contar).

A percepção da arte por uma pessoa sem a racionalização histórica é um insight – e isso se dá num ambiente artístico entediado, blasé, excludente – o nosso ambiente atual, em que a arte visual é um feudo de meia dúzia de críticos, meia dúzia de jornalistas especializados, meia dúzia de marchands e muita afetação.

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Jotabê Medeiros, paraibano de Sumé, é repórter de jornalismo cultural desde 1986 e escritor, autor de Belchior - Apenas um Rapaz Latino-Americano (Todavia, 2017), Raul Seixas - Não diga que a canção está perdida (Todavia, 2019) e Roberto Carlos - Por isso essa voz tamanha (Todavia, 2021)

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