Na Virada Cultural, a rainha do rebolado Gretchen é recebida como ‘gostosa, gostosa’ e se diverte: ‘Com 53 anos, (ouvir isso) é tudo. Com 18, eu não entendia

Gretchen rebolou e teve gente que achou tosco. Sim, a rainha do rebolado fez playback, e ainda assim divertiu o público. São 37 anos fazendo isso, agitando os quadris como poucos, seja em circos, boates, postos de gasolinas e programas de TV. Ela diverte o Brasil das capitais e do interior. E perto de completar 53 anos ela pode dizer: “E ainda dizem que eu estava na pior, porra!”

O show de Maria Odete Brito de Miranda na Virada Cultural, na madrugada deste domingo, foi numa praça pública. Mas não era uma praça qualquer, porque de tão minúscula ela jamais seria lembrada como tal. A Praça Darcy Penteado fica em frente ao Copan, este sim um prédio histórico de Oscar Niemeyer, e colado à boate Love Story, “a casa de todas as casas”. Trata-se de um inferninho, que ontem funcionou normalmente e fez muita gente, senhoras inclusive, ficar com rabo de olho. Estavam vendo Gretchen no palco montado na rua, mas queriam era estar lá dentro daquela meca do sexo.

Gretchen está de CD novo, o “I´m Cool”. É uma balada tecno, cuja músicas foram compostas por Roger Martins, o Rody. Ele e Alberto Neto formam a banda 1E99. Gretchen foi e sempre será brega, deliciosamente brega, porque o Brasil é brega. As pessoas que se comprimiram perto do palco para vê-la rebolar sabem disso. Estavam ali gente da periferia, aos montes, por sinal, e os descolados que a consideram “cult” (uma variante para “tosca”). Havia hetero e homossexuais lado-a-lado. Drags, travestis, prostitutas e donas de casa também. Ninguém queria perder o rebolado.

A plateia foi ao delírio quando ela emendou os sucessos antigos, “Freak Le Boom Boom”, “Conga la Conga” e “Melô do Piripiri”. Ela não se faz de rogada. Agita os quadris, arrisca um pole dance – usado em outras apresentações nesse palco que é chamado de Cabaré e se encerrará com apresentação da também mítica Rita Cadillac -, e faz graça de si mesma na hora da falha técnica. Quando percebeu o CD vergonhosamente riscado em “Freak Le Boom Boom”, a rainha do rebolado mandou parar e pediu desculpas ao seu jeito: “Nem o CD me aguenta, gente. Tá demais. Tá muito bumbum para um CD só.”

Ela diverte o Brasil muito antes de ter feito filme pornô – e sua filha Thammy também. Jovens ao meu lado lembraram disso. Aos gritos de “gostosa, gostosa”, Gretchen sem emponderou. “Gostosa? Com 18 anos, eu ouvia toda vez. Vou fazer 53, e com 53 é tudo. Com 18, eu não entendia.” Daí, ela e sua banda emendam uma música nova, um sampler de Noel Rosa, “Fita Amarela”: “Quando eu morrer, não quero choro nem vela/Quero uma fita amarela gravada com o nome dela”. No início dos anos 1980, ela era uma das mulheres mais cobiçadas e invejadas do Brasil. Tudo por causa de seu bumbum – fenômenao igual, só com Carla Perez e o seu É o Tchan.

Gretchen, vestida de blusa de oncinha e calça collant preta, também dança kuduro, e faz muitos da plateia dar um giro na própria cabeça. Ela começou mocinha rebolando no programa do Silvio Santos, foi para os programas da  TV Globo, mergulhou no Brasil da periferia, virou evangélica, endividou-se, quis ser prefeita da Ilha de Itamaracá (PE) e agora parece querer retomar a carreira com um álbum novo. Pensando em nós mesmos, muita coisa se passou em nossas vidas. E Gretchen fez isso, entre altos e baixos, mas sem nunca perder o rebolado.

Quem quer saber um pouco mais sobre ela, vale a pena ver o documentário “Gretchen Filme Estrada”, de Eliane Brum e Paschoal Samora (veja trailer abaixo).

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