Por que muitos de nós parecemos gostar mais de Tonico & Tinoco agora que estão mortos do que gostávamos deles e de suas músicas “caipiras” quando ainda viviam?

Tonico já havia morrido, em 1994. Agora morreu Tinoco.

Hoje todo mundo está triste, com saudades de Tinoco, e de Tonico.

Enquanto isso, você aí, carpindo os mortos, e fazendo exigência.

Nunca vimos fazer tanta exigência, Luan Santana, nem fazer o que você nos faz.

Você não sabe o que é consciência, Paula Fernandes, não vê que somos pobres rapazes.

Que hoje, 4 de maio de 2012, amamos Tonico & Tinoco com a mesma paixão com que detestamos João Lucas & Marcelo,Victor & Leo, Joelma & Chimbinha, esse pessoal todo que, sabe?, deturpa os valores da nossa terra.

Nascemos e/ou moramos no estado de São Paulo, até nos vestimos como (indies e/ou) sertanejos, mas na maior parte do tempo nos envergonhamos de ser “caipiras” como eram os interioranos paulistas Tonico e Tinoco. Não importa: hoje é dia (de rock e) de chorar.

E você?

Você só pensa em luxo e riqueza, Michel Teló. Tudo que você vê você quer, Gusttavo Lima.

Ai, meu Deus, que saudade do Tinoco. Aquilo sim é que era sertanejo.

Às vezes Tinoco passava fome à nossa frente, e achava bonito não ter o que comer.

Quando vivo, não pudemos fazer nada por ele, agora nos resta carpi-lo. É mais uma incelença que entrou no paraíso pelos portais do quintal dos fundos.

Quando Tinoco nos via contrariados, dizia ao Roberto Carlos: “Meu filho, o que se há de fazer?”.

Tonico era resignado, sabia seu lugar, não tentava ser caubói do asfalto, não ia para a faculdade, não deixava as lavouras de tomate onde Leandro & Leonardo viveram, não fazia forró universitário, não misturava pop caipira com sonoridades eletrônicas.

Tonico não tinha a menor vaidade. Tonico é que era caipira de verdade.

Ai, que saudades de Tonico & Tinoco.

E fim.

P.S.: Este texto, evidentemente, contém ironia. O dulcíssimo samba amineirado “Ai, Que Saudades da Amélia” (1942), de Ataulfo Alves e Mário Lago, cai como luva à voz mansíssima de Roberto Carlos, como o então rei do iê-iê-iê comprovou em gravação de 1967. Mas quantas toneladas de crueldade podem morar protegidas atrás de pretensas doçura e mansidão?

Este texto pretende prantear Tinoco e a genial música caipira que ele produziu no passado – mas sem querer ofender, agredir ou espezinhar o presente.

Se um desses meninos de hoje, Michel, Luan, Paula, Gusttavo, João Lucas etc. e tal, morrer no futuro, velhinho, aos 92, choraremos sua perda com as mesmas lágrimas de crocodilo (ou reais) com que pranteamos, depois de muitas borrascas, os sumiços de Tinoco, e Tonico, e Xavantinho, e João Paulo, e, e, e, &…

Mas será que, quando pensamos homenagear tonicos & tinocos com profecias pretéritas do tipo “a música sertaneja de hoje não presta”, não estamos festejando intimamente a submissão com que viveram – com que viveram e vivem não só tonicos e tinocos, mas ataulfos, e amélias, e mulheres, e negros, e índios e homossexuais, e, e, e, &…?

Esse chavão “a música de hoje não presta” não seria mais uma das inúmeras variáveis de frases mantenedoras do status-quo reacionário como “não sou racista, tenho até um tio-avô marrom-bombom”, e “a mocinha foi estuprada porque estava de minissaia”, e “não sou contra homossexuais, mas não gosto dos heterofóbicos”, e “funk carioca é tudo lixo”, e “brasileiro é um povinho subdesenvolvido mesmo”, e, e, e, &…?

Siga o FAROFAFÁ no Twitter
Conheça nossa página no Facebook

DEIXE UMA REPOSTA

Por favor, deixe seu comentário
Por favor, entre seu nome