Segunda feira 30 de abril, resistindo ao frio e a chuva que tomaram conta da cidade de São Paulo um grupo de cerca de 200 jovens se reúne embaixo do vão livre do MASP.
Nos rostos, marcas da tristeza e do medo dos últimos dias, quando a Baixada Santista se tornou um local hostil aos muitos profissionais do funk que lá residem ou vão se apresentar.
Um dos MCs mais famosos toma a palavra: “Se vier muita gente e sairmos em passeata só pode ocupar duas faixas da Avenida Paulista, as outras tem que ficar livre”, a manifestação ficou entre os assuntos mais comentados no twitter durante todo o domingo, mas certamente muitos desistiram por conta da chuva ou do frio.
Uma fan vestindo a camiseta do MC Primo chora sem parar, tenta dizer algumas palavras, mas a dor da perda do ídolo é muito grande, ela só consegue dizer “foi na frente dos filhos, dois homens mascarados.. foi covardia”.

Foto Renato Barreiros

A manifestação é um protesto pelo assassinato de cinco ídolos do funk nos últimos três anos na Baixada Santista, dois no último mês de abril , o MC Primo e 5 dias depois o MC Careca.
Antes deles outros dois foram assassinados, MC Felipe Boladão e DJ Felipe da Praia Grande em 2010 e Duda do Marapé em 2011, todos no mês de abril, com uma quantidade enorme de tiros, surpreendidos de maneira indefesa, por homens quase sempre mascarados, traços inequívocos de execução.
Os funkeiros eram ídolos da juventude da periferia e cantavam em suas letras um pouco de uma realidade onde bem e mal muitas vezes se confundem.
Para muitos que ainda pensam que o funk só produz músicas sem conteúdo, vale a pena ouvir “Diretoria” de MC Primo, “Lágrimas” de Duda do Marapé, “Mundo Moderno” de Felipe Boladão e “Tá na memória” de MC Careca, lá estão escancaradas as chagas e feridas que atormentam muitos dos jovens de nossa periferia e que não encontram eco em outros ritmos que hoje focam apenas no que demandam as rádios e a grande mídia.
Os jovens se reúnem para cantar algumas músicas e levantar as suas faixas com a hastag #funkpedepaz, muitos olham com espanto “nunca vi manifestação de funkeiro!” diz surpresa uma senhora que passa, outros reconhecem algum de seus ídolos e se juntam a manifestação para cantar e, é claro, tirar fotos e pedir autógrafos para seus ídolos.
Antes de terminar os jovens gravam um vídeo manifesto contando o que está ocorrendo , pedindo ao poder público que garanta a segurança dos profissionais do funk e que se faça justiça aos assassinos dos funkeiros assassinados.
Ontem, dia 2 de maio, três policiais militares foram presos por suspeitas de envolvimento com os crimes e, mais uma vez, o bem e o mal se confundem na terra onde antes MC Primo havia cantado sobre “a revolta do moleque sofredor”.

* Renato Barreiros é produtor cultural, foi subprefeito de Cidade Tiradentes que reconheceu o bairro como berço do movimento funk na capital paulista e é um atento observador do gênero

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2 COMENTÁRIOS

  1. Bruno, tem toda razão. O que nos preocupa também, e daí termos divulgado essa notícia, é a rápida criminalização que se faz do movimento funk. Difícil saber se é movida por preconceito, por (des)gosto musical ou razões ocultas. Estranho que pessoas, algumas delas entre “jornalistas” do meio musical, tenham se manifestado favoráveis ao assassinato desses jovens. Instituímos a pena de morte e não nos avisaram?

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