No primeiro semestre de 1972, enquanto estava na faculdade de Arquitetura, ouvi pela primeira vez falar de Alice Cooper. Um colega, que havia morado nos Estados Unidos, e estava voltando para o Brasil, falando da cena musical americana, descreveu entusiasticamente o som, me explicando que ele teatralizava tudo. Eu achei aquilo demais, mesmo não conhecendo a música, apenas pelo que ele me contava sobre as performances. Fiquei curioso com o nome: Alice Cooper. Um nome feminino e um masculino, um homossexual assumido? – coisa raríssima nessa época…. Não, não, o Guará me falou, é transgressão mesmo. Nós havíamos descoberto o dadaísmo recentemente, essa posição dos artistas depois da primeira grande guerra, a falta de sentido fundamental revelada por ela.

Até pouco tempo atrás, quando eu comecei a escrever para esse blog, e a perscrutar os momentos da minha vida que poderiam ter mais interesse para um relato escrito, me dei conta que o nome que eu inventei em 1972, Clara Crocodilo, vem, com toda a certeza do nome Alice Cooper, por ser esse nome associado a um homem, e não a uma mulher. Como é possível eu ter me esquecido disso!!!

É curioso isso – e acredito que possam surgir teorias psicanalíticas, ai, ai, ai – porque essa confusão havia acontecido também 3 ou 4 anos antes desse episódio, em Londrina, 1968 ou 69. Comentávamos, eu e Mário Lúcio (meu parceiro em Clara Crocodilo) o fato de não haverem mulheres compositoras na música erudita. O Mário um dia aparece com a novidade: “descobri, existe uma mulher compositora, é deste século, húngara, chama-se Bela Bartok“. Que coisa incrível, pensamos! Liguei para a Marta Furtado, minha amiga que tocava muito bem piano, estudante séria, talentosa musicista. Falando pelo telefone, Marta riu muito, e disse que Bela era um nome masculino comum na Hungria, e que ela estava justamente estudando uma obra dele, o “Allegro Barbaro”. (Engraçado, mas agora sinto que também esse nome, Allegro Barbaro, justapõe opostos, como Clara Crocodilo). Ela disse que poderia tocar para a gente ouvir.

Fomos até sua casa então. Marta morava em uma casa de esquina. Entrava-se por um corredor lateral, na parte debaixo, que dava para as ruas, havia uma boutique, Sinhá Moça, da mãe de Marta, com muitas coisas coloniais e do nordeste (eles eram cearenses). Entrando pelo corredor, chegávamos a um pequeno pátio todo acimentado, e sempre com um agradável frescor, mesmo nos dias mais quentes. Havia um hall de entrada com um pequeno sofá, e a escada que dava para a habitação propriamente dita. A casa, muito decorada com móveis e objetos coloniais, e coisas do Ceará, trazia aquela impressão de nordeste, de brisa mansa e fala nordestina… muito agradável.

Chegamos na sala com o piano, e ouvimos Marta tocando aquela “coisa”… foi a primeira vez que tive contato com algo completamente não-lírico na música. Tinha um caráter épico, não era “música” era uma “coisa”, foi demais, nunca poderei agradecer suficientemente à Marta por aquela experiência. Me identifiquei totalmente.

A gente vai escrevendo e as coisas vão se misturando, espero que vocês tenham paciência para ler até o final, porque a história é sobre um show famoso que Alice Cooper fez em São Paulo, o primeiro grande show internacional no Brasil, o pai de todos os shows, em plena ditadura militar.

Em 1974, foi anunciado que Alice Cooper viria se apresentar em São Paulo. Nessa época, morávamos em repúblicas na região de Pinheiros. Uma particularmente merece destaque, o Paradise, na Teodoro Sampaio quase esquina com a Oscar Freire. Era uma república realmente transgressora: arrancaram a porta do banheiro, e o quarto de dormir era coletivo, colchões no chão. Ali habitavam umas 8 pessoas fixas, e alguns flutuantes (um dos flutuantes foi o Itamar Assumpção).

Bom, voltando à história que eu estava contando, ficamos sabendo desse show, e demos um jeito de conseguir os ingressos. De Londrina, vieram alguns amigos, o Eduardo, a Gisele, a Regina, todos bem novinhos, a Gisele menor de idade, tudo com aquela aura de medo inspirada pela ditadura, qualquer coisa dava medo, até pensar dava medo.

Enfim, saímos do Paradise e fomos para o salão de exposições do Anhembi. Logo na entrada, um policial deu um soco a esmo, acertando a Gisele. Ela se virou para reclamar, e quando ele viu que tinha batido naquela menininha, ficou muito sem graça, pediu desculpas. Mas a gente já ficou esperto na hora, a Gisele em estado de prontidão. E chegava gente, mas muita gente, o lugar lotado, cheio de policiais, aquela atmosfera de repressão, e as pessoas chegando, chegando. E todo mundo tentando conseguir um lugar mais a frente para assistir melhor ao show. Enfim, começa o espetáculo. Eu, a Gisele, mais alguns amigos ficamos para trás do Eduardo e da Jane, que avançaram.

Acho que na segunda música começou o tumulto: as pessoas atrás, avançavam, e começaram a espremer quem estava na frente. O show era incrível, igual ao disco. O Alice Cooper trouxe todo o equipamento com ele (a Rita Lee, segundo se diz, comprou esse equipamento no final da turbe). O som estava tecnicamente ótimo, e a performance era incrível mesmo, com algumas citações do Andy Wharhol, do Bernstein; e o tumulto progredia.

De repente, o show foi interrompido. As pessoas estavam sendo pisoteadas, e algumas acabaram lançadas sobre o palco. Então alguém da produção disse que o show só continuaria se todos permanecessem sentados no chão, o que acabou acontecendo. Mas como o espaço era exíguo, acabamos sentados sobre os nossos pés que foram ficando amortecidos, e aquilo virou uma tortura. Finalmente, acabamos vendo todo o show. Bom, depois ficamos sabendo que o Eduardo e a Jane se machucaram, e acabaram jogados em cima do palco.

Agora, continuo o relato, usando as palavras do Eduardo: “quando as luzes brancas do Anhembi começaram a se apagar, nos levantamos. As pessoas que estavam atrás avançaram buscando uma proximidade maior com o palco e foi aí que o tumulto começou. Sobre o palco, luzes coloridas piscando e muito vapor de gelo seco. Aqueles que não foram pisoteados foram literalmente prensados contra a cerca de ferro que dava proteção ao palco. A Jane segurava a minha mão, ouvi os seus gritos e nos separamos. Foi quando eu caí, fui pisoteado, instintivamente agarrei-me a uma pessoa que estava em pé e consegui me levantar. Nesse instante, vi a Jane nua passando por cima da minha cabeça sendo levada de mão em mão em direção ao palco”..

Imagino nesse momento, o Eduardo olhando para o palco, e vendo bem de perto Alice Cooper. O “matador de bebês” continua a performance, sem parecer se importar com o que acontece, antes se alimentando do desespero daqueles infelizes espremidos na plateia. Seu rosto distorcido, sua maquiagem verde, envolto por luzes numa atmosfera infernal. Com certeza aqueles que tombaram sobre o palco desmaiados, jamais se esquecerão daquela figura mefistofélica. Como o Edu, jamais se esqueceria, dessa tarde, iniciada no Paradise, concluída no inferno!!!

Depois, sempre que ele lembrava dessa história, acrescentava: “acordei na enfermaria, no meio de muita gente, deitadas ou sentadas. Entre elas a Jane, que estava enrolada num pedaço da cortina de veludo usada no palco”. Não pude deixar de pensar em Vivien Leigh, vivendo Scarlet O’Hara, em E o vento levou. Ela também usou uma cortina para se cobrir.

Alice Cooper, 1972

Alice no Muppets show em 1978, muito divertido

“Allegro Barbaro” de Bela Bartok com Audrey Yim. Escolhi essa versão porque também é uma menina, adolescente e delicada, como a Marta era, contrastando com o que ela está tocando…

E a gravaçao original de Clara Crocodilo

* Texto originalmente publicado na coluna “Questões Musicais” do site da Revista Piauí no dia 30 de março de 2012

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