O texto a seguir, como todos os outros que assino aqui ou em qualquer outro veículo de comunicação, representa percepções de quem observa a música brasileira com muito amor, mas situado sempre a relativa distância do objeto do amor. Como tal, e como sempre, está sujeito a equívocos e interpretações enviesadas pela distância. Dito isso, tentemos decifrar um pouco mais do que nossos olhos veem, nossos ouvidos escutam, nossas línguas destilam sobre o atual (e delicado) momento da cultura brasileira.

Bia Abramo é minha principal mentora no jornalismo musical, desde quando ela escrevia na revista “Bizz” e eu ainda morava em Maringá, desde muito antes de eu sonhar que um dia seria levado por ela (e por Fernanda Scalzo, e por Sandra Muraki) para trabalhar na amada “Ilustrada”, caderno cultural do jornal “Folha de S.Paulo”. (Atualmente a “Folha” é indubitavelmente o jornal mais direitista, retrógrado e reacionário do Brasil, mas à época eu pensava que não, e acho que ela, que é sobrinha-neta do mito jornalístico Claudio Abramo, também pensava que não).

Fiquei afastado da Bia por muitos anos, mas recentemente temos nos reaproximado, e tem sido deliciosamente bom e recompensador. Nessas vindas e vindas, ela me mostrou um texto que escreveu há pouco, e que ainda permanece inédito, e que sonho poder publicar ou republicar aqui neste FAROFAFÁ o quanto antes. O texto avalia um documentário sobre a tropicália que ainda está para estrear, mas ela já viu.

Vou citar o texto de memória, mas até onde entendi Bia defende, nele, que a discussão sobre música popular brasileira continua, como há quase quatro décadas e meia, centrada numa única e desgastada premissa – hoje mais falsa que nota tucana de três reais.

Bia vê a discussão, antes e agora, fundada no pilar de que seríamos feitos de um movimento-ilha iluminado, universalista, transnacionalista – chamado tropicália, ou (mais doentiamente) tropicalismo -, cercado por todos os lados de um oceano profundo de atraso nacionalista, samba, canção de protesto, música caipira e sertaneja etc.

Caetano Veloso versus Chico Buarque, em outras palavras. A mesma lengalenga de sempre. O mundo lá fora grávido de rap, tecnobrega, funk carioca, forró, lambadão, vanerão, sertanejo universitário, nova MPB etc., e nós aqui atoladinhos na mesma lengalenga de sempre

Bia acredita, e eu concordo, que essa premissa não serve para 2012. Todos os nossos ídolos são, e todos nós somos, ao mesmo tempo tropicalistas e antitropicalistas, nacionalistas e antinacionalistas. Somos filhos de casamento infeliz entre dona Tropicália e seu Nacionalismo, irremediavelmente.

(Talvez seu Clube da Esquina tenha pulado nossa cerca e se divertido um tantinho com dona Tropicália, mas ainda assim seguimos tendo seu Nacionalismo como nosso pai, dentro do nosso coração. Por conta dessa ambiguidade, vivemos fazendo nas alcovas o elogio à traição de Calabar de Capitu, mas é a coisa mais burra que fazemos sempre que estamos dormindo acordados.)

Parte importante do Ecad é governada pelo samba, que supostamente é a música brasileira por excelência (alô, Hermano Vianna, quem se atreve a nos dizer de que é feito o samba?). Nas entranhas do Ecad, porém, essa brasileirice toda é coligada a (e interdependente de) associações autorais de tudo quanto é país do mundo. É conjuminada inclusive aos famigerados Estados Unidos (da América, não do Brasil), que prendem e arrebentam e quem monta impérios virtuais de compartilhamento de música como o Megaupload (construído, por sinal, pela nata do hip-hop industrial norte-americano).

Chico Buarque, aparentemente o mais nacionalista dos nossos heróis nacionalistas, mora em Paris parte do tempo e construiu fama e fortuna de rebelde como funcionário da multinacional holandesa Philips – agradeço ter compreendido essa ponta do mistério ao historiador Gustavo Alonso, autor de um livro-ensaio seminal sobre o boneco-de-vodu predileto da esquerda, da direita e do centro do BrasilWilson Simonal.

Ana de Hollanda se encontra com o secretário de Comércio dos EUA em Brasília, para discutir pirataria e direitos autorais - Foto MinC - 18/3/2011

O Ecad é o Escritório Central de Arracadação e Distribuição. Recolhe direitos autorais pela execução pública de música no e do Brasil. (Poderia fazer o mesmo por este texto, mas não o faz, porque escritores e jornalistas não possuímos organização de categoria suficiente para sequer recebermos um caraminguá quando um grande jornal republica nossos textos num jornal de bairro ou de interior – jornalistas só somos contratados por nossos patrões se assinarmos um termo abdicando previamente desse direito, como um fã do CQC abdicaria previamente do direito de se sentir ofendido por uma piada racista, misógina ou homofóbica de um “humorista” “proibidão”, tipo Marcelo Tas ou discípulo equivalente).

O Ecad colonizou o Ministério da Cultura dirigido pela irmã de Chico, a nacionalista Ana de Hollanda (ou de Amsterdã, não se sabe ao certo). Ao que conseguimos entender até aqui, o Ecad havia sido alijado do MinC nas duas gestões anteriores, do tropicalista Gilberto Gil e de seu secretário-executivo e substituto, Juca Ferreira.

O Ecad foi fundado como monopólio em 1973, o mesmo ano em que “Cálice” (“pai! afasta de mim esse cálice, pai!”), de Chico e Gil, era censurada e seus autores tinham o microfone cortado no palco pela polícia política da ditadura civil-militar. Era bem-intencionado e movido por esforços de gente como Chico e 99 entre cada 100 compositores brasileiros – mas era um monopólio, “perfeito” para uma ditadura.

Dizem que tal ditadura acabou há 23 anos – mas o Ecad está aí até hoje. Monopolista. Não-fiscalizado a não ser por si próprio (o governo Fernando Collor acabou com o conselho que o fiscalizava, e não deixou nada no lugar). Hierárquico e autoritário (novas associações que queiram adentrá-lo não conseguem conquistar direito de voto). Composto por autores brasileiros e editoras e gravadoras de nomes de língua enrolada como Warner Music, Sony Music, EMI Music, Universal Music.

Enquanto Barack Obama prende e arrebenta o Megaupload, o Ecad coloniza o MinC sob Ana de Hollanda, Antonio Grassi (presidente da Funarte, Fundação Nacional das Artes, e nomeador do diretor de música Bebeto Alves, também compositor e advogado do Ecad no Rio Grande do Sul) e cia.

Gilberto Gil abriu asas do MinC para as novas gerações, os pontos democratizantes de cultura, a liberdade autoral e, eu diria, os deveres autorais (em vez de apenas “direitos autorais”). Ana de Hollanda retirou o copyleft dos Creative Commons do site do MinC, como primeiro ato notável de gestão sob Dilma Rousseff.

Gil e Juca abriram as pernas para as transnacionais telefônicas e informáticas, infinitamente mais poderosas que  gravadoras e editoras e jornais e rádios e emissoras de TV. Ana abriu as pernas para a patota de Ipanema que havia ficado (supostamente) desguarnecida pela visão tropicalista de Gil.

É difícil chegar a conclusões fechadas e sólidas sobre isso tudo, mas fato é que a gestão tropicalista foi sucedida pela gestão (supostamente) nacionalista dos Buarque de Hollanda, na passagem Lula-Dilma. Fato é também, eu aposto, que a visão (supostamente) universalista de Gil e a visão (supostamente) nacionalista Chico continuam até hoje em embate e em luta pelos mesmos mimos e atenções e (podres?) poderes de sempre.

O que a Bia Abramo intuiu, e eu intuo junto com ela, é que as duas faces da moeda – tropicalista & nacionalista, som universal & samba, pilantragem & MPB – sempre compuseram, juntas, uma moeda só. O vil metal está enferrujado, mas tilinta mais do que nunca, tinindo, trincando.

Em que cofrinho vamos depositar a nossa moedinha, essa filhota a que chamamos Cultura?

 

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