Lembra quando me acusaram de ter voltado dos EUA americanizada? Fui muito criticada por aqui. Muitos acreditavam que, após ter conquistado a América, eu havia renegado minha identidade brasileira. Naquela época, era mais fácil separar uma da outra. Os tempos são diferentes. Hoje, quem diria, o Brasil virou uma das maiores economias do mundo. Somos nós que estamos com a burra do dinheiro e eles que estão em crise.

E o que resolvemos fazer com nossa grana? Saímos a comprar ícones americanos. Primeiro foi a Budweiser, agora o Burger King. E, como sintoma maior dessa nova era, alugamos o Madison Square Garden para uma cantora brasileira fazer um show no estilo americano, para uma plateia brasileira. E depois ainda celebramos o feito na imprensa. Local. Agora só falta a Lojas Americanas comprar o Walmart. Pelo que estou entendendo, o propósito do imperialismo brasileiro é americanizar a América. Antigamente estávamos interessados em ver o Tio Sam pegar o tamborim, o pandeiro e a zabumba. Queríamos, ao menos, uma troca de influências, por menor que fosse. Mas parece que mudamos nossos anseios. Nosso desejo é ser mais americanos que os próprios americanos. Estamos nos comportando como aquele sujeito que recém se converteu a uma religião e precisa mostrar aos antigos fiéis que sua decisão foi tomada com enorme convicção.

Acho que podemos almejar voos mais altos. Não estou só sugerindo que o Burger King passe a vender pastel de feira. Isso seria o mínimo. Depois do Rock in Rio Lisboa e Madri, tudo é possível. É hora do imperialismo cultural brasileiro. É exportando sua cultura que uma nação fica forte. Só quando uma jovem do interior do Alabama se derreter pelo Luan Santana é que estaremos perto de nos tornar uma grande potência. Claro que para isso precisaremos de atos simbólicos como a Xuxa alugar o Salão Oval da Casa Branca para a festa dos 15 anos da Sasha e a Parada da Macy’s acontecer na forma de um desfile de Parintins. Um passo de cada vez. Impérios não se constroem da noite para o dia. É um tico-tico cá, um tico-tico lá e assim conquistaremos o mundo.

 

(*) O texto de mãe Carmen Miranda foi psicografado diretamente da outra dimensão por Vitor Knijnik, autor da seção Blogs do Além, da CartaCapital (obrigado, Vitor, por autorizar a republicação!). Foi publicado pela revista em setembro de 2010. Ironizava um episódio ocorrido à época com Ivete Sangalo e cai como luva para 2012, quando a mesma ladainha se repete pela trocentésima vez, com variações aqui e ali, na figura de Michel Teló. Ainda somos os mesmos e vivemos como a cantora de “Tico-Tico no Fubá”? (p.s. por Pedro Alexandre Sanches)

 

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