vestido com as roupas e as armas de jorge, o professor abdias do nascimento, na cinemateca, em 2007

foto: jatobá madeira

Morreu hoje no Rio o professor Abdias do Nascimento, aos 97 anos.
Eu o encontrei brevemente em 2007, na Cinemateca Brasileira. Era convidado da Mostra Internacional do Cinema Negro.
Ele se disse velho e cansado, mas Gilberto Gil chegava por ali na hora e lhe passou um “pito” carinhoso: “Minha mãe (Dona Claudina) teve catarata, não enxerga muito bem, mas está ótima. Já o Caetano fica boquiaberto com Dona Canô: não é só o físico que está ótimo, mas também o psicológico, o intelectual. Não tem isso de velho”, discursou o então Ministro da Cultura.
Depois de ouvir toda essa argumentação, Abdias Nascimento berrou ali mesmo no hall da Cinemateca: “Eu sou lindo!”

“É pena que ele está ameaçando deixar o ministério. Quer só cantar. Isso é
muito bonito, mas o mais difícil é o desafio de mudar o que está aí. Fica,
ministro!”, pediu Abdias em seu discurso. Gil, como sabemos, acabou ficando.
Abdias do Nascimento foi criador do Teatro Experimental do Negro e colaborador de Paschoal Carlos Magno, nas décadas de 40 e 50. De dezembro de 1948 a julho de 1950, editou o jornal Quilombo. Lecionou nos Estados Unidos, na New York University e na Yale School of Drama, e foi interlocutor dos mais famosos ativistas do movimento negro na América, e trouxe essa militância para o Brasil, inspirando os negros daqui a se sublevarem contra o preconceito, o racismo e a lutar por igualdade de direitos.

“Mandei uma carta ao presidente Lula pedindo que ele não ceda, porque os
reacionários racistas estão em todo lugar”, disse o professor na época, acusando abertamente um grand chefe da TV Globo de racismo. Reproduzi a fala, sem ouvir o outro lado, e levei uma bronca. Esse era o Abdias. Evoé!

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