Segue um texto que escrevi para a “CartaCapital” e foi publicado (acho) na edição 461, em setembro de 2007. Daqui a pouco eu explico o porquê de ressuscitá-la agora.

CIRCO
Debaixo da lona

A família circense Wassilnovich migrou para o Brasil na segunda metade do século XIX, e aqui abrasileirou o sobrenome para Silva. Dos anos 1960 em diante, os integrantes da quarta geração da família passaram a ser enviados ao convívio de parentes com residência fixa, quando chegavam à idade escolar, em busca de um futuro “melhor”. Erminia Silva, hoje um historiadora de 53 anos, foi uma das enviadas à vida universitária. A ruptura com o passado nômade e circense durou até que ela direcionasse a pesquisa acadêmica ao reencontro com as próprias origens, num trabalho que agora deságua no livro Circo-Teatro – Benjamim de Oliveira e a Teatralidade Circense no Brasil (editora Altana, 434 págs., R$ 50).

Benjamim de Oliveira nasceu alforriado em Minas Gerais, em 1870, e ainda menino fugiu com o circo. No correr das décadas seguintes, tornou-se ator, palhaço, cantor, compositor, violonista, dramaturgo, encenador, diretor, um faz-tudo do circo, enfim. Mais que o protagonista da história, ele é utilizado no livro como pretexto e exemplo para que Erminia Silva reflita sobre as confluências entre o circo e o teatro, num primeiro plano, e, de modo mais geral, entre o circo e todos os ramos da então nascente indústria cultural brasileira.

A discussão de fundo, para a historiadora, diz respeito à participação dos profissionais egressos do circo na edificação das indústrias de cinema e de música (e, futuramente, de televisão e rádio). Na aurora do cinema nacional, Benjamim protagonizou uma versão filmada da pantomima Os Guaranis, que ele liderava no Circo Spinelli sob inspiração da obra quase homônima de José de Alencar. Assim como o músico Baiano era ao mesmo tempo cantor da primeira gravação do samba Pelo Telefone e ator circense, também Benjamim gravou discos e foi parceiro musical de nomes pioneiros como Catulo da Paixão Cearense e Eduardo das Neves. No circo, Benjamim, Baiano e Eduardo atuaram juntos numa versão da opereta A Viúva Alegre.

Quem, como Benjamim, levou o teatro para dentro do circo (e não o contrário) teve a memória mais dissipada pelo tempo que os pares de teatro (e música, e cinema), e eis aí a outro argumento crucial de Erminia. O que se depreende do livro é que a memória construída a partir do ponto de vista das elites culturais enobreceu o teatro e as novas formas em detrimento da origem circense de artesãos cada vez mais marginalizados. A tarefa cumprida neste momento pela historiadora que veio do circo é a de interromper os ciclos de silêncio que há décadas excluem do mapa cultural alguns de seus agentes fundadores. – POR PEDRO ALEXANDRE SANCHES

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Editor de FAROFAFÁ, jornalista e crítico musical desde 1995, autor de "Tropicalismo - Decadência Bonita do Samba" (Boitempo, 2000), "Como Dois e Dois São Cinco - Roberto Carlos (& Erasmo & Wanderléa)" (Boitempo, 2004) e "Álbum" (Edições Sesc, 2021-2026)

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