É no Circo Rihanna que trabalha o ilusionista Massone, da mesma escola do mítico Copperfield, uma estrela do circo que faz “sumir” um motociclista com moto e tudo, e faz surgir um cavalo dentro de uma caixa e até um helicóptero no alto do circo. Massone é a testemunha que Giudice procura, uma das duas únicas que podem ajudar a elucidar a identidade do assassino. Violinista diletante, visitava um luthier no prédio onde morreu um dos executivos assassinados, e chegou a ver um homem saindo correndo do elevador quando estava entrando.

Um anão de cabelo moicano conduz o delegado por entre os trailers dos artistas do circo.

O camarim de Massone é realmente o de um pop star, tem até um minipub no canto, com tequila, conhaque, uísque e vinho do porto, que é o que o ilusionista oferece ao delegado. Na parede, há um quadrinho com um dos mais famosos palíndromos em letra gótica: “Socorram-me, subi no ônibus em Marrocos”.

– “Vi um dos seus truques na televisão. O sr. é muito habilidoso!”, elogia o policial.
O homem tinha um bigode curto, como se tivesse recortado cuidadosamente dois retângulos e colado abaixo do nariz, que era adunco. Fez um enxerto de cabelos recentemente. Coça o meio bigode com impaciência.

– “Uma pessoa que marca hora para entortar metais, como o isralense Uri Geller fez no passado, certamente é truque. Ou como fazia Thomaz Green Morton, também com hora marcada, aquilo certamente é truque. O que faço não é truque”, dispara o homem, com a voz levemente trêmula, demonstrando sincera contrariedade.
– “Como então o sr. diz que move objetos? Com a força da mente?”, atiça o delegado, com um sarcasmo quase doce na voz.
– “Todos os fenômenos parapsicológicos, por serem incomuns, sempre foram interpretados supersticiosamente. Quando o povo não sabe explicar, em vez de calar a boca, explica. A telepatia sempre foi considerada como coisa dos deuses. As pessoas pensam que o movimento de objetos provocado pela telecinesia são espíritos que vêm brincar nas casas mal-assombradas. Ou então, que são fruto da astúcia de charlatões. A parapsicologia estuda os fenômenos cientificamente e separa dessas falsas interpretações o que é natural, embora raro. Uma pessoa pode mover um objeto, todos podemos. Em um momento de emoção pode escapar uma energia corporal. Mas nunca a mais de 50 metros de distância.”
– “Isso é impossível? Mas o senhor, pelo visto, consegue”, contina o tira.
– “É o que ia lhe dizer: a menos que o cidadão seja muito treinado, como eu sou. Se houver um fenômeno físico, movimento de objetos, fogo espontâneo, umas vozes, a mais de 50 metros de uma pessoa viva, dou US$ 10 mil a quem conseguir. Esse desafio está posto há séculos. É possível que algumas vezes, espontaneamente, a energia corporal se exteriorize e se transforme em energia luminosa ou térmica. Esses são os fenômenos parapsicológicos. Na psicofonia, a energia corporal faz vibrar o ar, como se fosse uma voz de um demônio. Mas é um fenômeno natural, não sobrenatural. Eu sou apenas um cidadão muito bem treinado. Treino minha capacidade há 67 anos. Portanto, não faço truques”.

– “Bom, fico contente com sua aula condensada de parapsicologia, mas eu realmente estou aqui por um motivo bem mais prosaico e urgente…”
– “Sim, eu vi o assassino. É isso que o sr. veio saber, não? Eu sei que era ele.”
– “Mas o sr. não conseguiu fazer um retrato falado. Por quê?”
– “Passou por mim muito rápido, não consegui ver senão um paletó cinza e o lado do rosto, e vi que ele usava costeletas. Era alto, tinha cerca de 1m80. Mas tocou em mim quando saiu, e eu senti uma pessoa morrendo agarrando-se à sua aura. Estava impuro, tinha sangue na consciência, muito sangue. Não era de uma pessoa só”.
– “Infelizmente, isso não me ajuda muito. Há algo mais que o sr. tenha visto que se esqueceu de mencionar?”

O homem pensa uns minutos, coçando os poucos cabelos recém-implantados. Depois levanta, vai até um móvel estranho, com pés bojudos, como se fossem pés de rinoceronte esculpidos em ébano, e abre uma gaveta. Volta com um papelzinho.
– “Bom, depois que ele passou, eu entrei no elevador e vi esse papelzinho no chão. Na hora não tinha ligado as coisas, mas hoje eu comecei a pensar que poderia ter sido ele quem deixou cair. Pode levar”, afirma constrangido, como se confessasse um delito grave.

O delegado examina o papelzinho. É um canhoto de um show do cantor Bob Dylan em 2007, uma relíquia de colecionador. Tem algo escrito a caneta no alto do ticket, mas não são letras e sim números. Tem algo como uma data anotada: 22/04.
– “Ajuda?”, pergunta Massone.
– “Ainda não sei ao certo. Mas pode ser algo importante. Obrigado”.
Giudice não demonstra entusiasmo na resposta, e Massone parece ficar com pena dele, do tamanho de sua tarefa.

– “Quando as coisas parecem difíceis, o melhor é a convicção. Pode fazer muita diferença. Lembre-se de Maupertuis, que enfiou-se na Lapônia durante um ano, e consumiu 340 garrafas de vinho e 400 litros de aguardente apenas para demonstrar que nosso planeta era um esferóide achatado nos pólos”, diz Massone.
– “Não tenho tanto vinho nem tanta cachaça na delegacia”, brinca Giudice, descendo a escadinha do trailer, fazendo sonoplastia nos degraus.

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Jotabê Medeiros, paraibano de Sumé, é repórter de jornalismo cultural desde 1986 e escritor, autor de Belchior - Apenas um Rapaz Latino-Americano (Todavia, 2017), Raul Seixas - Não diga que a canção está perdida (Todavia, 2019) e Roberto Carlos - Por isso essa voz tamanha (Todavia, 2021)

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