bem na frente do pavilhão chinês, em hollywood, ela chorava por michael
foto: moi même

michael está morto e está por toda parte.
em miami, todas as tvs estão ligadas no noticiário sobre sua morte.
em houston, a passageira ao lado lê as notícias no houston chronicle e, na foto maior, michael está com seu terninho de camareiro de hotel e as luvas brancas, sendo homenageado na casa branca por ronald e nancy reagan.
parecia um bonequinho do quebra-nozes excêntrico postado ali atrás do casal presidencial, quebrando o protocolo.
os articulistas escrevem nos jornais na primeira pessoa. um deles fala de uma entrevista com michael em 1983, e que teve a impressão de que era simplesmente um homem solitário.
“perdi meu irmãozinho”, diz quincy jones na tv.
desço no aeroporto de los angeles e é estranho pensar que o cadáver de michael jackson está logo ali, sendo dissecado.
o garoto que dormia em câmaras especiais para viver eternamente está sendo dissecado em boyle heights, enquanto os abutres discutem como repartir seu legado e seus filhos.
pego um shuttle para o hotel. a senhora ao lado era a mesma que estava no avião ao meu lado. ela aponta lá para cima e me conta que a filha mora lá naquela colina, e do lado oposto da rua à sua casa é a casa onde viveu jim morrison.
“não é engraçado, todos morreram com 27 anos? jim, janis joplin, hendrix, kurt cobain?”
agora vou ao hollywood boulevard. estão acendendo velas lá, na estrela de michael na calçada da fama.
sem grana em los angeles é como ser um homeless na praça da sé.
não, não é igual: é pior.
see you.

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Jotabê Medeiros, paraibano de Sumé, é repórter desde 1986 e autor de Belchior - Apenas um Rapaz Latino-Americano (Todavia, 2017), Raul Seixas - Não diga que a canção está perdida (Todavia, 2019), Roberto Carlos - Por isso essa voz tamanha (Todavia, 2021), O Último Pau de Arara (Grafatório, 2021) e A Culpa é do Lou Reed (Reformatório, 2024)

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