o jornal “folha de s.paulo” abranda a ditadura brasileira para “ditabranda”. após dias de hesitação, se desculpa, muito de má vontade, muito contrariada. e, no próprio suposto pedido de descuplas, termina reafirmando (na figura do diretor de redação) tudo que havia vomitado. e o brasil que agradeça por ter sido “protegido” por uma ditadura (ou branda).

um monte de gente – de leitores da “folha” – se revolta com a súbita tentativa de revisão histórica e cancela assinatura. revoga o mandato oferecido para que o jornal fosse sua fonte de informação. envergonha-se do jornal, revisa o pacto de fidelidade que com ele firmara, e rompe o vínculo.

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a igreja católica excomunga os “envolvidos” no aborto de uma garotinha de nove anos, que, estuprada rotineiramente pelo padrasto, havia engravidado à revelia. o império religioso não se arrepende, não se desculpa, não se interessa pela vida da menina de nove anos. e ainda afirma (na figura de um poderoso arcebispo) que, não, o estuprador não merecia ser excomungado. a menina que peça perdão por ter sido estuprada.

um monte de gente – de fiéis da igreja católica – se revolta contra a atitude da igreja e declara em público que também quer ser excomungada. envergonha-se da fidelidade confiada àquela que atuava como sua intermediária no contato com deus, a ponto de desfazer o vínculo com a própria congregação religiosa.

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ex-leitores tratam de ir buscar informação por seus próprios meios, sem intermediários.

ex-devotos suspendem a intermediação católica na chegada até deus e no exercício de suas convicções religiosas.

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você percebe a incrível semelhança simbólica desses dois casos, nesse dramático processo de (auto)decomposição de instituições que já se acreditaram sólidas como rochas? (e, não, nem vou bater na tecla das investidas desesperadas da revista “veja” contra o delegado protógenes queiroz, nem na da autodelação ininterrupta de gilmar mendes, defensor do angelical dantas contra o inferno do movimento dos sem-terra.) vê o (auto)desmanche da credibilidade e da legitimidade de corporações tragicamente incapazes de se autocompreenderem, vê isso acontecendo a olho nu, diante de nossos queixos caídos?

e enxerga quão grandioso e auspicioso é este momento, em que hipocrisias deram de se dissolver efervescendo feito sal de fruta em copo d’água fria?

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Editor de FAROFAFÁ, jornalista e crítico musical desde 1995, autor de "Tropicalismo - Decadência Bonita do Samba" (Boitempo, 2000), "Como Dois e Dois São Cinco - Roberto Carlos (& Erasmo & Wanderléa)" (Boitempo, 2004) e "Álbum" (Edições Sesc, 2021-2026)

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