O bom crítico é aquele que sempre fala bem ou aquele que sempre fala mal?
Na minha opinião, o grande crítico é aquele fundamentalmente honesto.
Honesto tem várias acepções. Tem de ser incorruptível. Honesto é também aquele que recusa papéis ou encargos ridículos impostos por seus superiores. Saber quando dizer não é fundamental. Honesto é ainda aquele que recusa assumir uma postura dogmática, do tipo “por definição, eu odeio isso”.
Claro, todo mundo é parcial, então é óbvio que a gente detesta um monte de coisa. Ninguém viveu a vida toda numa bolha. Mas a melhor postura é: “convença-me de que vale a pena”.

Sim, eu sei também que tem gente muito honesta com uma capacidade enorme de escrever bobagens, ou que não formula nada que faça sentido. Gente honesta sem nenhum talento. O que fazer a respeito disso? Sei lá. Que a seleção natural se encarregue de encaminhar uns e outros.
Em dado momento, ser honesto pode significar perder amigos, ser obrigado a viver numa trincheira, isolar-se, ganhar inimizades, agüentar cara feia.
Falando bem ou falando mal, corre-se esse risco.

Há quem defenda a idéia de que o crítico bom é o crítico “útil”, aquele que contribui para o desenvolvimento de uma cena, que ajuda a fortalecer uma conjuntura musical, que colabora para que essa cena musical adquira “saúde comercial”.
Isso implicaria em uma ação sistemática desse crítico na defesa de algum gênero ou grupo – seja do rock indie inglês, do baronato da MPB ou da feérica axé music baiana. Haveria um objetivo “maior” nessa ação.
Há quem pense que o crítico que escreve de um ponto de vista supostamente “neutro” (a partir dos Estados Unidos ou Europa, por exemplo) seja um crítico presumivelmente mais “puro”, menos suscetível às pressões do mundo artístico que observa. Se for estrangeiro, melhor ainda. Um elogio desse sujeito equivaleria a uma chancela de qualidade.
Na verdade, acho esse personagem até mais vulnerável ao assédio de artistas bem-postos, articulados – e familiarizados com a forma moderna dos conceitos de marketing pessoal. Sem o conhecimento histórico da formação de uma obra estrangeira, distante da sua, esse crítico pode ser presa fácil.

Muita gente vê como importantes coisas do tipo “atitude” e “sinceridade” na avaliação de arte. É comum isso no pop rock, por exemplo. É louvável, mas é mais ou menos como o juiz de futebol que define uma entrada pela “intenção” do autor da jogada.
O que é atitude?
Bono Vox, por exemplo, é um cara de atitude? Quando ele levanta grana para os desfavorecidos da África, certamente é um cara de atitude. Quando ele puxa uma garota da platéia e finge enlevo, sedução, paixão, está sendo um cara sincero? Quando ele xinga e agride verbalmente paparazzi em Búzios, mostrando o dedo médio para eles, ele é um cara sincero? Isso é fundamental na análise do show ou do disco dele?
Acho que coerência artística é mais importante que um conceito abstrato de sinceridade. Se o artista marca sua trajetória por uma busca formal, inquietação, coragem, isso deve ser levado em conta. Se ele é politica e socialmente inclinado a lutar por uma causa mais nobre, de relevância, isso pode até ser levado em conta.
Para mim, também interessa tudo que é parte da construção de uma personalidade, reconhecendo que é humana e bem-vinda a contradição. Será que Jack Kerouac teria produzido On the Road se não tivesse aquele currículo, se não tivesse se alistado e embarcado num navio, vagabundeado pelo Village, conhecido jazzistas duros em apartamentos claustrofóbicos de Nova York?
Sou como o Tostão, gosto do treinador que um dia já teve intimidade com a bola. E do artista que produz com conhecimento vívido daquilo que lhe serve de matéria-prima. Tem quem prefira o Cláudio Coutinho e o Parreira. Gostos distintos..

Para finalizar, um arrazoado do respeitável crítico Greil Marcus:
“Música é uma coisa fundamentalmente ambígua, o que explica por que o seu poder de criar símbolos (em oposição a impor símbolos) é tão grande”, ele escreve. “A música pode fazer as letras mais estúpidas soarem profundas, mas no fim das contas ela não pode carregar uma mensagem específica: seu poder de criar símbolos é o poder de criar o símbolo ambíguo. Se uma peça é musicalmente viva, se ela tem um ímpeto próprio, ela vai rebater, vai questionar quaisquer imagens explícitas ou símbolos que supostamente carrega.”

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Jotabê Medeiros, paraibano de Sumé, é repórter de jornalismo cultural desde 1986 e escritor, autor de Belchior - Apenas um Rapaz Latino-Americano (Todavia, 2017), Raul Seixas - Não diga que a canção está perdida (Todavia, 2019) e Roberto Carlos - Por isso essa voz tamanha (Todavia, 2021)

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