i
crítica
(extraída da “carta capital” 409, de 6 de setembro de 2006.)

A CASA NÔMADE DO SKANK


O grupo Skank atinge resultados notáveis em seu oitavo álbum, Carrossel (Sony BMG, R$ 30), ao escavar um pouco mais as próprias origens. Tal esforço principia pela capa de motivos nômades e circenses e se conclui pela música, que chega mais perto que nunca das raízes mineiras firmemente fincadas pela geração do Clube da Esquina.

A faixa Panorâmica, por exemplo, começa pela constatação talvez involuntária de que de repente aquela esquina era mais que um lugar. Idéias e tonalidades afirmadas por artistas como Milton Nascimento e, principalmente, Lô Borges reaparecem em faixas delicadas como Cara Nua, Notícia e Trancoso, todas enriquecidas pelo som de um excêntrico banjo, e todas dispostas naquela mesma esquina entre a MPB à moda mineira e os Beatles.

Em Uma Canção É para Isso, o Skank volta ao mito, agigantado por Milton, de que todo artista tem de ir aonde o povo está, forjando com excelência um tema pra cantar (…) na companhia do povo. É a canção de maior apelo popular, que se ajusta com precisão à complexidade maior, mas igualmente comunicativa, da faixa Garrafas, um misto estranho entre iê-iê-iê, psicodelia e balada pop. O mito a derrubar, nisso tudo aí, é o da suposta dissociação entre “qualidade” e “popularidade”. Ambas moram com conforto na casa nômade do Skank. – POR PEDRO ALEXANDRE SANCHES

ii
entrevista
(concedida por e-mail pelo líder do skank, samuel rosa, especialmente para este blog contente.)


pedro alexandre sanches – as ilustrações da capa de “carrossel”, e também algumas letras (a exemplo de “nômade”, do disco anterior), me trouxeram à mente imediatamente imagens circenses e ciganas – em parte, acho, por influência de duas reportagens sobre esses dois universos que fiz para a “carta capital” (se quiser acessar, as reportagens estão disponíveis aqui e aqui. minha pergunta é: como você diria que o imaginário cigano e o imaginário circense penetram na música brasileira, na música do skank, na música de “carrossel”, na sua música?

samuel rosa – não é difícil imaginar que levando a vida que vimos levando ao longo desses 15 anos, viajando quase todo o tempo e subindo ao palco em quase todos os finais de semana, carreguemos algo do circo, que já é meio nômade. falar sobre essa condição em nossa música é inevitável. a vida na estrada é extremamente impactante e, como se não bastasse, a rotina de uma banda pop fora dos palcos, também. os bastidores desse “mundinho fechado” são quase tão narcotizantes quanto a vida “on the road”. acredito que essas sensações contaminem nossa forma de compor. e não é pra menos. sinto até que gostaria de ir mais além nessas questões, mas ainda não fui capaz… a vida na estrada às vezes me parece insustentável. como conciliar a estrada e a vida? e mais: como conciliar aquilo que você parece ser no palco com a sua intimidade? vou filosofar! [oba!]

a vida na estrada é um “não ser”? estar em muitos lugares pode ser uma forma de não estar em nenhum!! e aí então somos marginais, como o palhaço alegre e melancólico.
e fica fácil imaginar o quanto nos sentimos próximos desse universo cirsense. somos também artistas populares, artistas do improviso, da arte não erudita, não acadêmica, por mais que vez ou outra tentemos dar outros tons a ela. talvez menos com “carrossel” e mais explicitamente no “samba poconé” [álbum de 1996] o skank tenha feito um tipo de contemplação sobre essa nossa condição de artistas do interior de um país de terceiro mundo. mas com “pretensões” de se alinhar às correntes musicais primeiro-mundistas através da tal “linguagem universal” (fosse o reggae ou o rock) e ainda brincar com o inevitável risco de vez ou outra soar como uma mera paródia dos modelos importados. sem desprezar, contudo, a possibilidade de ser uma alternativa a eles. meio que como a atlântida querendo ser hollywood. não sei se você se lembra das ilustrações do álbum [“o samba poconé”], vinham naquele formato de cartazes de cinema desenhados, muito comuns no interior do brasil, que davam invariavelmente uma “deformadinha” engraçada no rosto dos artistas. não sei se “viajo” [viaja!, oba!, viaje(mos)!], mas, num certo sentido, esse rosto deformado que se parece com o original, mas o deturpa poderia ser exatamente o nosso.

pas – também de “nuvem cigana” é a música de milton nascimento, lô borges, beto guedes e todos os artistas engajados no histórico clube da esquina. e também noto, na música do skank, uma presença crescente de laços explícitos com o clube da esquina, com a história da música popular brasileira feita a partir de minas gerais. você também vê isso acontecendo? é proposital, ou natural, ou tudo ao mesmo tempo?

sr – confesso a você que tinha eu já meus 18 anos, uns três de guitarra e a música dos “garotos da rua divinópolis” ainda não tinha batido. fazia parte apenas de minhas reminiscências, já que meu pai gostava e eu ouvia por tabela. acho que o clube da esquina começou a ter real valor para mim quando percebi que lô, beto e cia. encarnavam a possibilidade de alguém, mesmo tendo nascido num gueto improvável como era belo horizonte, fazer algo interessante aos ouvidos do brasil e até do mundo. ou seja, mesmo não tendo nascido em liverpool, a gente tinha uma chance. era muito estimulante para quem vislumbrava uma pequena possibilidade de poder viver de música em bh, trombar com caras já populares em todo o brasil, em botecos, estádios de futebol etc.

e não era só isso: o som do clube da esquina também já era uma tentativa bem sucedida de resolver um dilema que vivemos até hoje: o de como fazer rock ou pop de qualidade, ou uma música que fale preferencialmente à juventude, sem soar inglesa ou americana demais. a meu ver, a música do clube é mais peculiar e menos universal do que deveria. nesse ponto, me identifiquei mais especificamente com o lô. passei a acompanhá-lo em discos e shows, aprendi a tocar suas músicas, virei um grande , não perdia nada.

naturalmente, depois disso meu interesse musical foi mudando, mas aquelas expressões melódicas e seqüências harmônicas provavelmente ficaram cravadas em meu dna musical. foi aí que, em 1995, naquilo que considerei um aceno, lô gravou “te ver”, música minha e do chico amaral em seu disco “meu filme” [1996]. em contrapartida, chamamos lô para participar de um disco comemorativo do selo chaos, da sony, cantando conosco “você fica bem melhor assim”. depois disso, ficamos muito próximos e veio a idéia de fazermos shows juntos e posteriormente um disco, que ainda não rolou (os shows rolam eventualmente, de acordo com a conveniência das nossas agendas). acho que definitivamente nos tornamos parceiros e eu também percebo o quanto esse encontro, somado àquilo que anteriormente já havia assimilado do clube, vem influenciando as transformações no som do skank.

pas – apesar de nômade, o skank está radicado em minas gerais, certo? é possível fazer música de apelo e popularidade no brasil sem se escravizar ao eixo rio-são paulo?

sr – não totalmente. a possibilidade que temos de tocar nossa carreira e ainda permanecer em bh nos é muito favorável. um dia cheguei a duvidar que o skank pudesse existir sem que nós nos mudássemos para o rio ou são paulo. não é pra menos, antes da nossa geração (a dos anos 90) isso não era muito usual. as bandas, mesmo sendo de outros cantos do brasil, inevitavelmente se transferiam para o “grande eixo”. porém ainda sentimos o quanto é necessário para uma banda de música popular se fazer presente nesses lugares de forma sistemática. escolhemos transitar num universo musical que exige muita visibilidade, constância, quase que uma militância em determinados tipos de veículos que se concentram basicamente em rio e são paulo. nos esmeramos em fazer isso na conta certa, claro que de forma totalmente intuitiva. e, ainda, felizmente gozamos de suficiente autonomia junto à gravadora.

pas – é cada vez mais comum a associação do som do skank com sons como os de blur, oasis, radiohead etc. (confesso que até ecos de luna ouvi em “carrossel”). não raramente, essa associação é feita meio que desmerecendo, colocando o skank como copiador “terceiro-mundista” de matrizes lá do “primeiro mundo”. o que você acha disso?

sr – não me arriscaria a dizer que em termos de música pop o brasil já tenha chegado ao brilhante resultado de produzir algo genuinamente seu. acho que ainda não, mas quem sabe um dia? por mais que ao longo da sua história musical o país tenha produzido bons grupos de rock, respeitados até mesmo por quem mais entende do bordado (vide mutantes e a crítica inglesa), até mesmo eles, em algum momento, beberam em fontes estrangeiras. alguns mais, outros menos, mas invariavelmente todos beberam! a meu ver, nossa conduta não destoa tanto assim de outros grupos brasileiros de rock e pop que almejam fazer algo de qualidade (se pelo menos essa é a intenção) se alinhando com o que de melhor está sendo feito lá fora. se há demérito nisso então, por favor, vamos de novo às passeatas contra a guitarra!

é um pouco o que falei na resposta da primeira pergunta. não posso concordar que esse “conflito de identidade” seja uma exclusividade do skank, porque, se não estou enganado, o hip-hop não nasceu na periferia de são paulo, tampouco nos morros do rio; o movimento punk não foi inventado no planalto central; o romantic reggae não se criou nos litorais tupiniquins; e são paulo está a milhas de distância da califórnia para reivindicar uma parcela de colaboração na fórmula final (diga-se de passagem, extremamente padronizada) do emocore!

indo um pouco mais além, essa condição não se restringe apenas às bandas, acho que não é exagero dizer que é perceptível um vinculo ainda forte com modelos importados também em outros setores, como revistas especializadas, as tvs de música e suas premiações e até mesmo na própria crítica. mas realmente penso que nem por isso tenhamos deixado de chegar a resultados bem satisfatórios na maioria desses segmentos. contudo, não dá tapar os olhos para uma condição que é a nossa (e de tantos outros), ou seja: um grupo de terceiro mundo querendo fazer rock, querendo se inserir e usar de linguagens universais. e de mais a mais eu não vou colocar gratuitamente tamborins em nosso som, só pra falar que nós misturamos samba com rock. não vou! nem mesmo pra vender show no exterior, que é o que muitos fazem!

acredito na possibilidade de se criar uma identidade, ainda que sutil, confiando apenas no simples fato de que como brasileiros teremos a chance de ler e produzir rock de uma forma muito própria, não sendo então necessário acentuar traços daquilo que naturalmente pode aparecer. se antecipar, neste momento, pode fazer a coisa desandar. mutantes, secos & molhados, clube da esquina, todos chegaram a um ponto de excelência musical e a um nível de universalidade sem necessariamente se exacerbar em exotismos.

pas – reformulando a mesma pergunta de cima, haveria mesmo uma relação direta do skank com bandas inglesas e norte-americanas “modernas”, ou ela vem mais por intermédio da enorme influência dos beatles, e do uso que os artistas do clube da esquina fizeram dos beatles?

sr – pedro, não é segredo pra ninguém em que filão do rock’n’roll o skank deseja transitar. isso fica claro ao ouvir nossas músicas e até mesmo em nossos releases muito já foi dito. creio ser muito claro qual fatia do bolo mais nos seduz. contei ainda nas respostas anteriores um pouco da minha história com o pessoal do clube.

com relação aos beatles, sinto a necessidade de fazer algumas considerações porque, verdade seja dita, os beatles são o começo de algo muito abrangente! é realmente muito difícil a todo compositor que deseja fazer rock com mais de três acordes e trabalhar melodias não esbarrar neles. os caras foram talvez os primeiros a trazer de forma contundente a “canção” para o rock. além do mais, produziram uma música ao mesmo tempo tão “inespecífica” e com tanta identidade (por mais paradoxal que isso possa parecer) que, a meu ver, acabaram por criar um estilo que tanto influencia bandas como as que você citou e milhares de outras. e mais, estavam à frente na década mais transformadora e revolucionária do século passado e que talvez por isso tenha ecos até hoje. claro que com a ajuda dos principais expoentes do britpop, que por sua vez acabaram por influenciar as “supernovas” bandas da cena atual… mas o fato é que os beatles estão aí até hoje e “revolver” [1966], com 40 anos, ainda é um disco insuperável no quesito modernidade.

nesse sentido, é um pouco arriscado dizer a uma banda que tem fortes traços de beatles e da música sessentista que ela soa retrô. a sensação que tenho é que para esses milhares de bandas que optam por fazer um rock mais melódico, tentando uns passos fora do recurso óbvio e onipresente da guitarra distorcida o tempo todo (que alguns simplistas insistem em colocar no mesmo saco sob o rótulo de “soft rock”) é que essa associação com os beatles é tão óbvia e superficial quanto falar a uma banda de reggae que ela tem “algo” de bob marley.

mas também não quero me justificar e nem me ater às qualidades dos beatles e sua capacidade de influenciar bandas até hoje. o fato é que ninguém faz música sozinho, muito menos a partir do nada. alguém já disse que “o homem não é uma ilha”. todos nós estamos sobre forte influência do mundo e, principalmente, sob forte influência daqueles que admiramos, seja nas artes plásticas, literatura, teatro etc. caetano veloso, em recente entrevista pela ocasião do lançamento de seu novo álbum, citou pelo menos uma dezena de referências, de sonic youth a haroldo de campos. todos estão lá no seu último álbum.

pas – se fosse possível escolher, o skank de “cosmotron” [2003]e “carrossel” é mais oasis, ou é mais “para lennon & mccartney” [canção de lô borges, márcio borges e fernando brant, gravada em 1970 por milton nascimento, e que conta simbolicamente (ou não?) a john e a paul que “eu sou da américa do sul/ eu sei, vocês não vão saber/ mas agora eu sou cowboy/ sou do ouro, eu sou vocês/ sou do mundo, sou minas gerais”]? é mais “gringo”, ou é mais “eu sou da américa do sul, eu sei, vocês não vão saber”?

sr – o grau de parentesco entre “cosmotron” e “carrossel” é patente, mas, na minha opinião, “carrossel” é um disco menos preso a cartilha de um estilo musical. acho que no novo disco as referências são mais internas do que no anterior. como se a banda tivesse uma autonomia maior ao passear nessa seara das canções e timbres mais apurados. é como se estivéssemos mais capacitados a fazer adaptações a esse estilo ou caminho que decidimos trilhar desde o “maquinarama” [2000] (modéstia à parte).

pas – há um banjo rodando intermitente com o “carrossel”, por que vocês elegeram esse instrumento? ele estabeleceria algum tipo de ponte com os estados unidos, onde inúmeros artistas (de neil young e bruce springsteen a madonna e norah jones, do cinema hollywoodiano ao cinema independente, dos artistas “apolíticos” aos mais anti-bush) parecem olhar com mais carinho e afeição para a country music, para sua música “de raiz“?

sr – assim como o banjo, outros instrumentos que nunca haviam dado as caras em discos anteriores do skank apareceram dessa vez. Principalmente instrumentos de orquestra: trompas, violinos, tímpanos, vibrafones etc. além disso, foi dado um cuidado maior aos vocais. trabalhamos em coro em quase todas as músicas, sempre com extremo zelo, para não descambar para o sertanejo, motivo talvez pelo qual grupos brasileiros não se arrisquem muito nessa praia. o fato é que queríamos dar uma produção ainda mais cuidadosa ao álbum, além até da que tivemos no “cosmotron”, sem perder o lado artesanal, que descobrimos ao fazer “maquinarama”. isso tudo, não posso negar, muito inspirado por bandas gringas, que conseguem conjugar bem a boa produção com uma aura “low profile”. ou seja, mesmo com muito requinte, soa honesto. uma certa “simplicidade sofisticada”, como diria nick hornby.

pas – e, voltando ao brasil natal, existe um interesse crescente, por parte do skank, de dialogar com suas raízes locais?

sr – curioso notar que ao escolher fincar o pé nessa sonoridade atual, o skank, como você bem observou (mas muitos não conseguem ou não querem perceber), acaba honrando uma tradição da música brasileira. ao soar melódico, psicodélico, ou até mesmo rural, o skank acaba por perpetuar correntes musicais que já têm décadas de história dentro da nossa música. ainda que nos dias atuais exista quase uma obrigação em corresponder a uma expectativa gringa de sempre ligar o brasil a música festiva, rítmica, etc. não podemos nos esquecer da grande tradição melódica e harmônica que temos.

mas, como falei anteriormente, tenho algumas ressalvas quanto à busca obsessiva ou premeditada por infringir traços da música de raiz brasileira no pop ou no rock.
concluindo, e voltando mais ao centro de sua pergunta, se pudermos considerar clube da esquina e jovem guarda como raiz musical, eu diria que o skank, de uma maneira ou de outra, nunca deixou de estar ligado as referências locais.

pas – “uma canção é pra isso” recupera o clima de “vou Deixar” e vai mais além ainda, explicando na própria letra o que essa estirpe de canções pretende: ser popular, estar perto do “povo”, ir aonde o “povo” está. a “fórmula da canção pop perfeita” existe, vocês buscam essa “pedra filosofal” nessas canções? por quê, para quê?

sr – tenho certeza que alguém já disse que o formato da música pop já se esgotou. mas não creio que seja por causa disso que vou deixar de gostar dela e de até reconhecer seus méritos. não é lá tarefa muito fácil fazer uma música que caia no gosto popular e de que ainda assim você possa posteriormente orgulhar-se. fernanda takai certa vez sabiamente falou: “fazer esquisitices musicais não é lá muito difícil”. acho que ela estava se referindo ao quanto pode ser mais complicado fazer algo que caia no gosto de uma multidão. “uma canção é pra isso” tenta, de alguma maneira, dizer que esse fenômeno não e lá tão desprezível quanto alguns querem acreditar, e mais, citando de novo nick hornby, ela se encaixa num perfil de músicas que não têm pretensão maior, senão a de inspirar pessoas, sei lá, consolá-las depois de um dia ruim, ser uma brisa de otimismo pra quem procura esse tipo de sensação em uma canção. e por que a música não pode se prestar a esse fim? obviamente, não desprezando a possibilidade que ela tem de cumprir outros papéis.

pas – é possível ser comercial, rentável etc. dentro de um projeto que almeje a “qualidade”? é possível fazer “música de qualidade” dentro de um projeto que se pretenda popular, industrial etc.? é possível ao mesmo tempo ser comercial e fazer uma canção (ainda bastante sutil, é verdade) chamada “antitelejornal“?

sr – se não estou enganado, ou indo muito além, existe algo subliminar em sua pergunta que é: “o por quê da necessidade quase que implacável de dissociar aquilo que é de qualidade daquilo que é popular?”. algumas certezas já temos, como, por exemplo: nem tudo que é popular é necessariamente ruim. certo? outra: muitas coisas passam a ser ruins depois que se tornam populares. nós mesmos já vivemos isso. vi muita gente desdenhar do nosso trabalho depois que passamos a ser mais populares, principalmente pessoas que haviam sido muito receptivas com nossos primeiros trabalhos e, mais ainda, quando éramos independentes. nossos primeiros álbuns tiveram críticas de razoáveis a boas à ocasião de seus respectivos lançamentos e depois se tornaram piores, sem que nada fosse alterado neles. nem mesmo uma nota sequer.
porém concordo com a idéia de que algumas coisas podem se sofisticar tanto a ponto de atingirem um nível de complexidade que inevitavelmente as tornam mais difíceis de serem compreendidas. van gogh morreu miserável; bob dylan, apesar de sua genialidade e de ser uma das principais influências de meio mundo pop, nunca teve uma vendagem proporcional à sua importância. o problema que vejo em insistir nisso é o risco que corremos de perpetuar um vício comum tanto da crítica (desculpa, nada pessoal) [disponha, samuel!! concordo plenamente contigo!!!] quanto dos “formadores de opinião” de estar sempre mais inclinados a legitimar aquilo que é menos popular, ou que está mais à margem, do que aquilo que já passou pelo crivo popular.

é uma sensação de que ao artista popular não é concedido o direito de reconhecimento por parte dessa classe. claro que isso não é via de regra. só estou falando de uma tendência que eu acho existir. também não deixo de achar que o papel da crítica deva ser esse mesmo, de enxergar coisas que a média não vê, lógico. mas esse tipo de protecionismo acaba por gerar uma incômoda proliferação de candidatos a bob dylan no circuito alternativo que acreditam piamente que não vendem porque são bons demais!

[obrigado ao generoso samuel!, pela entrevista! e obrigado, também, à generosa susana ribeiro, que intermediou nosso bate-papo!]

iii
reflexão
(porque o melhor lugar do mundo é aqui, e agora… e em forma de abecedário, porque no abc do sertão o ele é , o eme é , o ene é , e até o ípsilon é pissilone…)

a) talvez minhas perguntas ostentem um tom passadista, na insistência em torno de beatles e de clube da esquina (e, por que não?, até mesmo de oasis). mas é que me bate fundo o fio delicado de memória que ouço, a unir uma das mais monumentais canções da história da música popular brasileira (a prosaica, presunçosa, sentimental e topetuda “para lennon & mccartney“) a baladas de “carrossel” como, por exemplo, “panorâmica”, “cara nua” e “notícia”. essas novas canções têm muita história guardada dentro delas, e isso é tão bonito.

b) ouço (ou interpreto, sei lá) que samuel não acredita que algum artista pop brasileiro tenha chegado algum dia “ao brilhante resultado de produzir algo genuinamente seu”. discordo dele nisso, e os exemplos em contrário abarrotam minhas estantes lotadas de vinis e de cds. chego a duvidar de que o próprio samuel acredite 100% nisso, até porque há no disco de sua banda uma balada chamada “cara nua” (composta em dupla com o supercarioca humberto effe), que ecoa e vai bem além do lamento tipo “vocês não sabem da américa do sul” do velho clube da esquina. “que dia é esse que só nasce pra você?”, perguntam a letra e a melodia, ambas muito aparentadas de lô borges. cá deste lado fico fantasiando que estão falando não mais a lennon & mccartney, mas aos produtores-difusores exclusivistas do lixo ocidental que vem da américa do norte (há muitos brasileiros entre esses)… “viajei”? bem, fantasiar é um direito pleno do ouvinte, não?

c) o que seria o “sertanejo”, conforme citado por samuel durante a entrevista? seria uma condição, um vírus, uma doença, uma contaminação, um ente “inferior” diante de entes “superiores”? o que seria a nossa habitual repulsa pelo gênero (seria um gênero, o “sertanejo”?)?, que leva samuel, por exemplo, a temer “descambar para o sertanejo”? nutrimos ojeriza por conta das apropriações perversas dos “sertanejos de indústria”, ou é contra a própria idéia “sertaneja” em si que nos rebelamos? nossa repulsa é aos abusos, ou é à própria existência do sertanejo (antes de tudo, um forte), do caipira, do matuto, do caboclo, do mulato, do cafuzo, do negro, do intersexo, do interiorano, do rural? difícil responder (estamos em pleno trajeto), mas esse horror de distanciamento hoje nos traz à condição peculiar, paradoxal, tensa, de querermos muitas vezes admirar os banjos simbólicos em bob dylan ou strokes ao mesmo tempo em que escorraçamos com intolerância os banjos simbólicos em tonico & tinoco ou zezé di camargo & luciano. pois no meio do caminho dessa antiqüíssima cisão havia um skank, filho de um milton, por que vocês não sabem do lixo ocidental?

d) por falar em “rural”, foi só quando samuel utilizou esse termo que se materializou na minha cabeça uma associação que acho que só estava existindo em forma de sentimento, bem longe do cérebro. só então caiu-me a ficha da proximidade do som atual do skank com o “rock rural” brasileiríssimo (& estrangeiríssimo) dos anos 70, conforme praticado por sá, rodrix & guarabyra, ou marcos valle quando associado com o grupo o terço, ou erasmo carlos quando associado com o grupo karma, ou elis regina quando cantando “casa no campo”, de zé rodrix e tavito, entre tantos mais. talvez estejamos falando, se for possível condensar, na música não-praiana brasileira, aquela que brota de minas gerais, mas se esparrama também pelos interiores mato-grossenses, capixabas, goianos, amazônicos, paraenses, paranaenses, catarinenses, gaúchos etc. talvez estejamos nos referindo àquela música que brota dos lugares íntimos que os demofóbicos atolados em preconceitos até mesmo geográficos chamam pejorativamente de grotões (enquanto xingam de quadrilha o conjunto das pessoas originárias dos “grotões”).

e) é significativo que samuel rosa, haroldo ferretti, henrique portugal e lelo zaneti tenham iniciado a jornada musical do skank tão próximos do reggae, tão praieiros, tão jamaicanos, e hoje tragam estampada na testa a linda palavra interior.

f) sobre a ligação que samuel faz entre a música do skank e a jovem guarda, há um trecho lindo na canção mais popular (em vários sentidos) do disco, “uma canção é pra isso”, que é o seguinte: “uma canção me veio sem querer/ naquela hora difícil/ joguei-a logo nesse iê-iê-iê/ por profissão ou por vício“. roberto carlos mora profundamente dentro de samuel e de chico amaral, os autores dessa música. não foi nada à toa que roberto chamou samuel para acompanhá-lo ao violão, na reedição do hit iê-iê-iê “é proibido fumar” (que o skank já gravara em 1994, na compilação “rei” e no álbum “calango”), em seu “acústico mtv” (2001).

g) muito à maneira de roberto carlos, aliás, “uma canção é pra isso” sobe às nuvens do enlevo quando desliza pela melodia afirmando que “uma canção é pra acender o sol no coração da pessoa”, “pra fazer o sol nascer de novo”, “pra contar o que nos encantou na companhia do povo”. não é nada à toa que ela é o carro-chefe de “carrossel”, uma generosa canção popular(& rebuscada) num generoso disco rebuscado (& popular).

h) acredito que “uma canção é pra isso” e também “vou levar” (mas igualmente canções bem mais “sofisticadas” como “garrafas”, do novo cd, ou “formato mínimo” e “dois rios”, do disco anterior) constituem elas mesmas uma resposta possível e plausível e provável para a dúvida que samuel expressa ao afirmar/perguntar que/se “nem tudo que é popular é necessariamente ruim (certo?)”. temos aí possivelmente uma idéia invertida, a célebre falsa questão que muito se disseminou pela sociedade brasileira, partindo das classes mais “altas” para as classes mais “baixas”. a academia, a crítica e o jornalismo sempre lideraram os rebanhos puxadores dessa classe de preconceitos, desse preconceito de classes. tiveram evidentemente a cumplicidade retro-invertida de artistas e animadores de auditórios, que insistiam com igual nível de pressão e intolerância no estigma contrário, de que “tudo que é popular é bom”, ou de que “tudo que é impopular é ruim”. todos estavam surdos, trancando conceitos supostamente estanques em gavetas forjadas fosse na ignorância “popular”, fosse na ignorância “intelectual”. só o que se conseguiu, com isso, foi interromper transitoriamente (meia geração? uma inteira? mais que isso?) a livre circulação entre o “popular” e o “impopular”, o “sertanejo” e o “urbano”, o “erudito” e o “inculto”, o “sábio” e o “burro”, o “simples” e o “complicado”, uma montanha desta altura de rótulos preconcebidos, amorfos e inoperantes. hoje, quem faz as perguntas é quem traz as respostas, em perfeita sincronia interna.

i) do fio de tempos-espaços imemoriais, milton nascimento troveja por trás de “uma canção é pra isso”, para lennon & mccartney e para nós-brasileiros-do-mundo: “por que vocês não sabem do lixo ocidental? não precisam mais temer, não precisam da solidão. todo dia é dia de viver”. porque, como milton já sabia dos bailes da vida, todo artista tem que ir aonde o povo está. e porque, como todo mundo já está sabendo, todo mundo neste mundo é artista.

DEIXE UMA REPOSTA

Por favor, deixe seu comentário
Por favor, entre seu nome