ambos estão em cartaz em são paulo (ou nos melhores cinemas da sua cidade, ou nos melhores camelôs do ramo, ou em download na próxima cyberesquina). são dois filmes de coluna vertebral sustentada na figura conflituosa do pai, da paternidade. os personagens protagonistas, nos dois casos são homens travestis, um deles interpretado por uma atriz, outro deles interpretado por um ator.

“transamérica”, de duncan tucker, é estrelado por uma mulher que interpreta um homem que quer ser (totalmente) mulher. embora localizado nos estados unidos da américa, não se passa exatamente na américa, mas antes na transamérica. nesse filme, o travesti É o pai.

“café da manhã em plutão”, de neil jordan, é estrelado por um rapaz que interpreta um rapaz que se traveste de (quase) mulher. embora ambientado em territórios idílicos que tentam remeter muitas vezes ao planeta (agudamente pop) mencionado no título, desenrola-se entre a irlanda e a inglaterra, sob alicerces bem mais terráqueos que plutonianos. nesse filme, o travesti É o filho, o filho de um pai, de um “father”, de um padre.

tensões pairando na atmosfera entre plutão e a terra, “transamérica” e “café da manhã em plutão” são, acima de qualquer coisa, filmes sobre tolerância, sobre aceitação, sobre conquista – e, dentro disso tudo, sobre paternidade. pertencem, portanto, a modalidades que não vinham sendo muito praticadas no final do século passado, mas que parecem voltar com toda força na outrora tão sonhada (e hoje real) “era de aquário” – alô, “brokeback mountain”, alô, “terra fria”, alô, documentários brasileiros a granel, alô, etc. etc. etc.

também sobre plutão discursava ind’outro dia, o editorial “a favor de plutão”, da na “folha de são paulo”. tal editorial oficial, embora irradiado a partir do planeta terra (mais precisamente, da cidade de são paulo), quase parecia provir de plutão. também versava sobre tolerância, aceitação e conquista (e até, nas indiretas, paternidade), mas de modo bem mais desastrado e confuso que os daqueles seus pares cinematográticos.

causava zonzeira estratosférica, o editorial a favor de plutão, a ponto de motivar o exercício de literatura comentada que segue abaixo. sim, estaremos brincando um pouquinho nos próximos parágrafos – mas brincando com seriedade, com esforço (irônico, é verdade) de aceitação, tolerância, conquista, fraternidade.

[burlescos e circenses, os comentários à literatura plutoniana virão grafados em itálicos tombados. os espantos, os maiores deles, luzirão em negro negrito.]

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A favor de Plutão
[uai, mas alguém por aí seria contrário a plutão? plutão mereceria nossa oposição? iríamos bombardear plutão, dizimar e exterminar plutonianos da face risonha do sistema solar, do universo infinito (enquanto dure) (enquanto duro)?]

MERECE APOIO [apoiemos! apoiemos!] a definição de planeta proposta por um comitê da União Astronômica Internacional (IAU) [iau!!! ipiaiô!!! aiô, silver!!!!]. Uma das suas virtudes é garantir que Plutão perca seus “direitos planetários” [mas, minha nossa estamira, direitos adquiridos não são direitos garantidos, sacramentados, esculpidos em carrara?! pobre plutão pobre] [e essas “aspas”?, por que essas aspas?], como defendem os astrônomos que julgam [julguem-no! cortem-lhe a cabeça! cancelem-lhe o status planetário! prisão a plutão!] o astro pequeno [“pequeno”?, minúsculo?, pecurrucho?, assim como um zé-povinho dos aspirantes a planetas?] e exótico [exótico?, bizarro?, anômalo?, assim como um zé-povinho preto, mulato, cigano, circense, anão, gay, transexual, feminino?] demais para ser considerado um planeta.

Descoberto em 1930, Plutão já se consolidou culturalmente como o “mais distante dos planetas” [nada como as sacrossantas tradições culturais para consolidar adequadamente um planeta distante…] [mas e essas aspas, para quê?]. É nessa condição que ele figura em todos os modelos do Sistema Solar. É como planeta que ele aparece em referências científicas e literárias. É de planeta que as crianças aprendem desde cedo a chamá-lo na escola [sim, sim, ó, deus, nos salve esta escola santa!, onde as crianças plutãs desde pequenas também aprendem que princesa isabel foi generosa com os negros plutões, que a escravidão plutoniana se encerrou num decreto, que a lei é igual para todos os plutos e as plutas, todas essas coisas aí tão palpáveis como o éter que enebria plutão].

A sabedoria recomenda que se reconheçam os “direitos adquiridos” [ah, essas aspas, sempre elas…] de Plutão. Se for aprovada pela assembléia da IAU, na próxima sexta-feira, passarão a ser considerados planetas todos os corpos celestes que descrevam órbita ao redor de uma estrela, mas que não sejam uma estrela, e que tenham massa suficiente para que a sua própria gravidade os torne esféricos [uai!, mas então plutão, que era planeta, vai passar a ser… planeta?!!!!! jeca-pluto-tatu ergue o dedo, que uma dúvida o consome: mas, seu moço, é pra nóis sê contra ou a favor da iau? nóis num tá entendendo!].

[mas e a lua?!, ninguém vai nos informar sobre o que acontecerá com a lua após a revolução de sexta-feira?! o satélite da terra estaria em vias de se descolar, de proclamar independência em relação ao, er, planeta que ela rodeia?]

Como efeito colateral [que medo, que grilo, que bode…, “todo remédio que me cura tem uma contra-indicação”?, como já reclamou rita lee?], outros objetos ganhariam estatuto de planeta [surgiriam, a partir da reforma dos estatutos, planetas-negros, planetas-idosos, planetas-anões, planetas-bissexuais, planetas-deficientes (físicos & mentais), planetas-assediados (sexuais & morais)? perigo!, perigo!? tornar-se-ia proibido escravizar física e/ou sexualmente planetas-crianças, planetas-adolescentes, planetões-adultos? perigo!, perigo!, decepe-se o status planetário de plutão!?, ou não!?]. É o caso de Ceres (entre Marte e Júpiter), Caronte (até aqui considerado um satélite de Plutão, mas que na verdade descreve juntamente com este astro uma ciranda [“ciranda, cirandinha, vamos todos cirandar”?! “essa ciranda quem nos deu foi lia (preta-pobre-mulher), que mora na ilha de itamaracá”? “ciranda de maluco, ali em pernambuco(tietê-todo-podre-de-dejetos-despejados-pela-elite-européia-branca-&-limpinha)?], girando um em torno do outro) e “Xena” [“xena”???? aquela das histórias em quadrinhos, a lésbica? ou xena, a dona de pluto? oh, não, pluto é do mickey, da minie, do pateta… santa confusão em quadrinhos de foguetório, batman!] (astro pouco maior do que Plutão descrito em 2005 e que deu “munição” [pow! pow! pow!, alô, dona “veja”-armamentista!] para os que queriam rebaixar [rebaixem-lhe o status! que plutão siga varrendo a poeira de estrelas esparramada pelos anéis de saturno! “quem tá fora não entra, quem tá dentro não sai”! “a cidade não pára, a cidade só cresce, o de cima sobe e o de baixo desce”!!!! ou não?!] o “planeta gelado” [brrrrrr!, aspinhas!] de categoria).

Além disso, ficam na fila [êita, fila de plutonianos que não pára de crescer!, alô, maroca!, alô, poroca!, alô, indaiá!, alô, estamira!, alô artur bispo do rosário!, alô, gentileza (gera gentileza)!] para tornar-se planetas mais uma dúzia de grandes asteróides, a maioria no cinturão de Kuiper, nos confins do Sistema Solar [ah, esses confins de kuiper, versões plutonistas dos desertos do afeganistão, da faixa de gaza, do capão redondo, do jardim gramacho, de pirapora do bom jesus…, que teimam em só querer “tornar-se”, “tornar-se”, “tornar-se”. oh, transamérica-latina queixosa por se tornar!…].

Alguns astrônomos se opõem a essa “proliferação” […de aspas…] de planetas [ah, esses planetas, que procriam e se reproduzem feito coelhos, feito ratos, feito bichos! esses pobres planetas pequenos, culpados por tanta tragédia que nós, de terráqueos planetas centrais, temos de passivo-agressivamente aturar!, ó, santa nervosa provação!], mas ela é esperada [virá! ela virá!]. Se é em princípio infinito o número de estrelas e de planetas no Universo, não há razão para temer [sim, não, para que temer a igualdade entre os planetas?! cotas planetárias para plutão!! viva a “raça” plutoniana, conquanto não se enciumem venusianas, uranistas, saturninos, marcianos, lunáticas…] contabilizar mais algumas dezenas destes astros em nosso sistema [“no dia em que a terra parou”… “no dia que o sol declarou seu amor pela terra”… “estrelas mudam de lugar, chegam mais perto só pra ver”!…].”
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reúnam-se os conselhos, decrete-se o feriado. permitiremos ou proibiremos a emancipação de plutão? os sacerdotes-conselheiros andam um tanto confusos e contraditórios, ou essa é só uma impressão tola de zé-povinho?

teremos que decidir por nós mesmos, plebe rude & ignara, se plutão fica ou se plutão sai? aceitariam os conselheiros-sacerdotes nossa colaboração, nossa participação plutoniana nos processos decisórios? plutão é uma democracia (ou é uma plutocracia?)? – ou uma ditadura camuflada entre coxas roliças?

mas, uma vez declamada a democracia e aceita a entrada triunfal de plutão ao time a que plutão afinal sempre pertenceu, poderíamos, todos juntos (“somos fortes”?), gregos & troianas, sentar tranqüilos numa casa de chá de tolerância para um café da manhã em plutão, aqui mesmo na transamérica verde-amarela-vermelha-azul-anil?

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