supla é roqueiro punk & new wave, ex-líder da banda tokyo. hoje roqueiro quarentão, supla migrou, nos anos 90, para os estados unidos da américa (do norte), onde plantou sementes de bossas furiosas & outros rocks. roqueiro brasileiro, supla depois voltou para os estados unidos da américa (do sul) e liderou, com bárbara paz e com simpatia, elegância & boa educação, a primeira edição do programa telecircense “casa dos artistas”, de silvio santos. herdeiro de matarazzos, supla é desde sempre filho de um tradicional (ex-)casal de petistas de raízes fincadas na aristocracia paulistana.

supla é, em resumo, um playboy, um daqueles típicos que mano brown tratava com arrogância no tempo em que generalizava os playboys e ainda não sabia, como veio a descobrir depois, que “arrogância é burrice”. pois, se mano brown se compromete a tentar ser menos burro a cada novo dia, façamos nós o mesmo, e olhemos para supla.


supla vem aí de novo cd, “vicious”, co-produzido e bancado pelo coringa da indústria fonográfica rick bonadio, em seu selo arsenal music, distribuição universal (universal music, não universal do reino de deus). antenas ligadas à la mano brown, admiremos “vicious”, o novo trabalho do doce playboy do asfalto paulistano.
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demarca no chão de serragem o punk rock de abertura, “pensamentos”: “this is no religion”, isto aqui não é religião. sim, não é, mas… será que não é? o rock’n’roll não é de fato uma religião, embora roqueiros pauleiros & pregações heavy metal guardem tantas semelhanças com pastores & púlpitos, com padres & paróquias?
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conclui pelas altas rodas o punk rock de encerramento, “badalam os sinos”: “tomava de tudo/ mandava ver/ bala, uísque, sei lá mais o quê/ tomava de tudo/ mandava ver/ a noite inteira foi de foder/ oh yeah”. lá na favela labutam os falcões, cá no asfalto as águias fazem a festa.

[não causou repercussão na imprensa grande, mas não custa aqui reproduzir uma declaração para lá de polêmica do velho playboy cláudio lembo, ora governador de são paulo, ora administrador de crises pcc, à revista “istoé”: “A burguesia não está mais conseguindo oferecer cocaína em baixelas de prata. (…) Essa crise começou quando a polícia conseguiu interromper parte do fornecimento de drogas para a nossa elite. Prendemos 60 líderes do PCC e quebramos por um tempo a cadeia do tráfico. Aí todo mundo entrou em espasmos, o PCC ficou sem caixa e a elite sem cocaína”. será um desses, o protagonista do beat acelerado da balada adrenalinada “badalam os sinos”?]
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o grand monde espevitado domina “sweet love”, mais uma faixa a evocar as paisagens da high society (alô, alô, marciano!): “abriu um champanhe, morango e chantily/ pediu pra me despir”. ela (se) despiu?
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filho de marta & eduardo suplicy, supla faz jus à árvore genealógica híbrida aristrocrática-militante e declina opinião, em “opinião”: “fico observando o presidente/ notícias recentes da população/ mais uma história pra entreter/ pode ser pra mim ou pra você/ não estou pregando/ nem concordo/ cultura, política e diversão/ o seu conhecimento não é igual ao meu/ cada um tem sua opinião/ a mídia convenceu/ o que aconteceu/ eu não me informei/ o que vão contar não sei, não sei/ só se lembre que nem tudo é/ do jeito que a gente vê/ sendo um boneco controlado/ milhões de coisas pensam por você/ imaginação é o que devemos ter/ contradição pode acontecer/ e a televisão é mais um remédio/ como se fosse uma solução”. musicalmente, tributário apaixonado das transgressões à la lou reed e, sobretudo, das diabruras à la iggy pop. textualmente, lembretes simples, diretos, transparentes, engajados colados à porta fria da geladeira.

[no dvd 100% favela, comentado um tópico abaixo, imagens da multidão reunida na favela godoy, no extremo sul paulistano, focam um homem branco acompanhando o show em meio à multidão quase nada branca: ele é eduardo suplicy, o pai de supla. você já foi à favela, branco(a)? não? então vá…]
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atravessando o espelho, supla se faz fã e narra em “ídolo” o encontro com um seu ídolo (iggy pop?): “não foi metido”, “e ainda me chamou para ir ao show”. admiração e tietagem não têm classe, não têm profissão – os ídolos também idolatram, também fanatizam. o que significa, no reflexo do espelho, que fãs também podem ser ídolos, que manos também podem ser playboys como playboys também podem ser manos. assim falou mestre mano brown, assim falam os mestres, manos (caetanos?).
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“chat-o-log” digita, o narrador solitário e melancólico em meio à multidão de bips acelerados: “computador ligado/ sem nenhum amor” (…) “adiciono pessoas/ o bate-papo tá chato“. é nóis? ou há vida inteligente na vida pós-cyber? e no rock’n’roll anos 2000, o que é que há?, o que é que está se passando por essa cabeça, mister brazil 2000?
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em “só eu sei (living my life)”, eclode o exímio melodista. ok, supla duplica, decalca, recicla, cita à exaustão seus ídolos. mas, mesmo assim, custaria muito reconhecer que “japa girl” (prima de “china girl”, dos transgressores glitter iggy pop e david bowie) possui uma excelente e aderente melodia? se não custar, já se pode admitir que assim vai também “só eu sei”, sob versos de travo amargo, agridoce, melancolicamente sincero: “living my life/ só eu sei/ living my life/ muito errei/ living my life/ até cansei”.
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o aristocrata politizado se esbalda em “museu dos pobre”, em parte denunciosa, em parte jocosa: “só playboy tem ipod/ e os pobres só se fode”. na tentativa precária e algo estereotipada-caricatural de defender “os pobre que só se fode”, sobram farpas para seus pares playboys-consumistas-bobalhões: “chegou lá na loja, seu pai vai comprar/ e seu amigo já vai te copiar/ se não bastassem roupas/ computador e celular você vai querer trocar”. a conclusão (conclusão?) é taxativa: “só playboy tem ipod”. só?
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o tom se eleva mais na saborosa “internar”, cujo tema é a familia, a sagrada família brasileira, tanto faz se “erudita” ou “popular”: “seu pai só joga e sua vó birita/ a família tá louca, seu avô só de touca/ (…) morar nessa casa é um show de horror/ porra, sua irmã virou atriz pornô”.

e vem o refrão, e estamira adentra os lares da tradicional família proprietária brasileira: “vão ter que internar/ vão aturar/ vão desacreditar/ que você tá muito louco/ nesse lar”. afinal, mano ou playboy, quem é que não tem um maluco na família [isso se não forem vários, isso se o(a) maluca(o) não for mesmo você], não é mesmo?
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pois bem, se o punk rock de butique investe contra família, costumes, política etc. e tal, haveria de deixar de fora o sexo, a sexualidade? não haveria, e vem daí a dupla mais gostosa de canções alopradas no aloprado disco do playboy rebelde, mas bonzinho.
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“porque eu só quero comer você” se explica pelo título. “e eu não ligo pro que vão dizer/ e eu não ligo mais pra nada/ porque eu só quero/ comer você/ a noite inteira/ comer você.” o pudim punk é sabor branco-manjar com ameixas pretas, e a gatinha come “cara de safadinha” não há de ter resistido a tamanha e tão formosa cantadinha. supla, explícito, deixa de lado os pruridos e vem fazer companhia a tati quebra barraco, a deize tigrona, à expressão sexual de asas livres-leves-soltas. do rock paulista ao funk carioca, vovó axé music se emancipa? (carmen miranda vestiu uma camisa listrada pós-moderna e saiu por aqui?)
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por último, mas não em último, há “arrasa bi”, do renitente refrão “arrasa, bi!/ arrasa, bi!, arrasa, bi!”. essa foi apresentada em primeira mão há cerca de dois meses, para a platéia-multidão da parada da diversidade sexual 2006, em plena avenida paulista.

[junto com supla no trio electro-elétrico-eletrônico estava seu ex-colega de “casa dos artistas” alexandre frota, aquele que, você sabe, expandiu a carreira de ator global para a de ator pornô – estreará, em breve, um filme co-estrelado por um travesti que também já passou pela “casa dos artistas” de seu silvio, o pai da filha evangélica abravanel número quatro, aquela que deve no futuro assumir o espólio sbt. juntos lá no alto, supla e frota ensaiavam tentativas de tolerância, de convivência com vários extremos, de flexibilidade e maleabilidade. a multidão aplaudia.]

[a temática, ali ao lado de frotinha, roçava incomodamente em tabus de liberdade desenfreada e prostituição, diria alguém. mas, ora, direis, ouvir estrelas?, que atirasse a primeira pedra quem nunca roçara de levinho em temas prostitutos, entre artistas globais, músicos universais, jornalistas jabazeiros, operários de fábrica, modelos magérrimas, jogadores exemplares de futebol, jornalistas muito rebeldes na escrita (mas às escuras muito submissos ao patrão), médicos em consultas de 7 em 7 minutos por nobres convênios de grife, médicos comissionados por digníssimos laboratórios (de manipulação), advogados vorazes, políticos caixa 2, empresários caixa 2, dondocas dasluzes, operárias dasputz, padres inquisidores, pastores dizimadores, marketeiros ensolarados, corporativos & corporações em geral, a torcida toda da seleção brasileira… ou vai bancar a falácia de que puta, nesta bendita família, é só a geni?]
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o vocabulário de museu de “arrasa bi” elabora o mundo gay-lésbico-bissexual-transgênero-etc.-“fashionista”-“moderno”-midiático brasileiro em doses mordazes de bobo & bom humor, mas também em doses atrozes de caricatura & estereótipo: “tô montada/ acuenda/ é um luxo/ não faz a pobre/ eu faço a fina/ pega na neca/ no intimus/ com esse bofe”. cê tá entendendo?

[entre palominos & herchcovitchs citados na letra, sobressai a(o) musa(o) underground paulistano(a) michael love, da boate a loca (não tentarei descrever a doçura áspera de michael love, vá ver você). desajeitado, supla joga holofote em quem merece holofote, ainda que depois despiste, desnecessário, dizendo ao mix brasil que aprendeu as gírias todas no cabeleireiro – santo estereótipo ressabiado, batman! que fim levou robin?!]

[a loca (tá louca, estamira?!) também está explicitamente citada no disco “lá nos primórdios”, da valorosa playgirl marina lima, que na versão vivaz “vestidinho vermelho” (original anglo-americano-performer-transformer de laurie anderson) recorre à citação d'”aquele inferninho” de modo algo mal-humorado, algo intolerante. o “vestidinho vermelho” de marina é o “arrasa bi” de supla; são tentativas loquazes da música popular brasileira de retornar por cima àquele ambiente de marginálias a que ela de resto sempre pertenceu, desde que furaram os olhos do assum preto para ele assim cantar melhor, desde muito antes.]
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“arrasa bi”, a faixa-achado de brazilian-“vicious” (alô, mr. lou reed, let’s take another walk on the old old wild side?), soa como versão paulistano-brasileira do travesti de punk-new wave sigue sigue sputnik, em terras tropicais onde já cantaram corujas & pirilampos, secos & molhadas (sim, travesti – e você, travestiu?), camadas e camadas na grande cebola da tortuosa expressão popular brasileira.
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a seu modo, o primo playboy roqueiro supla se empenha em escancarar um armário que é em tudo parecido com o armário que o primo mano rapper mano brown se empenha em escancarar: o da tolerância.

a boa nova, transfigurada nesse nobre vagabundo marketeiro, playboy do cabelão descolorido, 100% brasileiro distraído, é o esforço de abertura por parte do rock’n’roll, esse travesti de plumas rebeldes muitas vezes machonas & misóginas & homofóbicas & classistas & elitistas.

e você, vai tolerar? consegue, até quem sabe, vir a apreciar as tribos “exóticas” (exóticas?) do outro lado da fronteira-membrana que separa de você o mundo-junto? arrasa, bi!

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