A van saiu de Montevidéu na noite de quinta-feira, 11, com 10 homens dentro: sete músicos, dois motoristas para revezamento de direção e um técnico de som. A viagem durou 26 horas e atravessou 1,7 mil quilômetros desde os pampas uruguaios e gaúchos até as lavouras do Norte do Paraná.

A van trazia a banda uruguaia Buenos Muchachos para tocar no festival Paraíso do Rock, na pequena cidade de Paraíso do Norte, no Paraná. Eles só chegaram na madrugada do sábado, 13, tocaram durante uma hora e meia e em seguida embarcaram de volta na van para encarar outros 1,7 mil quilômetros até a capital uruguaia. Não vieram pelos cachês: o dinheiro todo que receberam acabou destinado aos custos da viagem.

Vieram pela mística, pelas histórias que escutaram de outros conterrâneos sobre a grande aventura (como Molina y Los Cósmicos e The Amazing Onemanband) e pela amizade que fizeram com os promotores brasileiros. Mas seu som dificilmente será esquecido pelos que testemunharam a aparição-relâmpago dessa que é uma das mais longevas (e de melhor reputação) bandas de rock uruguaias, desde 1992 na estrada. Filhos temporãos do pós-punk, fazem uma música pontilhada de abstrações sonoras e insuflada por três guitarras, sintetizadores, digressões e distorções de tal agudeza que parecem localizá-los numa fronteira entre Pixies e Sonic Youth. Recentemente, eles abriram o show do cantor australiano Nick Cave em Montevidéu, e Cave gostou tanto que os convidou para se juntarem a ele em shows futuros.

Face à extensão de sua jornada, os Buenos Muchachos encontraram uma plateia pequena no Paraíso do Rock, festival que completou 12 anos de existência como um enclave numa região dominada por gêneros de consumo ligeiro. Mas vai se tornar um daqueles shows lendários nos quais ninguém nunca esteve, mas todos se lembrarão eternamente, como algum concerto do Velvet Underground na Factory de Andy Warhol. O grupo enfileirou 14 canções, com a densidade melancólica de lago coberto por neblina, um sabor de dissipação da consciência. Quando chegaram quase na metade, Pedro Dalton (vocalista do grupo, poeta e escritor) anunciou que tocariam uma música da “nossa banda brasileira preferida”. Sacaram O Inferno, do grupo pernambucano Nação Zumbi, música de 2007, só que desossada pelo seu conceito de digressões infinitas. E nada poderia ser mais adequado do que aquela música para contar a saga que viveram na estrada até o primeiro solo de guitarra.

O paraíso nunca vem de graça

E quando chega, nem demora tanto

Butthole Surfers, Guided by Voices, John Spencer & Blues Explosion: há muitos paralelos que podem ser traçados a partir das músicas dos Buenos Muchachos, mas a principal qualidade do grupo é o sentimento, a ênfase na sinceridade. Pedro Dalton acredita em todas as palavras que canta, e o que canta não é exatamente plácido. “Fui o fantasma do trem/E no sonho falava ao contrário/Sem me afastar do swing/Arrisquei dançar/Sem marcar o som, caminhei/Melhor suave/Tonight”.

Terminado o show, uma ou duas cervejas e los Buenos Muchachos já estavam se encaminhando para a van para retomar a estrada. Serão 3,4 mil quilômetros no final da jornada, a distância do Brasil até o Equador, a distância entre a vontade de tocar e a possibilidade de tocar todos os hemisférios do coração.

Há um tipo de contrabando cultural que se realiza à revelia das vontades fisiológicas de uma sociedade. Ele tem que ser feito, e será eternamente realizado quer queiramos quer não. E os que fazem isso inseminam na realidade um futuro diferente para poucos, mas cujo alcance é imponderável. Em Londrina (PR), há mais de três décadas, uma médica e atriz chamada Nitis Jacon criou um festival internacional de teatro. Esse festival importou vanguardas cênicas de Pontedera, Paris e Tóquio, de Stanislavski ao butô japonês, em terras de vocações agropecuárias, forjando um outro perfil, formulando novos desejos para a cidade. Ou o tenaz Tutuca Viana, que realiza um festival de jazz e blues entre as dunas dos Lençóis Maranhenses. O festival Paraíso do Rock, numa cidade de 16 mil habitantes, se nutre dessa mesma ambição. Nesta 12ª edição, trouxe o homem-baile Félix Robatto, de Belém do Pará, para mostrar sua guitarra-enciclopédia da cultura popular aos interiores da parte Sul do País. Resultado: o efeito de contaminação da música de Robatto cativou de imediato o fog artístico dos uruguaios (e todo o resto).

Fábio Trummer, frontman da banda pernambucana Eddie, de Olinda, após anos vivendo em São Paulo, voltou à terra natal para criar o novo filho e, paradoxalmente, libertar-se do Original Olinda Style, mas arranjou um tempo de recolocar a sua trupe na estrada para um rasante no Paraíso; os curitibanos do Chinelada apresentaram sua gangorra entre Ramones e Raul Seixas, com o balanço exato entre o senso de humor e a insolência; e a contrabaixista Ana Morena mostrou como ela faz funcionar o dínamo que move o conceito de peso instrumental da Camarones Orquestra Guitarrística, do Rio Grande do Norte.

 

O inferno nem é tão longe, eu sei

Bem depois de onde nada se esconde

Mais perto do que distante

Não demora muito e ele chega pra qualquer um

 

 

 

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