Este texto é uma resposta às leituras e comentários ao texto “Morreu Michel Teló?“. Se você não leu aquele texto, por favor leia. Se houve espanto há duas semanas, hoje causa mais espanto ainda o fato de que Teló morreu não de causas naturais. Mas assassinado pelos próprios fãs sertanejos.

É claro que todo bom leitor entenderá a alegoria aqui construída. E quero crer que os sertanejos universitários também entenderão. Michel Teló foi assassinado pelos fãs sertanejos nos comentários ao referido texto. Olhem lá! Vários haters de primeira hora falaram que Teló “não tem voz”! Que Teló é cantor “de um hit só”! Que Teló só é quem é “por causa da Globo e do Fantástico“! Outros disseram que “Cristiano Araújo era muito melhor cantor do que Teló”. Esses e outros descabidos comentários demonstram que os fãs sertanejos, em seus momentos mais emocionados, parecem não ponderar. Isso não seria preocupante se os comentários se restringissem aos eufóricos haters da internet.

Espantoso é que blogueiros quase sempre ponderados e inteligentes tenham caído no discurso desregrado que domina a internet. De forma que este texto também quer polemizar com dois importantes jornalistas da música sertaneja.

Sabemos que, na era da internet, os blogs cumprem um papel de extrema importância, especialmente para determinados gêneros musicais que se fortaleceram com a digitalização da música. Assim, este texto visa dialogar não apenas com haters, mas com pessoas quase sempre coerentes, como André Piunti e Marcus Vinicius Bernardes.

Piunti é dono do magnífico blog Universo Sertanejo e autor de pelo menos cinco textos sobre a morte de Cristiano Araújo, algumas vezes criticando indiretamente a forma como, segundo ele, a imprensa “culta” viu a morte de Araújo. Ele não comentou diretamente meu texto, mas seus textos pertinentes e genéricos merecem problematizações. Bernardes é autor do Blognejo, outra referência fundamental na internet, e autor do longo texto “Nem Cristiano Ronaldo e nem Michel Teló“, no qual critica diretamente meu texto.

Ambos, Bernardes e Piunti, acabaram diminuindo a simbólica conquista que “Ai se Eu Te Pego” (2011) representou na música brasileira da era da globalização, colocando Cristiano Araújo num pedestal desproporcional a sua curta trajetória.

A morte de Cristiano Araújo, uma semana depois, ainda causava polêmicas. De um lado estavam aqueles como Zeca Camargo, Alex Antunes e Marcelo Rubens Paiva, que se regozijavam em diminuir a música sertaneja. Parecem ter um apreço em se distinguir do povão para com isso dizerem-se superiores. Trata-se de um erro do qual meu texto “Morreu Michel Teló?” se distingue no terceiro parágrafo. Basta ler. Nesse ponto estamos eu, Piunti e Bernardes de acordo. Essas figuras à la Zeca Camargo não merecem consideração. Chamaremos essa parte da sociedade brasileira de “sociedade Zeca Camargo”. Zeca foi pego aqui como exemplar não por ter sido o pioneiro, mas pela repercussão de seu caso. O pecado da “sociedade Zeca Camargo” não é ignorar o Cristiano Araújo, mas ter orgulho besta desse ato.

No entanto, eu me distingo de Piunti e Bernardes no seguinte aspecto: parte da estranheza que a “sociedade Zeca Camargo” sentiu com a morte de Cristiano deve-se, sim, ao elitismo cultural, mas isso não explica tudo. O largo desconhecimento do cantor sertanejo universitário deve-se também ao fato de que ele não conseguiu ir além de marcos construídos na cena sertaneja antes dele, o que dificultou os não-fãs de música sertaneja a identificá-lo, nomeá-lo e, em alguns casos, sequer ouvi-lo. Se fosse Teló, por exemplo, não haveria essa dificuldade, afinal foi impossível fugir de “Ai se Eu Te Pego”. De forma que a questão é mais complexa do que simplesmente acusar um setor da sociedade, por mais que haja razão para isso.

Do outro lado do debate sobre a morte de Cristiano Araújo e contra a “sociedade Zeca Camargo” estão aqueles, como Piunti e Bernardes, que querem provar tintin por tintin que Cristiano era um artista nacional e que tinha um enorme sucesso. E quem não percebe isso seria “das elites” ou “do Leblon”, pessoas que não enxergam além do próprio umbigo.

Aqui cabe um caso paradigmático que demonstra o quanto esse argumento é equivocado. Fafá de Belém, em recente entrevista, disse que tampouco conhecia Cristiano Araújo. Trata-se de algo espantoso! Não se pode dizer que Fafá seja “do Leblon”. Ela é alguém que esteve historicamente atenta ao sertanejo. Fafá foi uma das primeiras artistas da MPB a gravar o gênero. Em 1989 gravou “Nuvem de Lágrimas” e chamou a dupla Chitãozinho & Xororó para cantar com ela. Foi através dela que os paranaenses puderam atingir públicos que não os ouviam ainda.

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Em 1991 Fafá apostou em uma nova dupla: Zezé di Camargo & Luciano. Ela gravou o chamamé “Águas Passadas” no primeiro disco da dupla. De forma que não se pode dizer que Fafá seja alguém sem apreço pelo sertanejo e pela diversidade regional. Ainda assim, nem ela conhecia o ultrapopular Cristiano Araújo. Como sair desse paradoxo? Vê-se que o argumento de que “as elites” não conheciam Cristiano Araújo tem que ser revisto.

Meu texto foi acusado, mais diretamente por Marcus Vinicius Bernardes, de ser escrito por alguém sem contato com a música sertaneja. Embora isso seja um equívoco, não cabe a mim aqui provar fidelidade ao que quer que seja. Isso é irrelevante. O que importa é que os argumentos do texto não foram rebatidos, apenas simplificados. É uma pena. Haveria espaço para irmos além da comoção, que apesar de justa, não pode limitar a reflexão.

Então tentarei aqui explicar melhor os argumentos do texto que tanta polêmica causaram.

A tese do artigo de “Morreu Michel Teló?”, que não foi refutada por nenhum dos autores (e apenas dois isolados comentários abordaram, entre centenas), é de que a música sertaneja atual vive um processo de institucionalização. E de que a morte do sufixo “universitário” denota exatamente isso. Ninguém rebateu essa ideia.

Uma semana depois de morte de Araújo, vi um vidente no programa TV Fama, da Rede TV!, dizer que uma mulher do novo sertanejo sofreria um acidente em breve. Novamente o termo “universitário” foi suprimido. Até pelo mais midiático dos videntes comerciais de redes de TV! Como se vê, a tese de “Morreu Michel Teló?” continua de pé. O termo “universitário” desaparece, e isso denota um complexo processo ignorado por todos, inclusive pelos blogueiros. Talvez não mereça consideração, já que eles devem ter certeza de que o sertanejo não é mais “universitário” faz tempo. Mas isso reforça exatamente a tese da institucionalização.

O texto em nenhum momento disse que estava em jogo o meu gosto pessoal. Não há sequer uma linha para dizer que fulano é “melhor” que sicrano. Podem reler. O que eu apontava é que havia um problema na dimensão dada à morte de Cristiano. Ela foi tratado de forma apoteótica, como Leandro fora tratado em 1998. Mas Leandro era maior (e não “melhor”) que Cristiano. Por quê? Porque Leandro & Leonardo conseguiram algo que Cristiano ainda não havia conseguido: transformar a música sertaneja e a música brasileira.

Leandro & Leonardo colocaram a música sertaneja em nível nacional, desestabilizando antigas tradições. Há um antes e um depois de Leandro & Leonardo, que estouraram nacionalmente o hit “Entre Tapas e Beijos” em 1989. Apesar do enorme sucesso de Cristiano Araújo (porque tudo que se refere à cena sertaneja é gigantesco), não se pode dizer que o cantor universitário tenha colocado a música sertaneja num degrau maior do que já estava.

Como se vê, o meu texto “Morreu Michel Teló?” não procurava “diminuir” Araújo ou a música sertaneja, mas colocar os pingos nos is para além da comoção que descontrola a muitos.

Daí a necessidade de comparar, provocativamente, Michel Teló e Cristiano Araújo. O paranaense Teló colocou a música sertaneja num patamar que ela não estava antes de “Ai se Eu Te Pego”. Ele superou em muito todas as investidas da geração anterior de tentar se internacionalizar. A música sertaneja conseguiu com “Ai se Eu Te Pego” um sucesso multinacional, tornando-se, ao lado de “Gangnam Style”, de Psy, um dos primeiros hit da era da globalização que não foram cantados em inglês. Isso é um fato histórico que não pode ser diminuído nem relativizado.

O sucesso de Teló acabou até puxando outras canções consigo, como “Balada” (2011), de Gusttavo Lima, entre outras. Não se trata de pensar, como disse Bernardes, que eu ache que a música sertaneja “parou em Michel Teló”. Não é isso. Trata-se apenas de mostrar que, até hoje, “Ai se Eu Te Pego” é um marco não superado na história da música brasileira. Aliás, um marco raro. Antes dela apenas “Garota de Ipanema” (1964) tinha atingido o mesmo patamar. É por isso que não se pode dizer que Cristiano Araújo tivesse a mesma importância na cena sertaneja que teve e tem Teló. Isso não é diminuí-lo. É apenas dimensionar uma carreira que, embora tenha atingido as multidões, teve concorrentes maiores.

Valem ainda duas comparações para melhor explicar a tese de “Morreu Michel Teló?”. Comparemos a carreira de dois artistas do passado, mais ou menos quatro anos depois de iniciarem o sucesso nacional: Roberto Carlos e Eduardo Araujo. Em 1969 eles, assim como hoje Teló e Cristiano, eram artistas conhecidos nacionalmente, ídolos da jovem guarda, com hits que estavam na boca das multidões. Faziam parte de um gênero que tomou todo o Brasil rapidamente e eram muito criticados pelas “elites culturais”.

EduardoAraujo-oBomLembram-se de Eduardo Araujo? Trata-se do cantor de “O Bom” (1967): “Meu carro é vermelho/não uso espelho pra me pentear…”, um hit que tocou do Oiapoque ao Chuí nos anos da jovem guarda. Não foi o único hit do cantor, que assim como Cristiano Araújo também teve alguns mais. A carreira de Eduardo Araujo, assim como de grande parte dos artistas da jovem guarda, foi embalada pelo sucesso de hits tocados nas casas de milhões de pessoas, em todo o país.

Mas uma coisa é certa: Eduardo Araujo não era Roberto Carlos. O cantor de Cachoeiro do Itapemirim é um monstro da história da música brasileira. Roberto é simplesmente “o cara” que deu uma nova dimensão à música popular. Por mais sucesso que Eduardo Araujo tenha tido na sua época, não pode ser comparado ao papel histórico de Roberto Carlos. É mais ou menos por aí, com os problemas de toda comparação, que meu texto colocou lado a lado Teló e Cristiano Araújo. Assim como Roberto e Eduardo Araujo em 1969, Teló e Cristiano têm em 2015 por volta de quatro anos de sucesso nacional. Mas Teló e Roberto conseguiram algo que os Araújos nunca conseguiram: colocar seu gênero em novo patamar. Houve antes e depois de Roberto na música brasileira. Há um antes e depois de Teló. Isso não é “gosto”. É só uma constatação.

imagesAinda é possível mais uma breve comparação de Cristiano Araújo com Zezé di Camargo & Luciano. Em 21 de maio de 2012 Zezé foi ao programa Roda Viva, da TV Cultura. Lá foi perguntado sobre sua ida à casa do presidente Fernando Collor em 1992, levado por Gugu Liberato e o programa Sabadão Sertanejo. Essa visita gerou nos sertanejos a injusta alcunha de serem “trilha sonora da era Collor”. Seja como for, isso não está em jogo agora. Pois bem. Zezé respondeu:

“Na época do Collor, aquilo que aconteceu com a música sertaneja… eu participei… mas nós não éramos ainda dupla de primeiro escalão… na época eram Chitãozinho & Xororó e Leandro & Leonardo os dois grandes nomes… mas nós fomos!”.

Nessa época da visita a Collor, Zezé & Luciano já tinham diversos hits na boca de milhões de brasileiros, como por exemplo: “Quem Sou Eu sem Ela” (1991), “Eu Te Amo” (1991), “Coração Está em Pedaços” (1992), “Muda de Vida” (1992), só para ficar nas mais conhecidas. Isso sem falar no megasucesso do qual, gostando ou não, ninguém em território nacional conseguiu escapar: “É o Amor”, de 1991. Cristiano Araújo, apesar do enorme sucesso, ainda não tinha tido um “É o Amor”. Se Zezé pôde, anos mais tarde, se considerar um artista que “não era do primeiro escalão” em 1992, por que seria um grande pecado considerar Cristiano Araújo um artista que ainda não havia chegado neste patamar (embora caminhasse a passos largos para isso)? Isso não é diminuir Araújo nem é uma questão “de gosto”. É apenas um fato. Até porque denota que ainda havia espaço para o artista crescer.

E não sou apenas eu que digo isso. De forma enviesada, até mesmo o blogueiro Andre Piunti disse. No dia 25 de junho, ele publicou um texto intitulado “Cristiano Araújo (3) – o resultado, em números, das homenagens das rádios“. Relatando dados da empresa Connectmix, ele mostrou como Araújo dominou as rádios por todo o país naquele dia. Isso é normal quando um grande artista morre, e Piunti relatou isso de forma equilibrada, como faz sempre.

O curioso é que em 29 de junho o mesmo blogueiro tenha fornecido dados que relativizavam a força de Araújo. No texto “As músicas sertanejas mais tocadas da última semana (21/06 a 27/06) Piunti fez uma lista dos dez artistas mais tocados. Trata-se de algo costumeiro em seu completo blog, algo sem preço para um historiador do futuro. Daqui a alguns anos constataremos o valor de saber, semana a semana, os sertanejos mais tocados, graçasàa obsessão virtuosa do blogueiro. É algo realmente inestimável. Pois bem. Entre os dez artistas mais tocados da semana de morte de Araújo tivemos Luan Santana, Victor & Leo, Marcos & Belutti, Michel Teló, Leonardo e Eduardo Costa, Fernando & Sorocaba e João Bosco & Vinicius, entre outros. Cristiano Araújo não estava entre os dez artistas mais tocados. Claro, ele já ocupou a lista em outros momentos. Seja como for, é espantoso que Cristiano tenha sido ultrapassado por vários artistas do próprio meio sertanejo na semana de morte, quando foi insistentemente tocado Brasil afora.

Não era a primeira vez que Piunti dava a Cristiano Araújo a dimensão correta dentro da cena sertaneja. Quando foi roteirista do programa Bem Sertanejo, Piunti limitou a relevância de Cristiano. Como mostrou o jornalista Mauricio Stycer, ao longo de 2014 foram exibidos no Fantástico 12 episódios com 13 minutos cada. Araújo foi contemplado com exatos 15 segundos do último episódio, depois que o apresentador Tadeu Schmidt, em off, informou: “A nossa viagem musical termina aqui. Mas o sertanejo segue adiante com outros nomes da nova geração, como Cristiano Araújo”. Luan Santana, Victor & Leo, Paula Fernandes e vários outros mereceram mais tempo que Cristiano, com razão. Segundo Stycer, em entrevista com Piunti, Cristiano Araújo não conseguiu mais espaço “por questão de tempo”. Seja como for, que fique claro que não foi nenhum pecado o que Piunti fez. Ele assim o fez pois Araújo não tinha a dimensão dos outros na época do programa de Michel Teló.

Talvez devido ao pouco espaço dado a Cristiano Araújo em Bem Sertanejo, alguns fãs de Cristiano Araújo tenham preferido agredir Teló. Nos comentários ao meu texto, alguns haters chegaram a dizer que Teló era um “cantor de um sucesso só”. Nada mais equivocado. Só para ficarmos nos principais, Michel Teló tem hits consideráveis desde 2010: “Ei, Psiu! Beijo Me Liga” e “Fugidinha” (2010), “Ai se Eu Te Pego” e “Humilde Residência” (2011). Obviamente os experientes blogueiros não caíram nessa ingênua armadilha, apenas os haters. Mas, mesmo que essa acusação fosse verdade, cabe uma questão.

Teló não precisa mais de hit. Ele pode parar de ser cantor e virar “apenas” apresentador de Bem Sertanejo, como muitos disseram insanamente nos comentários. Ainda assim, seu nome estaria marcado na história da música brasileira por ter colocado uma canção extremamente popular no top hits mundiais do seu tempo.  Teló já é um medalhão da música brasileira, e pode, hoje, até dispensar sucessos, caso queira.

No entanto, os fãs sertanejos gostam muito de valorizar os sucessos. Claro, é compreensível. Para um gênero popular é importante ter uma ou várias canções na boca de milhões. Mas é preciso diferenciar sucesso e prestígio. Sucesso pode vir e passar. Traz fortuna, mulheres, carros, mas não dura para sempre. Prestígio se conquista com sucesso, mas também com atitudes que não dão lucro imediato, mas que constroem a respeitabilidade no meio. Ser apresentador do Bem Sertanejo, comandado pelo ótimo roteirista Piunti, coloca Teló num papel de mediador moderno do gênero. É algo fundamental para a construção do seu prestígio, para além do sucesso momentâneo.

E aí temos um problema frequentemente subestimado tanto pelos blogueiros sertanejos quanto pelos haters. Refiro-me aqui sobretudo a crítica de Marcus Vinicius Bernardes, que demonstra um rancor bastante agressivo contra aqueles que supostamente não seriam “entendidos” na música sertaneja. Bernardes rejeita os críticos que “não sabem o que se passa além dos muros da cidade maravilhosa ou dos arranha-céus paulistanos”, sujeitos “elitistas” que não admitiriam outros valores culturais. Em parte, Bernardes tem razão. Como dissemos, a “sociedade Zeca Camargo” afeita a MPB/samba/bossa nova/rock existe. Com frequência essa “sociedade Zeca Camargo” dificulta o conhecimento do Brasil real e diminui tudo aquilo que não passa por sua lente. Mas meu artigo “Morreu Michel Teló?” não se confunde com essa postura.

O que me espanta é que Bernardes não tenha se preocupado em ver de fato quem era o autor do artigo “Morreu Michel Teló?”. Se visse minha biografia, escrita ao final do artigo, saberia que tenho um livro que critica exatamente esse elitismo cultural da “sociedade Zeca Camargo”. Meu primeiro livro, Simonal: Quem Não Tem Swing Morre com a Boca Cheia de Formiga, publicado em 2011 pela editora Record, lidou exatamente com essas questões que ambos, eu e Bernardes, condenamos nas elites culturais.

Mas Bernardes não sabe quem sou. E o caminho mais fácil de desmerecer minha crítica séria foi atribuir meu pensamento à revista CartaCapital. Tampouco sabe ele que não tenho nenhum vínculo direto com a revista ou o site, e sequer ganhei qualquer dinheiro para escrever. Aliás, nem jornalista sou. Sou um reles historiador. Se Bernardes tivesse lido meu outro artigo no FAROFAFÁ veria que penso de forma muito semelhante a ele. Meu artigo “Existe sertanejofobia em SP” mostra como a Virada Cultural, evento que desde 2005 mobiliza a prefeitura da capital paulista e os moradores da maior cidade do Brasil, vem sistematicamente ignorando a música sertaneja, num misto de preconceito e desconhecimento.

Talvez por desconhecimento de quem critica, Bernardes agride aqueles que, na sua ótica, não são “legítimos” sertanejos, como eu. Parece haver um medo de discutir para além das fronteiras do gênero. Mas creio que um dos contratempos de querer ganhar a alcunha de gênero musical nacional é discutir com aqueles que não têm o sertão como berço. Acusar cariocas ou paulistanos de “elite” ou “pseudo-intelectuais”, como disse Bernardes, não vai ajudar a de fato construir a hegemonia tão desejada pelo blogueiro.

Afinal, por que tais blogueiros  e haters têm tanto ódio contra os “não sertanejos”? Em parte, sabemos, é compreensível. Afinal muitos “não sertanejos”, como disse Bernardes, não querem sair de “seus Leblons e suas praias de Copacabana para desbravar o Brasil e entender esse fenômeno cultural” que é a música sertaneja. De fato: assim é a “sociedade Zeca Camargo”. Mas o mundo é complexo e nem todos são iguais a Zeca. Há pessoas que de fato querem dialogar. É preciso abrir o olho e saber diferenciar. Aliás, seria desejável que a crítica sertaneja demonstrasse estar além do ódio que tanto sofrem. Afinal, a música sertaneja sempre buscou negociar com os “não sertanejos”, e não apenas se opor a eles.

Se é verdade que em muitos momentos a crítica cultural “não sertaneja” rejeitou os sertanejos, é preciso aceitar que uma parte dela está atenta a seus gigantescos passos. Especialmente este FAROFAFÁ. Em 9 de janeiro de 2012, em meio ao sucesso de “Ai se Eu Te Pego”, quando muitos criticavam o gênero, Pedro Alexandre Sanches escreveu o elogioso texto “Michel Teló exporta a sanfona de Luiz Gonzaga para o mundo“, no qual compara o paranaense ao mais famoso artista pop brasileiro do interior. Ou seja, não é de agora que alguns poucos “não sertanejos” buscam dialogar de forma respeitosa. E dialogar é sempre preciso.

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A música sertaneja só atingiu o patamar que atingiu porque teve mediadores com quem dialogar. Há muitíssimos exemplos dessa associação com “não sertanejos” na longa jornada da música sertaneja. Por exemplo: em 1981 foi lançado o filme Estrada da vida. Era uma cinebiografia da dupla Milionário & José Rico filmada por ninguém mais, ninguém menos que Nelson Pereira dos Santos, o pai do cinema novo, que até então não tinha nenhuma intimidade com a música do interior.

Em 1986, Roberto Carlos chamou Chitãozinho & Xororó e Chrystian & Ralf ao seu programa de fim de ano. Também nesse ano Jair Rodrigues gravou “Majestade, o Sabiá”, de Roberta Miranda, dando aval à iniciante. Fafá de Belém, como vimos, também ajudou a nacionalizar a música sertaneja na virada dos anos 1980 para os 1990.

No programa Amigos, da Globo, entre 1995 e 1999, estiveram presentes Fafá de Belém, Fábio Jr., Simone, Elba Ramalho e Daniela Mercury. Em 1999, Maria Bethânia gravou “É o Amor”.

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Em 2005, Caetano Veloso produziu junto com Zezé di Camargo a trilha sonora do filme 2 Filhos de Francisco, que contou com participações de Nando Reis, Ney Matogrosso e Bethânia.

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Em 2006, Chico Buarque também se aproximou da música sertaneja e gravou a canção “Minha História” no CD de Zezé Di Camargo & Luciano. Em 2007, Zé Ramalho e Lulu Santos participaram do disco de Chitãozinho & Xororó.

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O sanfoneiro Dominguinhos participou da gravação da canção “Kid Lampião” no disco Retrato – Ao vivo no Estúdio, de César Menotti & Fabiano, de 2010. O herdeiro musical de Luiz Gonzaga também regravou com Paula Fernandes a canção “Caminhoneiro”, no disco Emoções Sertanejas, do mesmo ano. Pepeu Gomes, ex-Novos Baianos, participou da regravação de sua composição “Sexy Yemanjá” no DVD de Victor & Leo Ao vivo em Floripade 2012. O ex‑titã Nando Reis e o baterista do Skank, Haroldo Ferretti, também participaram desse disco. Zé Ramalho gravou no disco de 2012 de Paula Fernandes.

Como se vê, as mediações e diálogos foram essenciais na história da música sertaneja, como já demonstrou Danilo Cymrot em ótimo texto também publicado em FAROFAFÁ. Essa mediação foi algo que Paula Fernandes fez quando cantou com Roberto Carlos em 2010, por exemplo, o que talvez explique que ela seja reconhecida mais facilmente que Cristiano Araújo pelo público “não sertanejo”. O contato com a famigerada MPB e com o público “de elite” e “da praia de Copacabana”, “não sertanejo”, não pode ser visto como algo a apenas ser condenado. Esses contatos auxiliaram a nacionalização da música sertaneja e seu crescente sucesso, processo que não pode ser subestimado.

Por fim, gostaria de convocar todos a um debate aberto e franco sobre a música sertaneja. Faz tempo ela se tornou tão importante que não pode mais ser analisada na base do “gosto” ou “não gosto”. Sua discussão não pode ficar restrita a “entendedores” ou “especialistas”. Tampouco pode ser analisada apenas com base na ideia de que “as elites” são “preconceituosas”. Afinal, uma parte da elite se tornou faz tempo (desde os anos 1990) consumidora de música sertaneja.

Ou seja, a questão é mais complexa. Se aqui debato com Piunti e Bernardes é porque os reconheço como louváveis jornalistas e sérios analistas do gênero que tanto amamos. Façamos com que a crítica jornalística, cada vez mais liberta dos conglomerados empresariais da imprensa tradicional, esteja à altura desse gênero tão importante para a cultura brasileira.

 

27 COMENTÁRIOS

  1. O problema, Gustavo, é que você tratou o assunto de uma maneira imparcial e com um olho clínico que quem está acostumado a tomar partido (o famigerado nós contra eles) não está acostumado, e nem preparado para receber.

    Como é raro articulistas assim hoje em dia, as pessoas tomam como afronta um texto como o seu.

    Aliás, sobre a turma do Leblon, segue uma dica de texto genial:

    http://foradobeico.tumblr.com/post/122764126453/encontrada-classe-media-tradicional-brasileira-que

  2. Nossa, que texto desnecessário, falta do q escrever. Respeitem a família desse menino, povo sem amor, credo!
    Obs: Já viu o Michel Teló cantando ao vivo? Veja e depois faça uma reflexão!!!

  3. Parabéns. Muito coerente. Aqui na região do Triângulo Mineiro e sul de Goiás ele realmente fazia MUITO sucesso. E acredito que se tornaria bastante famoso nacionalmente se não fosse o trágico acidente. Mas realmente ainda estava longe de se tornar um “marco” na música sertaneja.

  4. Um texto longo porém muito bem escrito e ponderado e esclarecedor e mais importante apaziguador e democrático. o sol nasceu para todos.

  5. Bom dia,

    Michel Teló e um excelente cantor, em nenhum momento foi falado que não era. A questão não é esta, e sim a morte prematura de um jovem em ascensão, se você conhece ele ou não, isto não faz diferença, nem para ele nem para nós que o amamos, e eu não falo como fã somente.
    Deixe de ser ridículo e vá procurar algo para fazer, não gostar do CRIS tudo bem, mas não pode ignorar, e se gosta ou não gosta, com o disse não faz nenhuma diferença. Ilustre estranho.
    Fale , coloque toda sua amargura para fora, deve ser muito mal amado, estranho, sozinho, enfim um ninguém.
    Amamos CRISTIANO ARAÚJO e vamos amar para o resto de nossas vidas. O que temos para hoje é muitas saudades.

    • Moro em pelotas interior do RGS e conhecia o Araujo não conheci pessoalmente e ele não soube quem sou mas, não tive o prazer de ir no seu show mas gosto muito de suas musicas e seu trabalho!!!
      Foi muito triste o que aconteceu e essas pessoas não tem um pingo de respeito!
      Não gostam do sertanejo mas estão ganhando algum para falar do Cris por que não param de falar!!! Quem gosta, gosta e ponto!
      Quem não gosta fica na sua não podemos mais expressar nossos sentimentos.
      Agora tem que ser conhecido mundialmente ou parecer com fulano ou ciclano para ser amado e homenageado!!!afff

  6. Gosto é gosto. Opinião é opinião. Música é música. Não-música é não música.Voz é voz. E assim por diante. Democracia é democracia. Liberdade de expressão faz parte da democracia.

    • Aceita a realidade,se o teló não fosse importante ele não seria chamado para fazer the voice,não teria lançado um livro do quadro que fez muito sucesso(bem sertanejo),não teria feito sucesso pelo MUNDO TODO

  7. Só pra constar, quando Fafá gravou Nuvem de Lágrimas com Chitaozinho e Xororó, a dupla já era um enorme sucesso no país. Neste caso, sem dúvida, Fafá foi quem se beneficiou do sucesso da dupla.

  8. Gustavo Alonso , e so admitir que você não fez jus ao seus cinco anos de faculdade, nem os vários livros e revistas que leu, foi infeliz no comentário e queria aparecer nas custas do lamentável acontecimento já que ninguém le o que você escreve ,nem comenta. Com certeza com esse assunto você teve mais pessoas lendo os seus postzinhos !!!!

  9. Gostaria apenas de fazer uma observação completando uma visão defendida no texto. Em 2012 eu fui a Paris e ali, nos arredores da Torre Eiffel, vi dois sujeitos, desses que tocam violão com o chapéu esticado em busca de alguns trocados, e eles eram franceses! (que fique claro), tocando e cantando em sofrível português a sua própria versão de “Ai, se eu te pego”.

    Não que eu goste ou queira comparar os diferentes momentos de sucesso e alcance da música brasileira que chega lá fora, como nos tempos de Garota de Ipanema, mas… foi interessante.

  10. Ótimo texto!! sou sertanejo, muito sertanejo!! e acho que você foi muito feliz nas suas palavras e totalmente livre de preconceitos. Parabéns, hoje em dia anda muito difícil ler um texto sobre musica que fique longe do preconceito e gosto musical.

  11. Com acontecimentos assim de morte, os fãs e as pessoas sensíveis, iriam deixar de postar sua solidariedade??? e cada cantor tem seu tempo pois as musicas podem ser boa agora porem daqui uns tempos vem outro cantor e rouba a cena, veja tem o Daniel, Zezé di Camargo e Luciano, Xitãozinho e Xororo, sula Miranda, Fafá de belém, Sergio reis e outros mais que agora estão quase sumindo ou alguns já sumiram, com tempo vem outros novatos e rouba a cena, porem jamais estes e outros citados,terrão suas homenagens ditas, pois sempre cada um terá a sua multidão de fãs ou mesmo apenar curtidor de suas musicas!!!! Então sei que tu é fã do teló, mais as musicas dele so faz sucesso p/ quem as curte, e não p/ os que curte outros!!!!!!
    Em meio a tanto “nossa, nossa, assim você me mata” e “tche tchrere tche tche”, isso nem chega perto dos MODÕES DE VIOLA, pois hoje em dia as musicas são sem noção, sem logica, só coisa sem fundamento, e ainda muito apelativa, como é o caso do tal teló, mais p/ cada tipo de musica seja ela qual for o estilo vai ter um cantor e sempre tera uma grande multidões de fãs!!!!!
    Pois bem se acontecesse o contrario, e fosse o Telo mesmo que tivesse morrido, tu acha que não teria uma repercussão ainda maior e sensacionalista, através da grande rede Globo??????

    • Onde citei:
      ”porem jamais estes e outros citados,terrão suas homenagens ditas” –> retira-se o jamais, pois errei a frase, e o certo é eles com certeza vão ter suas homenagem!!

  12. O problema não é o sertanejo universitário, o funk, o forró novo ou até mesmo o pop atual, o problema são as músicas e as letras desses estilos que mostram uma pobreza cultural sem limites. Não tem uma letra que preste. Eu não consigo ouvir sem ficar com dor de cabeça. Descobri que o Christiano Araújo era quem cantava a música – que tocava insistentemente nas rádios e que eu era obrigada a ouvir sempre que entrava em alguma loja – “ai meu amor, que saudade de você, te amo meu bebê, te quero meu bebê…” Isso é letra que se apresente? Sem contar que esse “refrão” deve ser repetido umas 40x na “música”. Enfim, se o sertanejo universitário ou qualquer outro estilo novo tivessem letras realmente inteligentes, todos os “elitistas” iam ouvir sem reclamar.

  13. Vai pesquisar e falar sobre pessoas e celebridades vivas deixe os mortos descansarem em paz. Ha, ja sei, falar de Cristiano talvez possa ti dar mais acesso, afinal o cara mesmo morto faz sucesso.

  14. Tudo isso… para poder desmerecer a homenagem feita ao cantor!!!! hora mas que coisa… por acaso ainda não se sabe que a música sertaneja é a mais ouvida pela população brasileira? E outra coisa não é porque ele ainda, veja bem “ainda”, uma vez que não se pode dizer que nunca o faria, não havia cantado com músicos como Caetano Veloso e Fafá de Belém que não possuía mérito de cantor consagrado… E por acaso morrem cantores de 29 anos todos os dias? Foi uma tragédia e a homenagem foi merecida.

  15. Se tenho bom gosto para música, somente a mim importa. Gosto de tudo que agrada meus ouvidos. De sertaneja de raízes a música clássica, passando por gregoriana, coral, orquestrais, etc. Não importa o idioma. Boa música sempre será boa música. Em qualquer idioma vc encontra ótimas composições e também muito lixo musical. Mesmo que seja antiga, sempre será agradável. Não importa a época em que foi gravada. Não se pode estabelecer quaisquer tipos de limites, fronteiras para a boa música. Ela sempre será eterna. Vejo muita inveja nas críticas feitas aos sertanejos, românticos entre outros estilos. Deve ser a grana que ganham; os milhares de fãs em seus shows. Apenas não ouço o tal funk. Este me dá enjoo… Vontade de vomitar.

  16. sou musico , achou a “musica” sertaneja uma merda criada em laboratório , a trilha sonora da oligarquia brasileira que mata índios e camponeses a favor do agronegócio , é uma pena que grandes músicos estudem muitos anos só para se dedicar a dar aulas para poder viver , um pais que já deu um Gismonti , um Proveta , um Hermeto , um cartola , um Villa-Lobos , etc , produza esses medíocres que ganham milhões a custa da ignorância de um povo , infelizmente bom gosto passa pelo conhecimento , ninguém gosta de aquilo que não conhece !!!!!!

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