O músico paulistano Walter Franco senta-se à mesa de reuniões da Abramus e escuta calado as explanações do presidente da associação arrecadadora, o advogado Roberto Corrêa de Mello.

wf1O artista desfruta, ali, de uma desconfortável dupla condição. Respeitado no seio da MPB como autor de obras-primas experimentais de sabor tropicalista-concretista como Ou Não (o célebre “disco da mosca” de 1973, capa à dir.), Feito Gente (1975) e Respire Fundo (1978), surgiu num festival da Rede Globo como quem se dissesse ser a mosca que pousou na sopa do “sistema”. Mas não é devido a essa virtude, ou a seu talento musical, que ele tem lugar à mesa. Walter é atualmente vice-presidente da Abramus, a Associação Brasileira de Música e Artes.

Do alto dessa segunda condição, foi alçado à dura posição de defensor do sistema Ecad, ao lado de colegas de sua geração ou um pouco mais velhos ou jovens, como Abel SilvaFernando Brant, Joelma (a da jovem guarda, não a da Banda Calypso), Luciana RabelloMaurício CarrilhoNei LopesPaulo César PinheiroRonaldo BastosSandra de SáWilson Moreira e Zezé Motta, todos detentores de cargos nas diretorias das sociedades arrecadadoras.

O contraste entre os estilos de Roberto e Walter é evidente. Às vezes o primeiro tenta atalhar um longo raciocínio do segundo, que volta à carga mais além para completar o arco. Embora Walter se afirme seguro da posição que ocupa, parece nítido que o lugar atual é bem mais ingrato que o da criação musical propriamente dita. Como afirma Roberto, alguém tem que desempenhar o papel.

A sutileza emerge quando os diretores da Abramus mostram as dependências da instituição e explicam seu funcionamento, num momento em que falamos de Michael Jackson e comento com Roberto que ser compositor ainda é um excelente e rentável negócio. “Opa! Queria eu”, diz o presidente. “Mas não pode ser considerado maldito”, observa Walter, para risos gerais, também algo constrangidos. “Se tem um artista considerado maldito e à margem do sistema, neste tempo todo, sou eu”, ele afirma, no início de sua manifestação. Nem tampouco devemos nos esquecer de que não foi das mais felizes a vida íntima do ex-garoto prodígio do grupo Jackson Five, um dos maiores vendedores de discos da história da humanidade.

lp-walter-franco-respire-fundo-ed-epic-1978-encarte_MLB-O-85453686_3775Nos trechos de entrevista abaixo, Walter Franco fala sobre Ecad e música, reconhecimento e desconforto, e sobre sua visita à casa de Gilberto Gil, durante uma das reuniões do grupo Procure Saber na qual teve de desempenhar o papel duplo – e certamente difícil – de caça e caçador. “Sou pelo desarmamento de espírito. Sou um pregador da não-violência. Sou contra o ódio ideológico que está se criando. Sabe como terminou a reunião? Com todo mundo batendo palma”, tenta contemporizar, com frases que ecoam os versos de seu “Coração Tranquilo” (1978): “Tudo é uma questão de manter/ a mente quieta/ a espinha ereta/ e o coração tranquilo”.

 

Pedro Alexandre Sanches: A grande maioria dos artistas não participa das discussões internas. Mas as coisas estão colocadas hoje como se Walter Franco e outros autores que são das diretorias estivessem de um lado, e se formou um grupo do outro lado com Roberto Carlos, Caetano Veloso e Chico Buarque.

Walter Franco: Não é verdade. A gente esteve numa reunião na casa do Gil, com as pessoas todas que a gente admira e com quem temos uma história longa. Ao contrário do que se comenta, eu particularmente acho que fomos muito bem tratados, e contundentes quando necessário. O que está acontecendo em relação ao direito autoral é uma demonização, um trabalho paralelo que se faz contra o sistema. Acontece que, além do sistema, a sociedade tem o seu desenvolvimento e a sua dedicação individual. Quando eu vim para a Abramus, há quantos anos?…

Roberto Corrêa de Mello: 11 anos?

WF: Isso, fui convidado pelo Roberto e fiquei quase meia gestão aprendendo, num regime de estagiário, acompanhando, me preparando para a coisa como diretor. E, surpreendentemente, fui premiado também com o cargo de vice-presidente. Em qualquer lugar, já dizia o vice do LulaJosé Alencar, vice não manda nada, né? Mas ao contrário, aqui na Abramus a gente é ouvido. Falei: “Espera um pouco, tem alguma coisa certa nessa história”. Por quê? Porque fui escolhido e, se existe um artista considerado maldito e à margem do sistema esse tempo todo, sou eu. Mesmo quando estava na (gravadora) Continental e na CBS, ou quando lancei “Cabeça” (1972) na Rede Globo, eu estava à margem. Fui precursor dos independentes, dessa coisa toda. Mas, dentro desse processo de demonização, vão todos de roldão. Por lidar com direito autoral, como compositor, sinto que já sou demonizado. “Walter Franco, esse está bem!”, “não vai largar o osso.”

PAS: Fica um lugar ingrato para você, Fernando Brant e uma série de compositores que têm cargos nas sociedades.

WF: Eu não posso falar individualmente, porque não tenho uma relação de proximidade. Eles têm outra filosofia (refere-se à UBC, cujo diretor-presidente é Brant). Cada sociedade é diferente. A gente se movimenta em tribos, em várias tribos. E eu sinto que pertenço a uma tribo pequenina, que se move com consciência.

RCM: Walter, Tom ZéRoberto MenescalDanilo Caymmi são próximos da gente.

WF: Mas deixe eu concluir esse raciocinio meu. O que acontece? No momento em que fui convidado, passei a observar. Sou um homem de 68 anos, com uma história. Eu diria que quem puxa aos seus não degenera, e meu pai, Cid Franco, que hoje teria 109 anos, foi o primeiro vereador socialista eleito pelo estado de São Paulo, afastado pelo golpe. Foi um político respeitado, poeta, jornalista, radialista, professor de literatura, formado em direito, tradutor. Ele foi responsável, ainda jovem, pela tradução do maior livro lançado no século XX, Os Judeus sem Dinheiro. Me sinto muito honrado, convivi com Carlos Drummond de AndradeManuel Bandeira. Os intelectuais nunca perderam sua dignidade, tinham um certo orgulho de não se preocupar tanto com o verbo amealhar. Aprendi isso e tenho até hoje dificuldade de lidar com essa questão.

Na reunião da casa do Gil eu disse: se existe alguma dúvida a respeito da minha participação, eu abro todas as minhas contas bancárias. Gil gostou da pegada. Depois da reunião houve, comigo, uma confraternização grande – e não sou adesista. Você sabe que o sistema do lado de lá, quem quer que seja, não leva a sério os adesistas. Os adesistas não são respeitados. Então, para firmar minha posição, acho que estou no lugar certo. Por quê? Primeiro, porque acompanho. Roberto é meu grande amigo, nos tornamos grandes amigos, antes como advogado, e veio vindo, toda uma história. Aprendi a observar. Ele é privilegiado intelectualmente, já viajamos representando a Abramus com Sisac, pro exterior. Ele se levanta e responde na língua.

RCM: É que falo alguns idiomas, então é mais fácil.

WF: Mas é com espontaneidade, estou dizendo isso porque são pontos a favor. É uma pessoa que vem se preparando há muitos anos. Nesse projeto de lei, por exemplo, existe uma coisa que acho terrível: logo, logo não vai se poder mais lidar com direito autoral.

PAS: Por que, qual é o ponto?

WF: Porque Roberto logo, logo não vai poder mais se candidatar.

RCM: O que eu acho ótimo, a impossibilidade de sucessivas reeleições. Acho ótimo. As pessoas têm que participar.

PAS: Esse é um ponto bom da lei então?

RCM: Eu acho.

WF: Eu não acho, sabe por quê? Se no Senado os caras desenvolvem trabalhos seriíssimos e são respeitados e se reelegem e fazem parte da instituição com muito orgulho, puxa vida.

PAS: Mas e se Lula, por exemplo, quisesse ficar 20 0u 40 anos se reelegendo presidente?

WF: Ele não ia aguentar o tranco.

RCM: A questão da renovação, eu, da minha parte, acho excelente. Acho que tem que ter. Mas tem que ter gente que possa efetivamente desempenhar. Senão, quem vai fazer?

WF: Deixe eu completar meu raciocínio a respeito do porquê. Especificamente na questão do direito autoral, esse é um universo muito intrincado, onde o quebra-cabeça se manifesta diariamente. Quando entrei na Abramus, tínhamos 8.000 associados. Com esta diretoria, pela qual ponho minha mão, temos 40 mil, graças ao trabalho da nossa diretoria. Estou tranquilo, estou muito bem. Vim hoje mais pra ouvir, e estou mais uma vez muito contente em ouvir esse tipo de esclarecimento, explanação e preparo.

Mas por que estou nesta posição? Falei com Gil: “Walter, é uma honra revê-lo depois de tanto termpo e conversarmos a respeito dessas questões de direito autoral. Disponha”. É claro que sim. Por que vamos criar essa cizânia de distanciamento entre artistas? Sempre me elogiaram, sempre foram elogiados por mim. Isso vem de fora, e estão acreditando nisso. Tem gente que embarca. Caetano tem um poder tão grande que quando ele fala que gosta todo mundo corre atrás – é verdade ou não é?

PAS: E ele está tendo uma importância crucial nessa história, inclusive por intermédio de Paula Lavigne.

RCM: Será?

PAS: Ela virou a nova inimiga número 1?

WF: A Paula Lavigne também é demonizada do lado de lá. Vou contar uma história (Roberto e assessores tentam impedir, mudam de assunto). Qual é o problema?

PAS: Vou aproveitar que vocês usaram a palavra “demonizar”: quem está demonizando o quê, e por quê?

WF: Acho que tenho que ser imparcial. Já houve um quiproquó em torno dessa reunião, como se todos tivessem saído insatisfeitos. Não. De minha parte, não. Eu não concordo com o que Fernando Brant colocou. Adoro Fernando Brant, a obra dele é muito importante, mas não é assim. Nós estamos todos ligados a um sistema, mas eu não sou cúmplice de quem quer que seja. Durante a reunião eu estava falando não me lembro a respeito de quê e Paula veio e colocou o seguinte: “Eu é que coordeno as coisas todas do Caetano”. Ela colocou uma questão em relação ao direito autoral e a relação à Abramus, e colocou com… com… uma postura forte, uma atitude… que possivelmente pudesse inibir quem quer que fosse. Como já tivesse ouvido várias histórias a respeito, ouvi aquilo: “Não recebi o comunicado da Abramus. Como a coisa funciona? Você acha isso certo?”. Não, eu acho errado. Se for isso, acho errado. Foi a única coisa que pude responder porque não tinha dados para responder o contrário no momento.

PAS: Isso porque Caetano pertence à Abramus?

WF: Sim. Depois veio Caetano: “Walter! Eu gosto muito de você!”. Ele sabe que eu o adoro, acho ele um patrimônio, um privilégio, um ídolo. Como existe uma solidez nessa admiração mútua, ele disse: “A Paula é muito brava. Você não achou?”. Falei: “Não, não achei. Ela estava te protegendo. Agora, ela é muito bonita”. A gente estava conversando baixinho. “Você acha ela bonita?” Nesse meio tempo, ela chegou, e Caetano falou: “Walter está dizendo que você é muito bonita” (ri). Ela me deu beijo, “é meu jeito, eu tenho que proteger Caetano”. Ela respondeu com as mesmas palavras dele.

PAS: Roberto colocou a dúvida: ela só protege Caetano? Ou protege também a Globo? Consta que ela nesse processo agia como intermediária em discussões entre a Globo e os artistas.

RCM: Isso chegou a você? Não é novidade?

PAS: Para quem lê o FAROFAFÁ, não é.

RCM: A produtora Natasha é parceira da Globo.

WF: Coloquei a questão com muita transparência, ilustrando a minha visão de vida e de mundo. Sou pelo desarmamento de espírito. Sou um pregador da não-violência. Sou contra o ódio ideológico que está se criando. Sabe como terminou a reunião? Com todo mundo batendo palma. Agora, o que eu ouvi através do Fernando Brant e de um telefonema de algum produtor que estava numa reunião, é que o pessoal do lado de lá foi muito agressivo. Ele estava com essa imagem. Não foi isso que houve. Como agressivo, se a reunião terminou com aplausos para todos, logo no final da minha fala?

(…)

walter Franco P_thumb[10]WF: Por que eu me posiciono contrário à interferência do Estado no Ecad? Eu sou contra a censura. Se o Ecad precisa de algumas modificações, que se façam, todas as necessárias. Mas não aceito minha obra de uma vida toda sendo administrada, não sei qual a palavra exata, pelo Estado. Não concordo. Não concordo, porque não sei como vai ser no futuro próximo. A coisa está acontecendo, acho que o pessoal não está percebendo bem como é que está funcionando essa proposta das ruas. Coincidentemente, a primeira reunião que me chamaram lá no Rio foi no dia em que o pessoal veio para as ruas aqui em São Paulo.  Muitas coisas estão sendo ditas pelo Roberto, com essa abordagem, eu nunca me posicionei dessa maneira. Mas senti que a coisa chegou num ponto que, se não buscar a paz dessa questão toda, é uma desmoralização. O sistema vai ruir, para quê? Eu vou combater isso.

(…)

PAS: Não diminuiu um pouco essa história de chamar artistas como você de “malditos”?

WF: As pessoas ainda perguntam, ainda escrevem “o maldito Walter Franco”.

 

3 COMENTÁRIOS

  1. Caríssimo Pedro Alexandre Sanches, acompanho onde posso sua crítica musical porque aprendo muito, mesmo quando não concordo, e tem sido um forte aliado para combater meus preconceitos e me atualizar no universo musical brasileiro. No entanto, quero lhe pedir um favor, quero que retransmita ao Walter Franco a história a seguir:
    Meu sobrenome é Joca. Fui estudar Ciências Sociais na USP em 93 e em 95 me transferi para o curso de Filosofia. Morei no CRUSP por vários anos e muitas vezes fui a pé à Praça Panamericana para buscar bebida, cigarros e comida pois não havia ainda onde comprar na USP. Íamos andando eu e outros, geralmente aqueles que gostavam de beber e que não tinham paciência para esperar; na maioria das vezes jovens como eu que já tinham tomado uns goles. Íamos e voltávamos bebendo. A bebida me torna menos tímido e nesses momentos eu me empolgava e cantava, cantava em voz alta para todo mundo ouvir. Sou alto e com voz grave, isto é, quando eu soltava a voz -entenda-se : gritava- muitos me olhavam e me ouviam. Desde quando eu morava em Bragança Paulista, no final dos anos 80, eu conhecia a dura e áspera poesia de “Canalha”, cuja primeira apresentação fora com a gravação do Camisa de Vênus – contigo só em 2001. Voltando à Praça Panamericana, naquela noite, já bem alto e “ligado no piloto automático” eu me recusei a entrar no Pão-de-Açúcar e fiquei no estacionamento. Lá eu vi uma família branca e classe média paulistana saindo de suas compras e se assustando com crianças maltrapilhas muito mais escuras e pobres pedindo o que comer. Não me contive e comecei a falar como quem queria apontar um erro moral grave. Sentia-me um profeta,um anunciador das mazelas do mundo sem deus algum para não deixar a peteca cair. Dizia: – Não tenham medo, são humanos como vocês! Vocês são cristãos? São cristãos mesmos? Então têm a chance de exercer sua fé. Meus sermões não fizeram sucesso algum e logo alguns seguranças do supermercado me cercaram para que eu descesse da caixa de madeira que havia transformado em púlpito. Fui socorrido por meus amigos que voltavam abastecidos de comida, bebida e cultura, algo comprado – sempre mínimo – e outro tanto “desenvolvido”.: – Bora Joca, bora, que a gente já tem tudo que viemos buscar! Bora, toma um gole! A alegria e euforia eram contagiantes e rememorar os fatos recém-ocorridos enquanto passávamos a garrafa de um para outro e voltávamos ao CRUSP nos fazia rir mais e a mim cantar “Canalha” cada vez mais alto.
    Meses e meses mais tarde uma outra situação fez aflorar mais uma vez “Canalha”. Morava no 4o andar do bloco B do CRUSP e via a situação dos novos calouros que moravam no térreo do bloco C que era ocupado pelos pós-graduandos. Muitos calouros chegam cheio de energia e avessos à rotina depois do esforço para passar no vestibular: não quer dormir cedo, a alegria não tem fim, as paqueras são novas, assim como o fígado e o pulmão: abertos 24 horas para novas intoxicações. A alegria e a fuzarca dessa turma era tanta que tirou os pós-graduandos do sério: eles se organizaram e foram ao serviço social para exigir a retirada dos calouros do andar térreo e conseguiram. Quando soube do ocorrido, já tendo bebido uns goles rotineiros, comecei a discursar contra a safadeza destes pós-graduandos que recebem bolsa e não estudam e que moram no CRUSP sem precisar. Eu vociferava pela janela do corredor e a certa altura eu não falava mais nada e só gritava a plenos pulmões e longamente:”Canaaaaaalhaaaaa!”. Não demorou para aparecer uma platéia que aplaudia e outra que reclamava silêncio para dormir. Eu não me continha e gritava cada vez mais alto e mais longo e bebia mais e mais. Logo apareceram os fardados da USP para me calar. Isso aconteceu mais vezes e seu brado de indignação se propagou e muitos outros estudantes quebraram o silêncio da madrugada com “Canalha!” Isso ainda acontece pelo que sei lá pelas redondezas da Cidade Universitária. Grato Poeta, seus versos gravaram fundo no meu ser, grato.

  2. Só digo uma coisa: Uol :O
    Gritar canalha pelas janelas do Crusp com toda a força dos pulmões e garganta é algo indescritível e de tremendo prazer. Pelo Crusp existem várias versões sobre a origem do Canalha, que vai desde protesto contra a ditadura à falta d’água. Conhecer essa história foi enriquecedor. Tks

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