Vista assim do alto do Viaduto do Chá, o palco principal do Vale do Anhangabaú parece um pouco cheio, um pouco vazio, às 13h45 do domingo

Ando pela Virada Cultural paulistana durante não muito tempo, num horário, digamos, alternativo (o almoço de domingo). A imagem mais exata que me fica da edição 2026 como um todo, sob os auspícios do prefeito emedebista Ricardo Nunes, é a das vastas filas de espera para entrar (entrar?) no Anhangabaú privatizado (desde 2021, por uma gestão tucana).

A moçada espera pelo show de Marina Sena no palcão do Anhangabaú, em duas longas filas que serprenteiam pelas laterais do vale. A fila da direita do palco principal corcoveia para lá e para cá, do prédio dos Correios até quase sair do vale, bem maior que a da esquerda (como de hábito em São Paulo). Entre as duas filas, o núcleo cimentado do vale repousa desabitado, a não ser por gatos pingados pertencentes à classe social vulgarmente conhecida como “VIP”.

A fila da esquerda adentra o centro histórico, de resto tão cheio ou vazio como em qualquer dia útil
O centro do centro do Anhangabaú espreme as filas laterais, desocupadão

Depois de um périplo pelo centro velho da cidade, passo de novo pelo Vale do Anhangabaú, agora por cima do Viaduto do Chá, quase em cima de onde fica o palco principal, a essa altura sendo ocupado pelo público que avança como rebanho de carneirinhos rumo ao abate ou àa insônia de alguém. Um labirinto de grades colocadas nas calçadas do viaduto impede os espectadores de se aproximar para assistir aos shows daquela altura privilegiada.

Grades, grades, grades: parece prisão, mas é o Viaduto do Chá durante a Virada

Tudo soa como uma enorme contradição: dezenas de palcos, centenas de atrações, milhares de espectadores, extensa programação gratuita, e as autoridades municipais parecem fazer de tudo para que o Vale do Anhangabaú privatizado esteja 100% livre e não seja ocupado por seres humanos. É como se estivessem cobrando ingressos para um espetáculo com entrada franca ao ar livre (alguém precisa ser livre nessa história).

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Essas imagens de privatização do espaço público se reproduzem em minha mente por todos os percalços que percosso pelo centro, da Praça da República à Praça da Sé, passando por Largo do Arouche, Avenida São João, Anhangabaú, Viaduto Santa Efigênia (venha ver, Eugênia…), Pátio do Colégio, miolo do centro histórico, Praça da Sé, Praça do Patriarca…

Local histórico e turístico, o Pátio do Colégio repousa desértico, silencioso e interditado à visitação pública, sequer à possibilidade de pisar o chão do pátio.

Na Praça da República, um dos palco abobadados no nível do chão, para DJs eletrônicos e seus públicos

No caminho, diversos palcos menores encenam shows de cantores e músicos que eu não consigo reconhecer – todos semi-vazios. Também há, para apresentações de DJs de música eletrônica, vários mini-palcos ao nível do chão, para muito bonitinhos mas quase radicalmente quase vazios (alguém precisa ser radical nessa história). A Casa de Francisca (privada) parece mais animada que qualquer um desses palcos.

Não é que a Virada estivesse vazia (talvez esvaziada, sim). Há fortes sinais de que a esbórnia foi grande durante a madrugada – por exemplo, um Oxxo (pronuncia-se Ôcho) sofre completamente enlameado pelo encontro das chuvas do sábado com os chãos de terra da Praça da República.

Mas agora, no domingo ainda ensolarado antes de mais chuva, a sensação de esvaziamento prevalece. Pouca gente se reúne no palcão de jazz na Praça da República, assim como ao redor da banda de reggae que toca no palco do Arouche, tradicionalmente ocupado por artistas ditos “bregas”. O palco de forró da Sé não fica atrás, num show parapoucos em vez de paratodos.

No palco de stand-up comedy ao lado do Copan, um humorista tenta fazer graça para pouquíssimos espectadores melancolicamente sentados em cadeiras de plástico. No palco de karaokê de um dos calçadões da República, uma animadora esforçada tenta ensinar a coreografia do “Thriller” de Michael Jackson para uma plateia minguada, calada e parada.

Documentário e cadeiras de praia na Praça do Patriarca, paraninguém

Na Praça do Patriarca, um cercado envolve um telão que passa um documentário (qual?) diante de uma simpática plateia de espreguiçadeiras de praia – todas às traças, salvo uma ou duas onde dormitam espectadores casuais.

Na Avenida São Luís, uma das vias está inteiramente interrompida, para abrigar na altura da Galeria Metrópole não um palco ou pista de discotecagem, mas sim uma feira de quinquilharias e vinis (pagos). É onde se concentra uma parcela hipster (ainda se utiliza essa expressão?) da população viradeira, naturalmente (naturalmente?) arredia a testemunhar a vida dura no centro duro de São Paulo. A feira livre dominical da Major Quedinho, na hora da xepa, está mais cheia de gente.

Ainda que sob imagens variadas de quase desolação, a cidade neste domingo está mais bonita, alegre e viva do que na maioria dos dias ditos “normais”. Infelizmente, os humores privatistas e de repulsa ao povo emanados pelas gestões paulista(na)s de direita (e/ou de centrão) prevalece sobre o empenho do funcionalismo público em entregar uma Virada bem organizada, e sobre o desejo genuíno de alegria, encontros e festa por parte do eleitorado sofrido.

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