O jovem Zico, galinho que se tornaria samurai, no início de sua trajetória - still/ reprodução
O jovem Zico, galinho que se tornaria samurai, no início de sua trajetória - still/ reprodução

Ao defender a poesia como inutensílio, o poeta (samurai) Paulo Leminski (1944-1989) disse algo como “querer que a poesia tenha um porquê, esteja a serviço de alguma coisa, é a mesma coisa que querer que um gol de Zico tenha uma razão, além da alegria da multidão”.

A frase, que cito de memória, me vem à cabeça ao ver “Zico: o samurai de Quintino”, filme de João Wainer, cinebiografia autorizada do eterno camisa 10 da Gávea, que estreia no próximo dia 30 de abril nas salas de cinema brasileiras.

Arthur Antunes Coimbra, nome de pia do protagonista, é um dos últimos jogadores de uma época em que o futebol ainda não havia sucumbido completamente à lógica da força física e “da grana que ergue e destrói coisas belas”.

Não à toa, no início da carreira, Zico ganhou um segundo apelido: Galinho de Quintino, que aludia à sua origem suburbana, ao cabelo comprido e arrepiado e à sua fragilidade física. Talvez, para os cartolas de hoje, seu talento e habilidade não encontrassem lugar ou investimento.

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A ética e a disciplina de Zico são enaltecidas por Pelé (1940-2022) em uma das cenas. Noutra, o jogador se anistia de pênalti perdido em Copa do Mundo, o que custou a eliminação da seleção brasileira. A diferença dele para outros jogadores (com preço mas) sem valor(es) de hoje em dia é que ele o faz não no dia, sorrindo, mas 40 anos depois, reconhecendo o próprio valor e outros feitos, sem arrogância nem empáfia.

Trata-se, sem dúvidas, de um dos maiores jogadores de futebol de todos os tempos, dentro e fora de campo, entre a vitória contra Maradona (1960-2020), então no Boca Juniors, na final da Libertadores de 1981 (mesmo ano em que o rubro-negro conquistaria seu primeiro mundial de clubes, contra o Liverpool), e a amizade com Roberto Dinamite (1954-2023). Se não teve sorte em suas passagens pela seleção, isto é mero detalhe, não lhe diminui o brilho.

Em grande medida, o filme é alicerçado em imagens do acervo familiar de Zico, levando o espectador à mesa do craque, com sua esposa e filhos, além de entrevistas dele e seus pares de geração. Filho e irmão de outros jogadores de futebol, Zico lembra que quando crianças, os meninos ganhavam do pai uma camisa do Flamengo e uma camisa da seleção — para adiante perguntar ao neto o porquê de uma camisa do Real Madrid: “não é Flamengo, não?”.

Cabe destacar que aqui e acolá ouve-se a voz de Jorge Ben Jor cantando a seu modo o “Hino do Flamengo” (Lamartine Babo), talvez em sua melhor gravação — o “Samba rubro-negro (O mais querido)” (Jorge de Castro e Wilson Batista) na voz de Gal Costa (1945-2022) também é imbatível. Da gravação de João Nogueira (1941-2000), que mexeu na letra para citar o maior ídolo flamenguista, retirei o título deste texto.

Depois da aposentadoria dos gramados, Zico foi ensinar os japoneses a jogar futebol, colhendo resultados surpreendentes — desde 1998 o Japão classificou-se para todas as Copas do Mundo, inclusive a de 2026.

O terceiro apelido que Zico ganhou na vida, que empresta subtítulo ao filme, alude aos samurais azuis, como são conhecidos os jogadores da seleção japonesa, tamanha a importância do carioca para o ludopédio na terra do sol nascente.

Sofredor do Vasco da Gama, este resenhista atesta: “Zico: o samurai de Quintino” agradará não apenas flamenguistas, mas interessados por futebol e cinema de modo geral.

"Zico: o samurai de Quintino" - cartaz/ reprodução
“Zico: o samurai de Quintino” – cartaz/ reprodução

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Veja o trailer:

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