Jorge Luis Borges acreditava que a literatura podia fazer o que Deus não consegue: alterar o passado. Em A outra morte, conto que integra O Aleph, ele imagina um soldado que fugiu do campo de batalha e viveu décadas carregando essa culpa. Mas, nesse conto, Deus atende ao desejo de Pedro Damián (Lauande Aires) para que lhe fosse permitido retornar ao exato momento em que seria possível reescrever a realidade, tornando-o um herói e não um covarde. A redenção borgiana não vem pela penitência, mas pela substituição da memória. É uma ideia ao mesmo tempo consoladora e perturbadora: se o passado pode ser refeito, o que fazemos com o arrependimento?
Ensaio sobre a Memória, da Pequena Companhia de Teatro, se inspira em A Outra Morte para propor uma nova abordagem: o Damián desta peça não é necessariamente um covarde. Há uma diferença moral entre quem delata por conveniência, para se livrar de uma culpa, e quem delata porque o Estado tirano decidiu que a dor tem um limite que nenhum corpo humano consegue ultrapassar. Alguém no pau de arara precisa ser herói para não ceder. Num País que nos últimos anos assistiu à delação “premiada” ser transformada em mecanismo de mercado por quem participava voluntariamente de esquemas de corrupção, essa distinção não é pequena. A peça, sem precisar dizê-lo, a coloca de forma precisa.
O espetáculo da Pequena Companhia de Teatro, que está com uma ocupação no CCBB-SP, começa antes que o espectador tenha tempo de se acomodar. Damián surge em luz vermelha, gritando nomes. Assusta. Não é uma abertura que convida, é uma abertura que agride, no melhor sentido. O blackout que se segue é longo o suficiente para que o silêncio pese. Quando o escritor (Cláudio Marconcine) e sua assistente (Dênia Correia) aparecem na penumbra, sussurrando, a temperatura emocional da cena mudou completamente, e é nessa tensão entre o grito inicial e a conversa intelectual que a peça vai construir seu labirinto.
O escritor quer contar a história de Damián, mas descobre, ao tentar fazê-lo, que não sabe como terminá-la. É aqui que o diretor Marcelo Flecha entra em jogo: materializa em cena a consciência e a memória (Katia Lopes) como personagens que contracenam com o escritor. A decisão sobre o destino de Damián não é solitária, mas feita em negociação com tudo que o escritor viveu, percebeu, internalizou. Os quatro atores se alternam entre personagens que ora parecem reais, ora habitam o espaço nebuloso da imaginação em construção.
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QUERO APOIARHá ainda uma camada que só se revela depois, quando Flecha sobe ao palco para explicar que a cenografia e a iluminação são feitas de materiais reciclados e descartados. Durante a encenação, isso não se sobressai. Quando a origem é revelada, o que muda não é essa leitura visual, mas a política: estamos diante de um grupo que recusa a obsolescência como prática cotidiana, silenciosa, incorporada ao trabalho.
Ensaio sobre a Memória é o terceiro espetáculo da Ocupação Maranhense no CCBB São Paulo, que celebra os 20 anos da Pequena Companhia de Teatro, de São Luís do Maranhão. Com quatro Prêmios Funarte e espetáculos que já rodaram 74 cidades em 25 estados, o grupo é uma das experiências mais consistentes do teatro de grupo brasileiro.
A partir de 9 de abril e até dia 20, estreia Desassossego, com Luciana Duarte e Jeyzon Leonardo, Se nos espetáculos anteriores a Pequena Companhia mergulhou em Franz Kafka, Gabriel García Márquez e Borges, aqui ela se abriga em Fernando Pessoa. Diferente das montagens anteriores, Desassossego é descrita como uma comédia constrangedora, com os dois atores interpretando versões de si mesmos em busca da cena perfeita — e revelando, nessa busca, todos os descompassos do fazer teatral.

Ocupação Maranhense.. No CCBB São Paulo, de quinta a segunda-feira, às 19 horas; sábados e domingos (18 horas). Entrada gratuita.





