Cena de Medea, de Gabriel Villela, em cartaz no Sesc Consolação - Foto: Joao Caldas/ Divulgação

Há uma solenidade desconcertante que preenche o palco do Sesc Consolação em Medea, peça em cartaz de Gabriel Villela. Nesta montagem, o diretor opta por uma arquitetura cênica de distanciamento. Não é, como se poderia pensar, um afastamento frio, mas de uma construção deliberada: a plateia está presente para ocupar o desconfortável lugar de juízes. Em tempos de tribunais digitais e cancelamentos sumários, Villela nos obriga a encarar a complexidade de uma personagem que se recusa a ser simplificada.

A peça mostra a feiticeira Medeia, neta do Sol, repudiada e traída pelo marido (Jasão) e condenada ao exílio pelo rei (Creonte), tramando e executando a sua vingança – o assassinato dos próprios filhos. A escolha do texto de Lúcio Aneu Sêneca é uma espécie de manifesto. Se na tragédia grega a desgraça é um desenho dos deuses, no Sêneca romano a responsabilidade recai sobre o indivíduo. E isso conduz como Villela quer nos apresentar esse drama: é uma montagem recheada de falas que refletem a cadeia de pensamentos da personagem, momento em que são descortinadas suas dúvidas, seus temores, sua fúria. É a “desmedida” humana que move as engrenagens da barbárie.

O texto, denso e repleto de uma retórica que pode soar empolada aos ouvidos acostumados à rapidez do consumo contemporâneo, exige do espectador um exercício de escuta que vem se rareando acelaradamente. É uma montagem que não se entrega aos novatos; ela demanda a compreensão de que a palavra ali é, também, um rito. Há uma atmosfera permanente de tensão, quando somos convidados a acompanhar os últimos momentos dolorosos do que está por vir.

Cena de Medea, de Gabriel Villela, em cartaz no Sesc Consolação – Foto: Joao Caldas

Medea é interpretada por três atrizes: Rosana Stavis, Mariana Muniz e a participação especial de Walderez de Barros. Essa trindade feminina apresenta as múltiplas faces de uma mulher que transita entre o inumano e o desumano. Que não se perca de vista: Medea é uma feitceira (inumana), mas sua tragédia reside no desejo de se tornar criminosa (desumana). A elas, somam-se no elenco Jorge Emil, Claudio Fontana, Plínio Soares, Letícia Teixeira e Gabriel Sobreiro.

Ao longo do espetáculo, o público assiste à lenta derrota da “Medea-mãe”, do coração e da humanidade que todos esperariam dela, para a ira que se torna um crime contra a própria natureza. Sêneca, o filósofo estoico que pregava o combate ao medo da morte, entrega esse infanticídio não pela representação cênica, mas pela exaustão do verbo. É um diálogo que parte do corpo – nossa comunicação primária – e escala a sofisticação da palavra que fere.

Visualmente, a assinatura de Villela segue única. O cenário de J.C. Serroni cria o necessário contraste barroco com o rigor da tragédia. Ao final, ao tratar Medea como uma “estrangeira” silenciada que devolve ao mundo a fúria do desprezo, Villela nos confronta com o vírus da violência que ronda a política, o cotidiano, a vida digital. O espectador sai do Sesc Consolação não decidindo por uma sentença, mas carregando consigo o peso de ter assistido a uma mulher que, impedida de ser humana, escolheu a desmesura para ser ouvida.

Medea. De Gabriel Villela. No Sesc Consolação, quintas-feiras a sábados (20 horas) e domingo (18). Ingressos para a última semana liberados para venda a partir de 3 de março.

Precisamos de um quilo de farinha pra fazer FAROFAFÁ!

Mascote FAROFAFÁ Somos o único veículo crítico e progressista dedicado exclusivamente ao jornalismo cultural, nas suas mais variadas frentes: livros, filmes, música, artes, teatro etc. Se você chegou até aqui é porque está do nosso lado. Ajude FAROFAFÁ a fortalecer o debate e a cultura brasileira.

Diferente dos grandes veículos, não somos donos bilionários e não corremos atrás de cliques a qualquer custo. Isso significa duas coisas:

1. Farofafá trata do que importa para a cultura brasileira — do teatro de grupo às periferias musicais, da literatura marginal às artes visuais — sem precisar agradar patrocinadores.

2. Praticamos jornalismo de fôlego. Críticas, reportagens e ensaios nascem de quem foi ao teatro, ouviu a música, leu o livro, viu a exposição. E tudo o que publicamos é gratuito para qualquer leitor — e queremos que continue assim.

Você pode ajudar a deixar Farofafá mais forte e vibrante! Escolha sua forma de contribuir e vamos farofafar juntos!

Escolha como apoiar

Saiba mais em farofafa.com.br/apoie

PUBLICIDADE

DEIXE UMA REPOSTA

Por favor, deixe seu comentário
Por favor, entre seu nome