“Respeito muito minhas lágrimas, mas ainda mais minha risada”, começa “Vaca profana” (“dona de divinas tetas”, diz ainda a letra), de Caetano Veloso, sucesso lançado por Gal Costa (1945-2022) em 1984. Cito a música para, adiante, mais que a risada, respeitar a música da Octeta.
Octeta é o feminino de octeto, trocadilho esperto aludindo àquela parte do corpo (das mulheres) que o instagram censura, com que um, inteiramente formado por mulheres, utilizou para batizar um grupo muito interessante surgido em São Paulo em 2019.
A Octeta — elas mesmas tratam o grupo no feminino — é formada por Mathilde Fillat (violino), Mônica Morais (voz e escaleta), Laryssa Alves (baixo e voz), Marina Bastos (flautas e saxofone tenor), Larissa Galvão (flauta e teclas), Viviane Pinheiro (piano e teclado), Miriam Momesso (guitarra) e Caroline Calê (bateria) — com todas cantando e tocando instrumentos de percussão em alguns momentos.
Ainda citando o baiano que recentemente ganhou o Grammy com sua irmã Maria Bethânia, a sonoridade da Octeta remete aos “hermetismos pascoais”, com o que “o albino Hermeto” conceituou (e praticou) sua música universal.

“Circular” (YB Music, 2026) é o título do álbum de estreia do grupo, que traduz justamente essa liberdade de criação: as integrantes da Octeta transitam entre composição, arranjo e improviso, sem se prender a amarras, sem estabelecer funções ou criar hierarquias. O álbum é dedicado a Hermeto Pascoal (1936-2025) e à violinista Wanessa Dourado (1991-2024), que chegou a integrar a formação original do grupo, antes de seu falecimento precoce.
O resultado é um trabalho instrumental, autoral e inédito, feito por mulheres, original, que merece a atenção de curiosos e interessados por música em geral.
O álbum conta com participações especiais da violinista francesa Vanille Goovaerts (em “TPM”, de sua autoria, e “Dourada”, de Viviane Pinheiro) e da cantora, compositora e violonista Marina Marchi (em “Dourada”).
“Circular” passeia por brasilidades que vão do samba (“Samba novo”, de Marina Bastos) ao frevo (“Sem vergonha”, de Viviane Pinheiro), passando pelo cotidiano paulista(no) (“Caminhada matinal”, de Viviane Pinheiro) e a intensidade dos ciclos femininos (“TPM, de Vanille Goovaerts, e “Ciclo ‘in’ ciclo”, de Caroline Calê, sempre explorando compassos irregulares e a improvisação como elemento central.
O leite da Octeta é som dos melhores. Quem bem souber se deixe inundar ouvidos e coração. Sem som ruim para os caretas, que disto elas não são capazes.
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Ouça “Circular”:




