Hyldon
Hyldon lança "Festa na Aldeia", 17º álbum individual numa carreira de 52 anos como cantor desde "Na Rua, na Chuva, na Fazenda" – foto divulgação

A bela capa do álbum Festa na Aldeia (lançado também em vinil) emoldura uma coleção concisa de canções que refletem as melhores qualidades do cantor, compositor, violonista, guitarrista e samba-soulman baiano Hyldon, atualmente com 75 anos. A ilustração (assinada por Marcio Bertoli) e o título apontam para um Brasil indígena, enquanto as canções balançadas seguem investindo no fino do fino da música afro-brasileira com inflexões norte-americanas de soul, funk, blues e derivados. Samba-soul afro-indígena, poderíamos apelidar, numa tentativa de síntese.

“Festa na Aldeia”, com indígenas, onça, saci pererê e a sombra de várias árvores

O conteúdo faz justiça a uma trajetória alavancada por duas das mais felizes composições brasileiras, “Na Rua, na Chuva, na Fazenda (Casinha de Sapê)” e “As Dores do Mundo” (de título inspirado no filósofo Arthur Schopenhauer), ambas lançadas como compactos em 1974. Batizado de Na Rua, na Chuva, na Fazenda… (1975), o espetacular álbum de estreia que seguiu os dois compactos modulou uma sonoridade de, digamos, soul rural, se pudermos fazer um paralelo com o rock rural em evidência naqueles anos, sob liderança do trio Sá, Rodrix & Guarabyra.

No alicerce dos álbuns lançados por Hyldon nos anos 1970, estava a parceria duradoura com o trio mais tarde internacional Azymuth e com músicos que se preparavam para formar a Banda Black Rio e deflagrar o movimento black Rio.

Hyldon foi membro ativo do levante black power desde a composição de um baladão soul para a jovem Rosa Marya Colin (“Tentei Lhe Esquecer“, 1969) e o advento de Toni Tornado (“O Repórter Informou”, 1971), cuja banda também integrou na vitória soul no Festival Internacional da Canção de 1970, com “BR-3”, composto por Antonio Adolfo e Tibério Gaspar.

No tempo turbulento do levante black power, compôs canções para Trio Ternura (a mimosa “Vou Morar no Teu Sorriso”, de 1971), Brazilian Singers (o samba-funk “Por Esse Mundo Afora”, de 1972), Os Populares (“Quero Quero e Quero”, 1972, com voz solo de Hyldon) e Gerson King Combo (“Pro Que Der e Vier”, 1978).

O sucesso aconteceu, essencialmente, em parcerias arrasa-quarteirão com Tim Maia: “I Don’t Know What to Do with Myself” (1971), “The Dance Is Over” (1976), “A Fim de Voltar” (1978) e “Boogie Esperto” (1979), todas lançadas por Tim, e “Velho Camarada” (1979), dueto de Fábio e Tim, com participação de Hyldon cantando o refrão de “Na Rua, na Chuva, na Fazenda”). Em 1982, Tim Maia rendeu-se ao maior hit de Hyldon, gravado sob o título “Casinha de Sapê”.

Ouça obras-primas, raridades e antecedentes de Hyldon, da jovem guarda ao hip-hop

Se o LP de 51 anos atrás encharcava o ouvinte com um veludo natural feito de chuvas, fazendas, casinhas de sapê, sombras de árvore, sábados e domingos, bicicletas, noites, violões e patuás, o novo Festa na Aldeia transforma a casinha de sapê em oca e aponta para um microcosmo mais de aldeia que de megalópole. Frequentam a Festa na Aldeia de Hyldon indígenas, montanhas, onças, lobos solitários, rios, mares azuis, luas, pingos de chuva, mergulhos, varandas, gramas, sanduíches, mingaus de tapioca, umbuzeiros, praias, sanhaços, canários, sereias, sóis, gaivotas, quintais, violões, trovões, beija-flores, lindos dias…

A provável estreia da voz solo de Hyldon: “Quero Quero e Quero” (1972), parceria com Mazola

Baiano de Salvador, Hyldon radicou-se no Rio de Janeiro desde os primórdios como músico de estúdio e compositor de jovem guarda (para artistas do segundo pelotão como Elizabeth, Robert Livi, Sylvinha, José Roberto, Pedro Paulo, The Fevers) e de baladões românticos (para Wanderley Cardoso – “Chove, a Natureza Chora”, 1969, a primeira canção de chuva de Hyldon –, Suzy Darlen, Jerry Adriani, Adriana, Carlos José). Desde que deslanchou em carreira própria, Hyldon nem sempre privilegiou os temas de natureza idílica. Não raro, procurou desvincular-se dessa associação – provam-no os títulos de dois de seus álbuns passados, Coração Urbano (1986) e Romances Urbanos (2013).

Pois eis que Festa na Aldeia começa mais urbano que rupestre, com “Vida Maneira“, composição resgatada do antológico álbum hippie-tropicalista de Wanderléa, …Maravilhosa (1972), que trazia Hyldon como guitarrista. “Vida Maneira” soa moderna sob vários ângulos na voz do dono. No original, era uma canção de levante feminista para Wanderléa, a protestar contra a tirania masculina sobre corpos e mentes femininos: “Meu vestido curto não uso/ pois você não deixa/ nem de maquiagem eu curto/ pois você se queixa/ sair sozinha eu não posso/ quero ter uma vida maneira/ mas eu não levo jeito de prisioneira”.

Problema posto, Wanderléa projetava um futuro menos opressivo, repressivo e desigual: “Que bom que você descobrisse/ que tudo evoluiu/ ciúme é pura tolice/ que bom que você descobrisse/ que é quase o ano 2000/ final do século XX/ se você não entender assim/ até de repente”.

Oportuna num tempo vergonhoso de explosão feminicida, a “Vida Maneira” agora samba-funkeada por seu autor é moderna também por manter a primeira pessoa feminina e não exibir ridículas fragilidades masculinas na tentativa de masculinizar os versos escritos para Wanderléa no feminino. A letra de “Vida Maneira” foi, sim, invertida e adaptada para 2026, mas em outro trecho: “Que bom que você descobrisse/ que o mundo evoluiu/ não estamos mais no século XX/ que bom que você descobrisse/ que ciúme é pura tolice/ e já deu pra homem machista/ se você não entender assim/ até de repente”. Enquanto outros compositores tentam camuflar e justificar machismos no passado e no presente, aqui o gol é da seleção feminina.

O conflito urbano-cultural de “Vida Maneira” se dissolve em seguida na faixa-título de Festa na Aldeia, visão hyldoniana sobre aquilo que a MPB definiu brilhantemente em obras-primas como “Curumim Chama Cunhãtã Que Eu Vou Contar (Todo Dia Era Dia de Índio)”, nas versões do autor Jorge Ben (Jor) e de Baby (Consuelo) do Brasil, ambas de 1981. Escrita em parceria com o africanista, grafiteiro, rapper e compositor Nkongo Divwa, “Festa na Aldeia” mistura tupi e português em celebração ritual (algo belicosa), num rasante em ritmo de reggae jamaicano e/ou de samba-reggae baiano: “Hoje todos os índios da aldeia/ vão pular, vão dançar/ até o sol se por/ (…) eles tão comemorando a captura do inimigo”.

“Festa na Aldeia” se conecta instantaneamente com “A Onça”, num samba-funk à la Cassiano ou Tim Maia, em que as dimensões natural e cultural convivem em quase harmonia: “Eu fiquei a ver navios/ quando meu bem foi embora/ uma onça na beira do rio/ faminta e sem água/ longas noites sem estrelas/ um caminho sem volta/ um lobo solitário uivando/ desafiando a morte/ um animal ferido/ entregue à própria sorte/ eu pensei que era meu fim/ quando ela foi embora/ mas o amor é mesmo assim/ às vezes é bom, outras ruim/ eu aprendi com a nossa história/ quem sabe faz a hora”. Mesmo as dores do mundo soam elevadas e construtivas no imaginário de Hyldon.

O ciclo natural de Festa na Aldeia tem seu ápice na faixa “O Pierrot, a Lua e o Mar”, uma parceria com Pepeu Gomes, que remete obviamente ao hit “A Lua e o Mar” (1990), lançado por Pepeu e Moraes Moreira, mas vai além, liquidificando o rock-samba urbano-rural dos Novos Baianos em “Os ‘Pingo’ da Chuva” (1973), o soul pernambucano de Paulo Diniz em “Pingos de Amor” (1971), disco music setentista, rock praieiro havaiano à moda de Lulu Santos etc.: “Não me diga nunca mais/ que não é meu o seu amor/ e os pingos da chuva/ refletindo a lua/ me aceite como eu sou/ um palhaço, um pierrô/ e os pingos da chuva/ refletindo a lua/ deixa transbordar o amor”.

Congregando ainda blues (“Fã do Sanduíche”), algumas baladas soul derretidas (“Um Dia Lindo”, composta com o Azymuth Ivan Conti, o Mamão, pouco antes de sua morte, e”Desamor”) e uma pitada de soul-jazz (“Aconteceu em Geribá”, composta em 1977 e inédita até aqui), as oito rápidas faixas de Festa na Aldeia condensam a obra de um artista que guardou 20 anos de eclipse (como ele mesmo explica) após um início explosivo e tem se tornado cada dia mais versátil desde que seus hits foram redescobertos e regravados nos anos 1990, por Kid Abelha (“Na Rua, na Chuva, na Fazenda”, em 1996) e Jota Quest (“As Dores do Mundo”, idem), entre vários.

Nos anos mais maduros, Hyldon tem gravado discos densos e massudos, como O Vendedor de Sonhos (2003), Soul Brasileiro (2008), As Coisas Simples da Vida (2016) e Soul Samba Rock (2020), enquanto abre o arco de parcerias compondo com Karla Sabah (“Menina de Rua”, 2009), Zeca Baleiro (“Calma Aí, Coração”, 2012, ‘No Fim da Estrada Tem uma Cidade”, 2013), Silvia Machete (“Coração Valente“, 2012), Arnaldo Antunes (“Tempo, Tempinho, Tempão”, 2013, e “Cada um na Sua Casa”, 2019, pré-pandemia apesar do título), Céu (“17 Beijos”, “Trato” e “O Tombo”, 2013, todas também com Arnaldo Antunes), Roberta Campos (“Se a Saudade Apertar“, 2021) e o estadunidense Adrian Younge (um álbum completo pelo selo Jazz Is Dead, em 2025).

Outro encontro frutífero tem sido com o hip-hop que domina a música negra brasileira do século XXI: Hyldon compôs “Foi no Baile Black” (2013) com Mano Brown e Dexter; participou da quase-homônima “Foi num Baile Black” (2016), de Mano Brown e Lino Krizz, no disco solo de Brown; e gravou colaborações com Rappin’ Hood (“Um Luau pra Você“, 2019), U-Clãn (a densa “Em Silêncio – Gritos na Madrugada”, 2021) e 509-E (“Liberdade pra Sonhar”, 2022). Nesse pique, elaborou pela primeira vez um manifesto racial, batizado de “50 Tons de Preto” (2019): “Orgulho de ser negro/ sou negro, sim/ sou negro, e daí?/ sou negro”.

Noutro flagrante da contemporaneidade de Hyldon, a artista trans mineira Urias lançou em primeira mão no ano passado “Águas de um Mar Azul”, uma parceria de Hyldon com Fábio composta em meados dos anos 1970, mas inédita até 2025, no interstício lodoso entre a natureza (“águas rolando/ vindas de longe/ vento soprando/ trazendo as ondas/ que batem na areia/ águas de um mar azul”) e a cultura (“o sangue latino/ me trai cada instante/ no olho, no gesto/ meu Deus, quando é/ que perco a mania/ de ser tão sentimental?”). A interpretação acachapante de Urias faz supor um terceiro hit de natureza por Hyldon na década de 1970, caso tivesse sido lançado à época.

Juntos, momentos recentes como “Foi no Baile Black”, “50 Tons de Preto”, “SoulSambaRock, Sou” (2020), “Águas de um Mar Azul” e as canções de Festa na Aldeia apresentam um pouco do que há de melhor na música de Hyldon, o que significa apresentar um pouco do que há melhor na música brasileira desde os 1970 até os 2020. Um dos poucos sobreviventes da geração black power brasileira, Hyldon é e continua sendo o cara.

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