A poeta Laura Amélia Damous - foto: divulgação
A poeta Laura Amélia Damous - foto: divulgação

O que torna uma manhã trêmula? Uma noite mal dormida em nome da ressaca (e aqui falo do que às vezes ocorre ao resenhista) ou em busca de um poema bem acabado (referindo-me à poeta)?

Laura Amélia Damous (Turiaçu, 1945) reflete sobre o tempo, mas não só, em “O tempo das manhãs trêmulas” (7Letras, 2025, 93 p.), que autografa hoje (26), às 18h30, na sede da Academia Maranhense de Letras (AML, Rua da Paz, 84, Centro). A imortal estreou na poesia há 40 anos, com “Brevíssima canção do amor constante”.

De lá para cá, uma vida inteira dedicada ao ofício, quase um sacerdócio, em paralelo à formação em Filosofia (UFMA) e a gestão pública — foi diretora do Teatro Arthur Azevedo e secretária de Estado da Cultura do Maranhão.

O poeta Fernando Abreu (outro maranhense publicado pela 7Letras), em “Mergulho em águas perenes”, texto que apresenta a obra, destaca “o diálogo com a grande tradição ocidental e além, a religiosidade como herança familiar, a escuta do silêncio, a presença quase física da noite e seu turbilhão de astros, a sensualidade amorosa. E o espanto diante da precariedade da vida — que parece resistir a toda experiência” entre “alguns aspectos essenciais da poesia de Laura Amélia Damous”.

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Se no dizer de Heráclito nenhum homem pode banhar-se duas vezes no mesmo rio, Laura Amélia Damous nunca se enxugou do último mergulho nas águas do Turi da infância, nem tirou da boca o gosto doce do abacaxi de sua terra natal. Em “Bizâncio, a minha”, dialoga diretamente com W. B. Yeats (1865-1939) (é dele a epígrafe do poema): “minha cabeça se banha/ nas águas do Turi/ minha cabeça naufraga/ nas águas do Turi”.

A memória é fio condutor de boa parte dos poemas do livro, dedicado a netos e bisnetos, que sai por uma editora cuja distribuição espera-se ampliar a atenção para sua poesia. É comovente a lembrança dos pais em “A flauta e a trança”, de que transcrevemos a íntegra a seguir: “meu pai tocava flauta e/ cantava/ lembro bem o que minha mãe fazia/ fazia tranças com laços de tafetá e cetim/ ainda ouço a voz e a flauta/ do cabelo enfeitado pouco sei/ agora/ as duas vivem em mim/ tocando e trançando/ lembranças”.

“Os vivos e os mortos” também evoca saudades de quem já partiu, como “Mar de cinzas”, poema dedicado ao engenheiro mineiro Luís Phelipe Andrès (1949-2021), apaixonado pelo Centro Histórico de São Luís e, em grande medida responsável por sua revitalização como hoje o conhecemos, com quem trabalhou na Secretaria de Estado da Cultura.

“Mapa múndi” coloca a Turiaçu natal como centro de um mapa particular, numa brincadeira com grafias possíveis do nome de sua cidade natal, a evocar sua etimologia. Em tupi-guarani, significa facho grande ou fogueira grande.

O poema “Há que se falar”, que fecha o volume, ganhou melodia do compositor Chico Saldanha e foi por ele gravado no álbum “Emaranhado” (2007), o que coloca a poeta no rol dos inspirados letristas de música popular.

O haicai “Guarda noturno” sintetiza sua devoção: “a poesia/ me ronda/ anseio pela prisão”. Laura Amélia Damous é uma das grandes vozes da poesia brasileira hoje. Como disse Nauro Machado (1935-2015), sobre “Cimitarra” (2001): “sua poesia não possui a visão equivocada de um parcial desvelamento do ser: ela se faz no desvelamento da realidade naquilo que simplesmente é”.

Volto à apresentação de Fernando Abreu: “como poeta, Laura Amélia Damous rompe embargos com a naturalidade de quem sabe quem é, o que faz e porque faz. Quase me ânimo a dizer que a artista é simplesmente fiel à sua vocação, mas essa também é uma palavra proscrita”.

“O tempo das manhãs trêmulas”, ao mesmo tempo em que nos apresenta uma nova fornada de poemas, com originalidade e coerência, reafirma o que os mais atentos já sabem: estamos diante de uma grande obra de uma poeta — simplesmente — idem.

"O tempo das manhãs trêmulas" - capa/ reprodução
“O tempo das manhãs trêmulas” – capa/ reprodução
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