O álbum Palácio de Lona consolida a parceria de dois dos trappers mais populares do Rio de Janeiro (e do Brasil), MC Cabelinho, de 30 anos, criado no conjunto de favelas Cantagalo-Pavão-Pavãozinho, em Copacabana, e TZ da Coronel, 24, cria da favela do Morro do Limão, em Cabo Frio. Na faixa “Lobo Mau”, juntam-se a eles mais dois trappers cariocas, nesses casos tão populares quanto controversos: tanto MC Poze do Rodo como Oruam têm enfrentado a fúria das autoridades policiais cariocas, sempre predispostas a confundir as letras de seus traps com apologia do crime ou, mais ainda, pertencimento efetivo a organizações criminosas.

Embora Palácio de Lona traga características bem semelhantes às obras de Poze do Rodo, de 27 anos, e Oruam, 26, seus pares MC Cabelinho e TZ da Coronel até hoje não caíram na ira das forças repressoras que veem no trap, no rap ou no funk males que não enxergam em outros produtos da cultura necrocapitalista, como filmes policiais e de guerra, séries de crime, novelas sanguinolentas, a debochada série Tremembé ou o papel de Wagner Moura em Tropa de Elite, só para citar alguns poucos contra-exemplos. Cabelinho e TZ parecem manifestar, em “Lobo Mau”, sua solidariedade aos parceiros colocados sob suspeita graças, principalmente, às letras que compõem – para não falar na cor de suas peles.
Assinada por Cabelinho, TZ e alguns de seus produtores, “Lobo Mau” procura conciliar a crua realidade com certo tom infantilizado, citando Chapeuzinho Vermelho em registro infanto-adulto comparável ao do idoso “Lobo Bobo” da bossa nova: “Deixa a Chapeuzinho brotar que ela vai sentar pro lobo”. A provocação à polícia, onipresente no trap como já era no rap e no funk, marca posição para o quarteto, aqui contaminando a rebeldia anti-sistema com misoginia (também insuportavelmente frequente no trap): “Minha postura fala mais que minha palavra/ o sistema me odeia por eu não cair/ (…) é que nós domina a mente das piranha e aterroriza os PM”.
Acelerada e ansiosa, a letra de “Lobo Mau” se reporta simultaneamente à polícia, ao sistema e ao sexo feminino, todos indistintos na posição de inimigos. No trecho final, a repulsa ao sexo feminino se mistura num mesmo texto à revolta contra o… capitalismo: “Onde que ela tava quando nós não tinha nada, que nós tava lá jogado no morrão?/ hoje essas piranha tão brigando pra chupar minha…/ pra saber quem vai entrar no meu carrão”. Ingredientes que faltavam, a religiosidade e a culpa cristã engrossam o caldo do panelão: “Deus, perdoe todos esses pecados meus/ é que tanta coisa já aconteceu/ mas nada fará eu perder minha fé/ Poze, Oruam, TZ, Little Hair/ fé em Deus”. É muita coisa para bagunçar as ideias de um só “Lobo Mau”.
O jornalismo cultural de Farofafá precisa do seu apoio! Colabore!
QUERO APOIAR
Dito isso, a afronta que conduz Palácio de Lona passa, em primeiro lugar, pela assunção da persona do dito “bandido”, como explicita a faixa de abertura, “Foragido”, mais uma que equipara raiva antissistêmica, misoginia, amor e Deus: “Deus me proteja nessa vida errada/ eu sou foragido e mesmo assim só ela me acha/ (…) não quero amigo falso nem amor de puta/ bandido é uma máquina de fazer inimigo/ mas é consequência da vida que eu vivo/ os irmão privado não tá esquecido/ solta o alvará de todos amigos/ (…) eu vivo essa vida avançada/ mas eu tô cheio de ódio/ não posso sair no morro/ eu não posso te ver na sua casa”.
A descrição crua da vida no crime perpassa outras faixas, como “Bom e Novo” (“nós vai sempre ser o foco/ levanta os fuzil pro alto/ morador não grava nem tira foto”), “Glocks & Berça” (“chove viciado, eles tá falando sozinho/ como eu sou culpado?/ eles que compra, eu só vendi” e “X9 vai pro pneu, tá se tremendo de medo/ alemão dançando frevo, quando nós pia de baque”), “Pussy” (“nós tá contando o malote, aham/ queimando a da forte, queimando o X9/ na onda, elas sabem que nós não se apaixona/ elas sabem que eu sou o terror dos cana/ as gata tão atrás do meu leitinho”). “Baile no Morro” explora o fetiche feminino pelo crime, como sempre sob pesado manto misógino: “Ela quer os que defende o morro com unhas e dentes/ ela diz que ama o perigo e quer viver ilegalmente/ baile de favela pede coisa mais pra frente/ vai mamar o vapor, mulher, vai mamar o gerente/ vai sarrar na Glock, vai roçar no pente/ (…) vê o malote, ela se molha”.
“Glocks & Berça”, em particular, vende o mesmo tipo de bem de consumo recreativo comercializado à farta por filmes como Tropa de Elite ou por programas policiais das tardes televisivas: “Outros pinotou, nós achou esse aqui sozinho/ agora nós vai escolher qual o seu fim/ seu destino tá na mão de quem sim/ nós vai picotar ou vai deixar assim?/ mano, nós defende a nossa terra e nosso habitat/ até que nós prefere a paz, mas a guerra é intensa”. O narrador até prefere a paz, mas a guerra é intensa. Nada parece assim tão diferente do Banco Master, das relações incestuosas entre a avenida Faria Lima e o PCC, dos arquivos canibais de Jeffrey Epstein, da sede de Trump e Netanyahu por carne humana.
Aqueles que confundem discurso poético com apologia ao crime invariavelmente ignoram os traps que, em direção oposta, não se auto-afirmam como protagonistas de crimes. Na maior parte das 11 canções de Palácio de Lona, os narradores reivindicam a posição de não-“bandidos”, muito pelo contrário. O trap exemplar dessa vertente no álbum de MC Cabelinho e TZ da Coronel é “Normal”, sobre potente levada de soul music à la Isaac Hayes ou Tim Maia: “Eu sou o mesmo de antes/ eu vim das ruas de sangue/ eu sei o valor das chances/ não me apeguei em nenhum bem material/ isso que me faz ser genial/ olha eu na capa da revista/ melhor que na capa do jornal/ tu não vai ver nenhum lugar que nós não vamos estar/ se tem valor eu vou conquistar”. A meta dos trappers é o topo e é melhor estar na capa da revista que na capa do jornal: é melhor ser Elon Musk, Daniel Vorcaro (nem sempre) ou Travis Scott que ser Marcinho VP ou Charles, Anjo 45.
No outro lado do espelho do estigma criminalizante estão o luxo, o poder, o status social: o necrocapitalismo. A ostentação é moeda corrente dos poderosos, sejam eles trappers, banqueiros, “bandidos” ou ídolos hollywoodianos-globais. “Não adianta tu botar olho gordo em tudo que nós tem/ minha boca tem dente de ouro e diamante também/ tão normal, paparazzi é normal/ flash na cara é normal/ tão normal, fiz 10 milhão só com meu digital”, afirma “Normal”, diluindo o discurso anti-sistema na orgia hipercapitalista. “Muito bom me vestir como eu sempre sonhei/ Kenner no pé, camisa de time/ fui no shopping e nem lembro de quanto eu gastei/ nós tá comprando toda vitrine/ dizem que eu sou cheio de marra/ dizem que perdi minha essência/ que tenho cara de bandido/ que sou uma má influência”, prossegue o narrador, atormentado pela culpa cristã da “perda da essência”, mas firme na diferença crucial entre “sou bandido” e “dizem que tenho cara de bandido”.
Em “Fator Surpresa”, faixa solo de MC Cabelinho, o trapper e ator de novelas da Globo volta ao discurso de seu álbum Não Sou Santo mas Não Sou Bandido (2024), agora substituindo ostentação por auto-reflexão: “Eu perdi minha paz, a minha liberdade, eu perdi meu sono/ e pra próxima fase, e pra próxima etapa, eu me sinto pronto/ te deixei de cara, te deixei fodido, eu te deixo tonto/ te mostrei na prática eu não sou bandido, muito menos santo/ eu sou puro ódio, sou pura marra”. Poderia ser um “bandido”, um pastor evangélico ou um juiz corrupto falando, mas é somente um trapper de sucesso. “Fiz meu nome nas ruas/ os cana hoje em dia nem me para mais/ reconhecido até do outro lado do mundo/ e a Globo sabe a audiência que o pai traz”, Cabelinho tripudia dos algozes, alguns dos quais também são seus empregadores.
“Elenco Fabuloso” traz a participação do rapper-trapper carioca antecessor Filipe Ret, de 40 anos, e traz discurso curioso. “Mó marrão de bandido, falando pra nós que é do crime/ só que quem é do crime não abre a boca pra falar que é”, inicia, dando de bandeira que “quem é do crime não abre a boca pra falar que é”, regra banal que também caberia com folga nos ternos de capos de big tech, magnatas da comunicação e hipernecrocapitalistas afins. “Elenco Fabuloso” segue fazendo um raio X do narrador, o trapper bem-sucedido, que se crê anti-sistema ao mesmo tempo que goza as maravilhas hipercapitalistas: “Poucos vai ver meu sorriso, tô sempre de cara fechada/ é que o pai tem postura, eles fala que é marra/ (…) acho que você não vê um coração aqui dentro/ minha compaixão já se foi tem muito tempo/ é que essas ruas são tão frias”.
Outro personagem de Palácio de Lona, o “Menor Suicida”, se debate entre o consumo e o despojamento, entre Deus e o diabo: “Se de repentemente a noite virar dia/ nós vai tá preparado, várias tática de guerrilha/ papai do céu cuidando de mim e da minha família/ mas se vim mandado, eu mesmo acabo com a tua vida/ sou menor suicida/ (…) prometo que eu não vou deixar esse mundo sujo me consumir”. O suicida se diz assassino (e vice-versa), enquanto este mundo sujo nos consome.
Estudado em profundidade, o discurso desossado dos traps de MC Cabelinho, TZ da Coronel, Oruam, MC Poze do Rodo etc. dá pistas dos porquês de causar repulsa não só em policiais e outras autoridades constituídas, mas na sociedade “direita” em geral, aquela que treme diante das “glocks” e “calicas” dos trappers, mas se refestela na liberação total das armas preconizada pela extrema-direita, na condescendência frente à escalada feminicida, em estupros e canibalismos. O discurso de Palácio de Lona pode retratar a realidade crua do “outro lado da ponte”, mas pelo espelho reflete com exatidão os comportamentos do “lado de cá”, habitado com violência e voracidade por vorcaros, moros, netanyahus, trumps e outros naros.



