
Há um estranhamento necessário ao sentar na plateia de A Filha Perdida. Para um homem – ainda que politicamente atento -, observar o mergulho de Elena Ferrante nas entranhas da maternidade é como decifrar um código cujas chaves não nos foram dadas. Podemos compreender a ideia, mas falta-nos a vivência. E é justamente desse lugar de observador, um pretenso voyeur da alma feminina, que acompanhamos a montagem que agora reestreia no Teatro Vivo, em São Paulo.
O livro da misteriosa escritora italiana, que assina sob o pseudônimo de Elena Ferrante, virou coqueluche literária e ganhou as telas com Olivia Colman no cinema. Agora reinicia sua jornada nos palcos brasileiros pelas mãos das diretoras Fernanda Castello Branco e Paula Weinfeld. A peça, que já teve uma passagem curta em 2024 pelo Sesc Bom Retiro e pelo Teatro Cacilda Becker, ganha um fôlego novo com a chegada da ex-VJ da MTV Chris Couto (que substitui Maristela Chelala). Aos 65 anos, ela é um rosto midiático que exala uma maturidade genuína para o papel que interpreta: Leda, uma professora universitária, em férias no litoral, que vê sua tranquilidade ruir ao observar uma jovem mãe na praia.
Mas Chris Couto não está sozinha. Ela divide a personagem com Juliana Araújo (idealizadora do projeto), que também interpreta Nina, a jovem mãe invejada por Leda. Em cena, presente e memória se chocam o tempo todo, num constante jogo de espelhamento. As duas atrizes se revezam para mostrar que a protagonista de hoje é assombrada pela sua versão do passado, a mesma que deixou, por três anos, as filhas pequenas para trás em busca de uma identidade própria.
É tentador, senão mesquinho (sobretudo para um homem), cair na armadilha de julgar Leda como egoísta. Mas a obra de Ferrante nos empurra para bem longe de uma moralidade pronta. No palco, o inexplicável roubo de uma boneca – que desencadeará a trama – não parece um erro moral, mas um grito de uma mãe que pede socorro. A peça mostra, como uma honestidade que incomoda, que o amor (materno) não purifica ninguém. Pelo contrário, ele nos deixa expostos e, às vezes, nos torna cruéis. Não nos será oferecido o consolo de uma “mãe heroína”, nem o alívio de uma “mãe vilã”. Leda não é nada disso.
Para nós, homens, a ideia de “ir embora” do cuidado dos filhos costuma ser tratada culturalmente como uma escolha ordinária, esperada, quase um privilégio de distanciamento – e isso já é refletido no tempo da licença-maternidade maior para as mulheres e ínfimo para os pais. Sejamos sinceros, é fácil falar sem o peso histórico da obrigação biológica e social que a maternidade impõe, majoritamente, apenas ao sexo feminino. Para quem pariu e luta para fazer os filhos crescerem, o abandono é um visto como um crime contra a natureza (da espécie humana). Mas ao ver Chris Couto/Juliana Araújo em cena, entendemos que a fuga de Leda foi um gesto de autopreservação.
A Filha Perdida no teatro, primeira adaptação para os palcos brasileiros de uma obra de Elena Ferrante, evita o excesso de falas e aposta no impacto das imagens e dos sentidos. A ambientação ajuda a criar esse clima. Enquanto imagens do mar são projetadas no fundo do palco, o ator Alex Huszar cuida dos papéis masculinos e da trilha sonora executada ao vivo. O som não é apenas acompanhamento, mas mimetiza o sistema nervoso da peça – por trás da praia paradisíaca, existe uma correnteza de ressentimento e culpa que ameaça afogar a protagonista em seu drama existencial.
O estranhamento se expande ao saírmos do teatro com a incômoda lucidez de que a liberdade – especialmente a das mulheres – quase nunca se exerce sem que alguém, em algum lugar, saia ferido. A liberdade feminina não aparece como uma conquista radiante, mas como uma fratura sombria. A montagem de A Filha Perdida traz o desconforto de olhar para o que preferimos ignorar. Em particular para os homens, devemos reconhecer que existem dores e desejos que não nos pertencem, mas que, por isso mesmo, nos cobra no mínimo um olhar empático. É teatro para sair com mais perguntas do que respostas.




