“Frank Sinatra está resfriado” é talvez o mais conhecido artigo do jornalismo cultural no mundo em todos os tempos. O americano Gay Talese escreveu-o em abril de 1966 para a revista Esquire. Um dos papas do new journalism, o autor fez escola. Anos depois o então estagiário do Jornal do Brasil, Maurício Kubrusly, escreveria “Brigitte Bardot está menstruada”, quando de uma visita da atriz recém-falecida ao Brasil. Em comum em ambos os textos, além dos toques de gênio, a sagacidade de os autores terem escrito sem ouvir seus protagonistas.
É o que faz Bruno Azevêdo em “Minha mãe: Djavan e Dona Virgínia em cinco canções de amor” (Editora Noir, 2025, 106 p). Não por falta de vontade e o livro abre com a cena em que o autor, ao pé do palco em que o cantor e compositor alagoano se apresentava em São Luís, entregou-lhe um bilhete, recolhido pelo artista, manifestando a intenção de entrevistá-lo sobre que pauta. Nunca que teve resposta, como não teria também de sua entourage em outras ocasiões.
Bruno Azevêdo não é jornalista mas tem o fino faro dos melhores do ramo. Seu método obsessivo-compulsivo de pesquisa levou-o, diante das negativas de Djavan e assessoria, a mergulhar “em mais de 800 matérias, entrevistas, resenhas, releases e toda sorte de documento público sobre Djavan ao longo de sua carreira”, e sem falsa modéstia: “se a imprensa deu, eu provavelmente achei”, o que inclui jornais da gringa.
A premissa do escritor, historiador e professor é, como antecipa o subtítulo, o fato de o discreto Djavan ter tomado a mãe como eu-lírico em ao menos cinco músicas de sua vasta discografia, tudo isto motivado por um fato sui generis: em 1984, ano de lançamento do álbum que a toma por título, o garoto Bruno, então com quatro anos de idade, ouviu “Lilás” na vizinhança e esta é sua memória mais antiga.
A prosa de Bruno Azevêdo é deliciosa e fluida, com o rigor da pesquisa, o diálogo direto com o leitor, por vezes colocando-se na história (como a cena que abre o livro), revelando bastidores do processo (e até do que ao longo dele abdica), curiosidades da vida do semibiografado, inclusive com o fato de certa crítica preguiçosa considerar Djavan nonsense, apesar de ser, desde sua estreia no mercado fonográfico e até hoje, figurinha fácil em trilhas sonoras de novelas e programações de emissoras de rádio. “As letras de Djavan fazem bastante sentido, mas só se você estiver prestando atenção”, anota o autor — e talvez isto mesmo leve à percepção errônea do suposto hermetismo: o autor de “Oceano”, “Sina”, “Flor de lis”, “Fato consumado” e tantos outros clássicos da música popular brasileira sempre fez tanto sucesso que parece ter sempre estado ali.
“Não há nada de nonsense nesse verso, o que há é a falta de alcance de alguns críticos que nos punem pela sua ignorância”, afirma Djavan sobre o ““zum de besouro um ímã” da letra de “Açaí”, que chegou, pasmem, a batizar um concurso em busca do verso mais nonsense da MPB pela coluna de Arthur Xexéo nO Globo, em 2003. O curioso é que, apesar de intitular o concurso, Djavan não foi lembrado pelos leitores, como era a proposta do certame.
Bruno Azevêdo não se desloca de seu lugar de fã incondicional de Djavan, o que torna seu texto ainda mais honesto (e passional). “Djavan “diz não ser contra biografias não autorizadas. A despeito de ter integrado o grupo Procure Saber,” grupo de medalhões da MPB que lutava pela censura prévia a biografias não autorizadas no Brasil, em 2013”.
Outra curiosidade é que, apesar da citada presença constante em trilhas sonoras de novelas e programações de rádio, Djavan não tivesse ainda uma biografia, o que torna Bruno Azevêdo pioneiro, para além da bela folha de serviços prestados à literatura sobre música no Brasil.
A presença de Djavan no inconsciente coletivo brasileiro é tão grande que, segundo o site Nomes do Brasil, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2010 havia 2.166 pessoas batizadas como o cantor no país. Alguns destes homônimos caíram no mundo do crime e Bruno Azevêdo aproveitou a pesquisa para coletar a presença de Djavan na imprensa fora dos cadernos de cultura: o livro traz o anexo “Vulgo Djavan! A ficha corrida de um nome popular”, com a fina ironia de que o próprio artista, certa vez, foi enfiado num camburão e conduzido a uma delegacia. “Seu crime de origem? Ser um homem preto”, relembra Bruno Azevêdo.
Serviço: “Minha mãe — Djavan e Dona Vírginia em cinco canções de amor” terá noite de autógrafos na próxima quinta-feira (29), às 19h, na Low Música e Vinil (Av. Principal, 15, Cohajap, São Luís/MA, com discotecagem de Jorge Choairy.
O autor Bruno Azevêdo é o entrevistado do Balaio Cultural do próximo sábado (31), com produção e apresentação deste resenhista. O programa vai ao ar ao meio-dia, na Rádio Timbira FM (95,5).




