
Maria nasceu em Natal, no ano de 1984. Três anos depois foi a vez de Antônio, no Crato (CE). Ali pertinho, em Juazeiro do Norte, foi a vez de Francisco. João, o quarto, veio ao mundo não só quando o Brasil viu o primeiro presidente ser deposto do cargo, mas ali mesmo no Distrito Federal. Em 1995, Pedro e Matheus, gêmeos, vieram em seguida, mas novamente em terras cearenses, na capital. Isabel e Luzia, também gêmeas, nasceram em Brasília, em 1998. Juntando o pai, Carlos Gomide (Babau), e a mãe, Schirley França, daria para pensar em montar dois times de futebol de cinco. Mas essa família carregava o DNA da cultura popular. Com o passar dos anos, cada um desses nascimentos se tornou um capítulo na história da criação do grupo Carroça de Mamulengos, um projeto que celebra as tradições e a riqueza cultural do Brasil.
O Centro Cultural Banco do Brasil, dentro de sua proposta de incentivar e promover a ocupação de suas unidades de Brasília, Belo Horizonte, Rio de Janeiro e São Paulo, promove a Mostra Carroça de Mamulengos: Três Gerações de Arte Brincante. Sim, outros capítulos foram sendo escritos com a chegada dos netos Iara (2012), Ana (2013), Helena (2019), Naiá (2020), Liana (2021), Luna e Amari (2023). Na capital paulista, a trupe apresenta três espetáculos, Histórias de Teatro e Circo, Janeiros e O Babauzeiro. A família inteira sobe ao palco ou atua nas coxias, com improviso, descontração e alegria e preciosas lições.

Os cantos e cantigas populares dentro do imaginário brincante revelam um Brasil que existe, mas são sufocados por tantas outras distrações – culturais ou não. A Carroça de Mamulengos faz questão de preservá-los, criá-los, reinventá-los. Outra das tradições populares ameaçadas é a arte dos bonecos, que foi de onde tudo começou. Em 1978, um ano depois de criar com a atriz brasiliense Schirley França, Carlos Gomide foi até Mari, na Paraíba, para receber os primeiros bonecos do artesão e mestre Antônio do Babau. Desde então, é ele quem se incumbiu dessas arte da bonecaria. Os mamulengos são um tipo de fantoche típico do Nordeste, que na maioria das vezes é manipulado por artista que dão voz e movimento aos bonecos. Ao ver as novas gerações empunhando com desenvoltura os fantoches, os bonecões, as burrinhas, dá para acreditar que a preservação dessa arte está garantida.
A família faz questão de contar, em todos os três espetáculos, como essa arte popular está sendo transmitida de geração em geração. Em Histórias de Teatro e Circo (com apresentações finais neste fim de semana do dia 21 a 23), 20 pessoas (avós, filhos, noras e netas) mostram, de forma festiva, como essa trupe há quase cinco décadas constrói, ao mesmo tempo, um espetáculo e uma família. Janeiros, a montagem que será apresentada de 28 de março a 6 de abril, mostra como as criações se modificaram quando os filhos assumem a companhia teatral. E O Babauzeiro (de 11 a 21 de abril), que lembra a origem da Carroça de Mamulengos, fecha a contagiante mostra.
Dica: se o site do CCBB-SP informar que os ingressos estão esgotados, visite o local, porque há assentos vagos que são liberados em cima da hora.
Mostra Carroça de Mamulengos: Três Gerações de Arte Brincante. No CCBB-SP, sextas-feiras (às 19 horas); sábados e domingos (15 e 18 horas), até 21 de abril. Ingressos a 30 reais.