Aos 88 anos, com mais de 60 anos de jornalismo, José Hamilton Ribeiro manteve-se no front da reportagem durante quase toda sua vida. Está agora retirado, vivendo em uma fazenda no interior, mas fez uma rara saída por esses dias para lançar uma versão revisada e aumentada de um livro que é um verdadeiro manual do repórter: O Gosto da Guerra (Companhia das Letras). Trata-se do diário de cobertura que ele produziu quando esteve no Vietnã, em 1968, cobrindo a invasão norte-americana naquele país asiático, um acontecimento que mudou os rumos da História contemporânea. Em 2005, quando ele republicou esse mesmo livro pela Objetiva, eu também escrevi sobre ele num jornal antigo, e iniciei meu artigo da seguinte forma:
Todo jornalista sabe quem é José Hamilton Ribeiro. Nas faculdades de jornalismo, nos papos de botequim, nos cafés das redações; não há um desses recantos onde o nome dele já não tenha sido pronunciado. Ele cobriu a Guerra do Vietnã para a extinta revista Realidade, em 1968, deixando parte de uma perna lá. Nos últimos anos, ele é um dos repórteres que esquadrinham plantações, pastagens e invernadas no Globo Rural, tomando café com peões na estrada do Pantanal ou repartindo um pão com um colono alemão na neblina da paisagem de Santa Catarina. José Hamilton agora está lançando um livro em que se esmera na arte de contar bem uma história - o detalhe é que nessa história ele é um personagem central. O Gosto da Guerra é um diário no qual ele relata aquela sua experiência no conflito, e foi publicado em 1969. Estava esgotado e é reeditado acrescido das impressões do autor no regresso àquele país, 30 anos depois.
O livro de José Hamilton descreve dois tempos da guerra: um antes, no qual estão em confronto duas forças díspares, o cão galgo e o coelho. Ele analisa as motivações de ambos, e tem a impressão de que o coelho tem mais razões para vencer. Um depois, no qual passa a inventariar seus próprios sentimentos enquanto vítima da guerra, e as percepções de quem está na situação mais desfavorável de todas naquela selvageria. Foi assim: no dia 20 de março de 1968, depois de 19 dias na cobertura, durante uma derradeira reportagem, acompanhando uma patrulha das tropas americanas na Estrada Sem Alegria, na província de Quang Tri, perto da divisa entre os antigos Vietnã do Sul e Vietnã do Norte, o repórter brasileiro pisou numa mina terrestre escondida pelos vietcongues. Ele não deveria mais estar ali: já tinha encerrado seu trabalho e iria para Saigon pegar um voo de volta para São Paulo. Mas seu companheiro de reportagens, o fotógrafo japonês Kei Shimamoto, insistiu em buscar uma última foto impactante para a capa da revista. Essa foto acabou sendo a do próprio colega esvaindo-se em sangue no campo de batalha – no mesmo local em que ele pisou na mina, dois soldados da Companhia D já tinham morrido pouco antes e um terceiro perdeu as pernas e os braços.
Zé Hamilton não sonegou nenhum dos seus pensamentos extremos durante a situação que viveu. Alterna revolta, fúria e conformismo, amaldiçoa Shimamoto pela insistência, e tudo isso está registrado em seu livro. “Esse meu pé esquerdo sempre me deu problemas. Quando criança, tive nele uma tuberculose óssea. Não me fará muita falta”. Na verdade, sua sobrevivência não foi definida só por uma amputação bem-sucedida. As minas terrestres fabricadas pelos vietcongues, dado o desequilibrio das forças bélicas envolvidas, eram fabricadas de modo artesanal, com detritos como restos de tijolos, pregos, vidro moído. O que resultava de sua detonação era uma possibilidade infinita de infecções, imprevisibilidade médica, muito provavelmente gangrena.
Mas O Gosto da Guerra é, muito além da narrativa de uma tragédia pessoal, um exercício minucioso de estilo de escrita e comprometimento humanista. Zé Hamilton raramente cede à tentação de dar sua própria opinião sobre o que descreve. Ele deixa que os fatos, por si, vão construindo a visão que o leitor vai completar. Mas isso é uma falácia: ele é tão hábil que faz a gente pensar que não está nos conduzindo, mas está no comando de tudo, não tem essa balela de imparcial. Um jeito por vezes super minimalista de cercar uma história, recolher sua essência numa fala, numas aspas, como dizemos no jornalismo, empurra as consciências para um exame de como as engrenagens se movem, muitas vezes à revelia das vontades, das decisões humanas. Parece vacinado contra os excessos do chamado jornalismo literário, não emula ninguém.
É interessante notar a habilidade de José Hamilton em tocar em assuntos tabus para os proprietários dos grandes veículos de jornalismo (sobre comunismo e ditadura militar, por exemplo, por conta do parti pris), sem que fique panfletário ou confrontativo. A outra habilidade está em tratar de personagens controversos sem se escorar no moralismo – é o caso, por exemplo, do perfil que ele traça da apresentadora Hebe Camargo (1929-2012), da qual ele esboça a dimensão humana sem ser “chapa-branca” – registra precisamente a comenda que Hebe recebe pelos serviços de comunicação prestados ao governo do ditador Artur da Costa e Silva (1899-1969).
SERVIÇO
O Gosto da Guerra – E outras reportagens da revista Realidade (Edição revista e ampliada). De José Hamilton Ribeiro. Companhia das Letras, R$ 99,99.