Nesse tempo em que o conceito de família se alarga, abrigando novas formas de amor e até de autossuficiência, quais serão os dramas e os desafios que uma família homoafetiva encara? Terão as mesmas necessidades ou elas serão novas? Haverá também o tédio e a repetição em todas? A verdade é que a resposta é simples, a vida é igual para todos, mas a espantosa HQ Nectarina (Le gôut de la nectarina), da cartunista transgênero australiana Lee Lai, lançamento da Veneta Editora (tradução de Ludimila Hashimoto), mostra que a forma de encontrar cada rumo é que é diferente. A história parte do questionamento mais básico de um casal, a dupla lésbica Bron e Ray, para promover a reconciliação com a verdade.

Mulheres maduras, de franco domínio intelectual do mundo, Bron e Ray têm eventualmente a companhia da pequena Nessie, sobrinha de Ray, que levam para passear enquanto a irmã de Ray, Amanda – que é uma mãe sozinha – busca ganhar a vida. Nesses passeios, a arte de Lee Lai promove um híbrido entre fantasia e realidade para demonstrar que é a imaginação da criança que serve como guia daquele encontro. Mas, quando sai dessa aventura, o casal queer sente que vive em torno de algumas questões não resolvidas ou interrompidas. Há mais melancolia e insegurança quando estão frente a frente com as fundações de seu relacionamento – e isso tem a ver com coisas deixadas para trás. Há dois mundos em choque, mas sem a reconciliação entre eles, ficará um vazio difícil de ser preenchido.

Lee Lai, de 29 anos é quadrinista desde a adolescência e aborda as questões de gênero em sua obra, primordialmente. Ganhou dois prêmios Ignatz, um Stonewall Award, da American Library Association (ALA) e o Cartoonist Studio Prize com essa história. Publica com frequência em Room Magazine, Lifted Brow, Everyday Feminism e The New Yorker, entre outros. Filha de um pai de Hong Kong e uma mãe australiana, a artista se projeta com um trabalho que tem influência de Cathy J. Johnson, principalmente.

O desenho de Nectarina, em preto & branco, é muito limpo e desopilado, com ênfase em gestos e expressões – e, por isso mesmo, notavelmente complexo. O protagonismo feminino é ampliado para além do conceito de felicidade – o que uma menina e uma adolescente terão a ensinar a duas mulheres que se julgam absolutamente livres, que já ultrapassaram a fase do caroço da nectarina? Muitas coisas contribuem para nos manter em equilíbrio num relacionamento, no embate com a fera da rotina e do cotidiano. Mas as coisas que contribuem para nos desequilibrar também são numerosas e algumas delas invisíveis. Essa não é uma história em quadrinhos do tempo dos confrontos, mas que enxerga o que virá depois deles.

 

NECTARINA – De Lee Lai (Tradução de Ludimila Hashimoto). Veneta Editora, 240 páginas, 85 reais

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