Mario Frias, então secretário de Cultura de Jair Bolsonaro, com dois dos destinatários dos recursos de Daniel Vorcaro (à esquerda, André Porciúncula, que sucedeu Frias na secretaria, sócio de Eduardo Bolsonaro, de avental, dono do fundo a quem o dinheiro foi enviado)

Após mais de um ano de decisões monocráticas, a Secretaria de Fomento e Incentivo à Cultura (Sefic) da Secretaria Especial de Cultura do governo Federal recontratou emergencialmente nesta terça-feira, dispensando licitação ou edital, 239 pessoas físicas para comporem o banco de pareceristas do Programa Nacional de Apoio à Cultura (Pronac), o sistema da Lei Rouanet. O governo despendeu R$ 2,3 milhões na contratação dos pareceristas.

A contratação em massa repõe parte das demissões de credenciados que estão ocorrendo desde que o ex-PM negacionista André Porciúncula assumiu a Sefic, trazido para o governo por sua militância no bolsonarismo da Bahia. Porciúncula tem decidido sozinho quais projetos apoiar e quais recusar (e quais fustigar nas prestações de contas, usando critérios ideológicos, religiosos e de alinhamento com o governo). Mas o Tribunal de Contas da União (TCU) e a Justiça foram acionados para que o governo cumprisse o que determina a Lei 8.666/1993 sobre as instâncias deliberativas do incentivo cultural.

O próprio Ministério do Turismo (a quem a Cultura é subordinada) definiu em portaria que uma das regras para avaliação de desempenho seria a ativação da Comissão Nacional de Incentivo à Cultura (CNIC), outra instância deliberativa da Lei Rouanet. A CNIC também tinha sido desarticulada pela atual gestão da cultura, que atua como um tipo de fantoche de um dos filhos do presidente, o deputado federal Eduardo Bolsonaro – há 5 dias, Eduardo Bolsonaro levou à live do presidente, como se fosse um bibelô, o secretário Especial de Cultura, Mario Frias, para falar da área de cultura.

O resultado foi um Febeapá memorável (como o cronista Sérgio Porto chamava um amontoado de baboseiras). Frias enumerou como façanhas de sua gestão a proibição do passaporte de vacinação para o acesso a eventos financiados pela Lei Rouanet, a proibição do uso da linguagem neutra na apresentação de projetos e disse que não se pode criar “nenhum tipo de segregação, nem por cor, nem por clero (sic)”, na gestão da cultura. Em uma análise objetiva, o resultado dessa política é que o incentivo cultural caiu a um terço do ano passado até este mês de novembro.

A ação antirrepublicana desse grupo seria apenas bizarra, não fosse trágica – e ocupasse tanto o tempo das autoridades e, consequentemente, o dinheiro público. “Pouca gente sabe, mas ontem contabilizei 78 processos abertos contra mim. São investigações criminais, ações de improbidade, mandados de segurança, ação civil pública, ADPF e todo tipo de procedimento judicial. Nem o criminoso mais corrupto já teve tal pressão jurídica sobre ele”, escreveu André Porciúncula no Twitter. Extremistas como ele estão em posições-chave da cultura federal num aparente esforço de atuar como para-raios de uma ação intimidatória, revanchista e censora do Estado, atraindo para si todos os processos judiciais (em uma aparente estratégia de poupar o verdadeiro responsável).

 

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