O jornalista, escritor, crítico e pesquisador paranaense Pedro Alexandre Sanches

Um livro sobre discos pode consistir, por si só, em um exercício de exclusões. Primeiro, porque quase não há mais discos em circulação para abrir o leque do debate, eles já se converteram hoje em artefatos de interesse arqueológico. Segundo, porque toda seleção fundada no arbítrio é forçosamente um exemplar da famosa síndrome das listas (que acomete com frequência a crítica de música, e geralmente em tempos de entressafra).

Mas é evidente que um livro sobre discos de um crítico do quilate de Pedro Alexandre Sanches não é algo que se limite às duas opções acima, embora abranja ambas – tanto a cristalização e a desaparição dos discos físicos quanto o vaticínio das listas. Pedro Alexandre, que já tem quase 30 anos de exercício cotidiano do território musical, não trabalha numas de vampirização da história da música, mas sim de seu acionamento, sua transfusão de sangue em movimento. Ele sabe, por experiência diária, o tanto de Elza Soares que está contido na música de Linn da Quebrada e o quanto de Jair Rodrigues alicerça a nova música de Emicida, por exemplo.

Álbum 1 – 1950 a 1972 – Saudade, Bossa Nova e as Revoluções dos Anos 1960 (que aqui chamaremos apenas de Álbum 1) examina, como raros trabalhos de análise musical publicados nos últimos anos, conceitos como legado, continuidade, influência, invenção, originalidade, singularidade histórica. De 1950, com um disco de Aracy de Almeida, a 1972, com um de Wanderléa (… Maravilhosa), Álbum 1 reúne um inventário admirável de quase tudo de relevante na MPB que foi registrado no artefato musical mais influente do século passado, o LP. Vai além: analisa o impacto cultural dos conteúdos que o formato armazenou em seu longevo reinado.

Álbum 1 é o primeiro volume de uma quadrilogia. Como um escavador de joias raras, Pedro apresenta no livro inaugural, para a grande maioria dos leitores, discos e personagens que não serão lembrados jamais em listas convencionais, como a quase desconhecida cantora Leny Eversong (1920-1984) ou o breve suingado de Noriel Vilela (1936-1975), “elo perdido entre a ancestralidade de João da Baiana e a modernidade pós-pilantragem”.

Pedro escreve sem medo de estabelecer julgamentos de valor peremptórios e definitivos.  Se é possível relativizar por covardia, também é possível dessacralizar por honestidade, atesta o autor. “O ‘príncipe de vozeirinho’ Roberto Silva é, nesse respeito, um rodrigueano reacionário”, escreveu Pedro, sobre o disco Descendo o Morro, do sambista Roberto Silva, de 1958. É também, por exemplo, o caso de Chega de Saudade, o abre-alas de João Gilberto, que o escritor assinala se tratar tanto “de uma revolução” quanto de “uma louvação higienizadora do velho samba”.

Os artistas não estão num Olimpo inalcançável, blindados pela deificação da idolatria. O autor não deixa de apontar o dilema inaugural de Elza Soares (“embranquecer por um lado, permanecer confinada à africanidade por outro”), que perseguirá a diva e “dez entre dez cantoras negras” no futuro. Nem de enxergar a elasticidade da fronteira do gaúcho Teixeirinha (“o apego à desgraça não cancela o lado luminoso do nativista, que vai aonde o conterrâneo fronteiriço, de Santana do Livramento, quase Uruguai, Nelson Gonçalves (1919-1998) não chegou e celebra o amor-próprio e à sua terra natal em sanfona, chimarrão, bombachas…”).

As estreias frustrantes de Roberto Carlos e Elis Regina merecem um aparte, encorpado pela capacidade de ir e vir em um “overlaping” histórico que poucos articulistas terão conseguido igualar em livros de historiografia musical: “Ignorantes do que significará adiante o ato de gravar um LP, os iniciantes Roberto e Elis estreiam no formato em pique de salada de ritmos, pouca substância e pouca coerência musical”.

Mas qual era exatamente o significado do ato de gravar um LP, que o autor considera tão importante?

Ao examinar, por exemplo, como Nara Leão “move-se simultaneamente nos fronts machista, racista, religioso, trabalhista e classista”, Pedro revela que tem o propósito fundamental de distinguir as obras que driblaram as falácias da neutralidade, da indiferença social ou da autonegação. Evidentemente, o sentido da invenção é aquele ao que ele dá mais relevo. “A síntese da invenção se chama Jorge Ben (1945-), um excêntrico em relação a quaisquer vertentes musicais existentes à época”, determinou.

Fora da genialidade não há perdão. Mesmo o quase corpo mole da intelectualidade nacional não lhe passa despercebido. “Racismo não é um termo em voga no Brasil de 1965, mas os dramaturgos Augusto Boal e Gianfrancesco Guarnieri deixam mais ou menos evidente, em termos que nem sempre são os mais adequados, que é disso que se trata”, escreve, sobre Arena conta Zumbi (1965), de Edu Lobo.

Sobre Inezita Barroso e o disco Vamos Falar de Brasil (1958), Pedro escreveu: “Mais que pesquisadora das raízes profundas, fez-se uma cantora caipira. Honrou São Paulo como estado, não como capital, e Vamos falar de Brasil é um dos exemplos completos de como se pode olhar para fora sem deixar de olhar para dentro – de si mesma, de seu próprio bairro, de sua própria cidade, de seu próprio país”.

Ao analisar a contribuição de Sérgio Ricardo (no disco Deus e o Diabo na Terra do Sol, de 1964), ele anota que “a cultura se congrega no pré e no pós-golpe de Estado, o que resulta em intenso intercâmbio entre a música, o cinema, o teatro, as artes plásticas e, dentro de pouco tempo, a televisão (no advento da era dos festivais)”.

Mas, mesmo nessa tarefa autoimposta de oferecer uma leitura do Brasil por meio da sua música e seus artistas (e, destes, suas escolhas e suas hesitações), Pedro consegue pular as poças do moralismo com grande agilidade. Tudo parece confluir para uma explicação compacta e generosa da identidade nacional, como se fosse um tratado antropológico camuflado. Há diversos momentos do texto do autor em que isso se apresenta, como quando decifra o “Trem das Onze” de Adoniran (via Demônios da Garoa) como uma gangorra “entre o trabalho e a vagabundagem, o dever e o amor, a responsabilidade e a irresponsabilidade, a namorada e a mãe”.

A exegese que o jornalista e escritor faz em Álbum 1 é uma travessia. O subúrbio da grande metrópole, os rincões do Brasil sertanejo (no elogio da mestiçagem em Tião Carreiro e Pardinho), o “balanço preciso entre a africanidade e o componente nordestino no DNA de Moacir Santos”: ele passeia pelo enorme acervo de discos escolhidos a partir do exame do contexto histórico ou das ansiedades coletivas (“o amor, em vez da tristeza, quer estar no ar”).

Herdeiro moderno daquele crítico de música que desvendava o mundo por meio de seus ouvidos, sentidos e integridade, Pedro é talvez o único jornalista de música em atividade no país cujo tabalho possa ser equiparado ao que Lúcio Rangel (1914-1979) e José Ramos Tinhorão (1928-2021) representaram em passado recente. Sua visão não é episódica, é compacta e uniforme, uma pintura que não pode ser vista senão em sua integralidade. “A um só tempo africanas, americanas e europeias, as musicalidades de Baden e de Rosinha chegam para afirmar um lugar na música brasileira, a de músicos espontâneos que têm no violão de raiz portuguesa a ferramenta musical primordial, mas o utilizam para preservar e afirmar a liberdade de voo solto, como só os indígenas latino-americanos saberiam ensinar”.

O livro traz também muito forte (embora camuflado, como uma espécie de estratégia ou quase constrangimento) o componente da reportagem, do jornalismo puro e simples. “Após fazer uma releitura completa d’Os afro-sambas (em 1990) e após 34 anos do álbum original, em seus últimos dias de vida, Baden (Powell) revelará em entrevista a este autor que, evangélico, cancelou de sua música quaisquer referências a saravás e a outros chamados afro-religiosos. Aqui se encerram, portanto, testemunhos atemporais de louvor ao bem e ao mal segundo os preceitos sincréticos do candomblé afro-baiano”.

Mas também recorre a vários artifícios retóricos ilustrados, como a inclusão do desconhecido duo de iê-iê-iê Deny e Dino (este enfiado no lote mais pela desconhecida proeza de ter sido “sampleado” por Caetano Veloso na abertura de “Alegria Alegria” e por ter se prestado ao propagandismo desabrido do regime militar) e do disco Pilantrália (1968), a resposta de Carlos Imperial aos tropicalistas que deu chabu por não possuir a consistência de um disco-manifesto.

Os cafonas Waldick Soriano e Reginaldo Rossi, nesse sentido, comparecem não apenas “por expor as vísceras de um preconceito secular, herdeiro da escravização de seres humanos”, mas também para referendar uma recorrente animosidade do autor para com os confortos dos bem-sucedidos da MPB (“’Eu não sou cachorro não’, num discurso que pode se dirigir à amada, mas também à elite da MPB, que se estabelece em torno de Chico Buarque”).

Evidentemente, é possível divergir de Pedro em diversas sentenças, como no afobado atestado de obsolescência do primeiro disco conceitual do rock brasileiro, “Sociedade da Grã Ordem Kavernista” (1971).

Escolher entre milhares de discos pressupõe deixar muitos de lado. Mas Álbum 1 revela uma possibilidade ainda maior: o acolhimento. Assim, fisga do quase esquecimento (entre diversos outros) a singularidade da cantora Evinha, que não viu sua arte ecoar e no final voou para a França; e revela as inesperadas retomadas, como a revalidação de Claudette Soares pelo DJ Marky. Sua contribuição é de alargamento da compreensão. Sua publicação tem um valor inestimável.

Álbum 1 – 1950 a 1972 – Saudade, Bossa Nova e as Revoluções dos Anos 1960. De Pedro Alexandre Sanches. Edições Sesc, 567 págs., 13 a 15 reais.

Pedro Alexandre Sanches, "Álbum 1 - Saudade, Bossa Nova e as Revoluções dos Anos 1960" (2021)

 

 

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