Em janeiro de 2021, entrevistei pela última vez o produtor musical João Carlos Botezzeli, o Pelão, morto no dia 1º de setembro, aos 78 anos. A revista CartaCapital não chegou a publicar em versão virtual (só no velho e surrado formato em papel) a entrevista ou a reportagem que dela resultou, mas eis aqui, em anotações telegráficas feitas na entrevista, um compilado-homenagem ao cara que valorizou artistas que ninguém mais valorizava – entre eles, Donga, Cartola, Nelson Cavaquinho, Carlos Cachaça, Guilherme de Brito, Adoniran Barbosa, Inezita BarrosoNelson SargentoRaul de Barros, Raphael Rabello etc. etc. etc. – no sistemão midiático-fonográfico brasileiro. Mais embaixo, publico uma versão inicial do texto que sairia na revista por ocasião do lançamento do livro Pelão – A Revolução pela Música, escrito por Celso de Campos Jr. Grande Pelão.

A vida de Pelão

“Eu gosto, não posso falar contra a minha vida. É bem a minha vida, na parte de disco, mas a minha vida não teve só a parte de disco. É uma porrada de coisa. Vamos contar só dos discos, só da MPB, e eu sempre tive uma boa posição a respeito.”

Sobre o biógrafo Celso de Campos Jr.

“Eu tinha gostado muito do livro sobre Adoniran. Gostei muito do que ele escreveu.”

O aprendizado com o maestro Simonetti

“Naquela época Simonetti era tudo. Eu cheguei a trabalhar com ele. Ia na casa dele, viajava com ele. Segundo Simonetti, eu era sócio honorário da orquestra. Vi desde o primeiro dia a orquestra se apresentar. Eu adoro dançar com uma boa orquestra. Fabulosa. Eu gostava muito do som do tipo da música que ele fazia. Mas fui mais influenciado pelo Martins, o dono de uma pizzaria na Vila Mariana, do que pelo Simonetti, eu acho. O Martins curtia a música popular brasileira, os autores brasileiros. Escutava no programa do Moraes Sarmento.”

O paulista interiorano, a escola de agricultura de Pirassununga e a cultura caipira

“Fui descobrir por que o homem do campo, caipira, podia andar com o pé no chão e nós não. Nós não, porque doía o nosso pé. Eu gosto muito de música caipira.”

Por que o samba?

“Foi o que eu estive mais próximo, o que me deu uma chance, o que me ensinou mais. Fui buscar, subia morro, descia morro. Dormi na casa do Padeirinho lá no Pendura Saia várias vezes, em frente pra fogueira. ‘Por que, você tem medo de descer à noite?’, ele perguntava. Eu falava que não, mas tinha um pouco de medo de descer à noite. O Morro da Mangueira não é mole, nem naquela época. Fui no Buraco Quente, na Barbearia do Pará. Mas eu não fazia a barba, batia papo com ele e tomava umas três cervejas.”

A covid de Gordinho do Surdo

Gordinho do Surdo ia tocar surdo no meu enterro, acho que eu vou tocar no dele. Não sei por que eu falei isso, desculpa. Estão com covid ele e o Roberto Corrêa, aquele violeiro de Brasília.”

No estúdio com as escolas de samba

“Na segunda-feira às nove horas da manhã nós entramos no estúdio, um horário horrível, pra cantar então… Sambista está tudo de ressaca. No primeiro dia quase acabei o disco da Mangueira. Eu sou fodido. Em uma semana eu estava com os quatro LPs prontos: Mangueira, Salgueiro, Portela e Império Serrano. No Império me orientei muito pela Dona Ivone Lara. Ninguém gostava do Mano Décio da Viola, mas ninguém falava. Tinha aquele negócio de ele botar o nome dele como parceiro em música. Ficou um disco que ninguém tem, que vai fazer muita falta. Quando se for escrever a história das escolas de samba, está ali.”

A série histórica de música brasileira do selo Marcus Pereira

“Só fiz os volumes do Centro-Oeste e do Sudeste. Fiz com (o produtor musical e jornalista pernambucanoAluízio Falcão e Théo de Barros (parceiro de Geraldo Vandré em “Disparada”, de 1966). Foi Théo que me indicou. Então foi fácil. Lá do Sul oAluízio Falcão já tinha falado de um conjunto que tinha lá, agora esqueci o nome, eram como os Mutantes aqui de São Paulo. Isso não tem que ver nada com gaúcho. Eu já não ia querer, mas saí antes, graças a Deus, embora eu conheça muito o Rio Grande do Sul, é um estado de que eu gosto muito.”

No estúdio com Carlos Cachaça e Raul de Barros

“Foi muita palhaçada. Foi difícil. No disco do Carlos Cachaça ele estava no estúdio, colocaram o fone no Carlos. Falei ‘Carlos’, ele deu um tapa na orelha, me procurou em volta dele. É antológico. E o Raul de Barros, que caiu a vara do microfone dele, ficou dando piti. O Raul ficou puto comigo, ‘aonde o Pelão vai buscar essas merdas, pô?’. As merdas era ele. Depois gravei um LP só dele. Também gosto muito. Sou brasileiro.”

No estúdio com Cartola

“Cartola fez direitinho. Eu conversava antes com ele pra preparar um pouco, mas muito de leve assim. Ele chegava no estúdio, fazia e ainda perguntava: ‘Saiu bom?’.  ‘Saiu ótimo, um Orlando Silva“, eu falava, para mim o maior cantor do mundo.”

No estúdio com Adoniran Barbosa

“Adoniran me enchia o saco, ele queria gravar. ‘Vamos gravar dia 30?’ Ele já me ligava no dia seguinte perguntando. Miranda (?) acompanhou ele em ‘Bom Dia, Tristeza’, ia saindo, a polícia prendeu ele por causa de alimentício. Adoniran falava: ‘Não faz isso com ele, ele está morrendo de fome, por isso está gravando’. Mas foi.”

No estúdio com Raphael Rabello

“Eu não gosto muito de estúdio, enche o saco. Você tem que ficar de olho no técnico, pelo gosto dele. Eu não gosto que técnico dê palpite. Já cheguei a quase dar porrada em técnico. No disco do Raphael Rabello, ficamos eu e ele no estúdio. Quer coisa melhor do que isso? Ter que dar a palavra a técnico me enchia o saco. Pode até estragar o som. É a vida da gente.”

Em casa dos sambistas

“Eu ia antes na casa deles, levava quatro dúzias de cerveja, chamava os amigos deles, pra ficar conhecendo o repertório melhor. Aí ficava pronto, era só escolher. Isso foi muito bom. Não estava a fim de explorar os caras. Só tinham que me mostrar como eles eram e qual era o som daquela época. Não queria tão moderninho.”

Nelson Sargento

“Todos falavam do Cartola: ‘Pô, você fez o Cartola…’. Nelson Sargento foi um que chegou falando: ‘Só quero fazer com você o disco’. Eu fiz, mas não deu, não. Porque não depende só de mim. Depende de uma época, do clima, do ambiente, uma porrada de coisa.”

No estúdio sem os Pholhas

“A RCA falou que tinha os Pholhas. (Interrompe a história sobre o grupo pop dos anos 1970.) Estou parando de contar essas histórias, porque eu esculhambo os caras. Não ando falando mais mal dos outros. Não sou aquele briguento que eu era. Mas não amansei, não. Continuo o mesmo cara de sempre.”

História

“A minha história não é tão ruim, né?”

Samba versus música caipira

“Eu acho que tudo é a mesma coisa. O valor que estou dando é ao artista que durou fazendo o mesmo som daquela época lá atrás. Com a Inezita Barroso dava pra eu apresentar bem o (violeiro mais jovem) Roberto Corrêa.” A gente gosta da música caipira autêntica, não essas porras aí de sertanejo universitário, essas porras.”

Candidatura a vereador

“Falei com político, depois descobri que podia fazer a revolução através da música. Era o povo cantando na rua. Precisava dar voz ao povo. Eles tinham que cantar as coisas deles. Foi por isso que eu larguei a política. E acho que fiz muito bem.”

Jair Bolsonaro

“Ele vai se vestir de palhaço, eu não quero ver isso.”

Pelão, de Cartola a Inezita, de Donga a Raphael Rabello

João Carlos Botezzeli, mais conhecido como Pelão, é muito pouco conhecido fora dos meios musicais, mas acumula serviços monumentais prestados à música brasileira. Como produtor, foi o responsável pela chegada ao disco de ninguém menos que Cartola, Adoniran Barbosa, Carlos Cachaça, Guilherme de Brito e Nelson Sargento. Aos 78 anos, ele sai dos bastidores para ser decifrado no livro Pelão – A Revolução pela Música, escrito pelo jornalista paulistano Celso de Campos Jr.

“Pelão viabilizou muitos artistas que hoje fazem parte do panteão da cultura brasileira, mais até do que da música”, opina o biógrafo, que conquistou a simpatia do futuro biografado ao entrevistá-lo para o livro Adoniran – Uma Biografia (2004). “Sem o trabalho dele a minha geração não teria conhecido, é possível, a voz do Cartola, do Adoniran. Talvez fossem só compositores, e a gente conhecesse a música deles cantada por grandes intérpretes, mas eles mesmos a gente não conhecesse.”

Embora tenha conquistado um lugar na história da música nacional devido à sua ligação com os sambistas cariocas, Pelão é paulista interiorano, de São José do Rio Preto, transferido ainda bebê para São Paulo. A ponte entre as duas pontas ele estabeleceu já em 1974, quando, aos 32 anos, promoveu as estreias discográficas do paulista Adoniran Barbosa, então com 64 anos, e do carioca Cartola, que tinha 66 anos. “No disco do Carlos Cachaça, ele estava no estúdio, e colocaram o fone de ouvido no Carlos. Falei ‘Carlos’, ele deu um tapa na orelha, me procurou em volta dele. É antológico”, lembra o produtor, para ilustrar o modo como os inexperientes veteranos chegavam ao estúdio de gravação. 

Depois de passar pela Escola Prática de Agricultura de Pirassununga e tentar uma malsucedida candidatura a vereador paulistano, Pelão começou a trilhar caminhos musicais influenciado pelo maestro italiano radicado paulistano Enrico Simonetti, com quem frequentou bailes no fervor dos anos 1960. “Naquela época, Simonetti era tudo. Eu cheguei a trabalhar com ele. Ia na casa dele, viajava com ele. Segundo ele, eu era sócio honorário da orquestra. Vi desde o primeiro dia a orquestra se apresentar”, lembra. O programa Simonetti Show, na TV Excelsior, marcou a estreia de Pelão como produtor televisivo.

Em 1972, Pelão saiu da TV e migrou para a gravadora multinacional RCA, onde colecionou dissabores. Entusiasmado com os Secos & Molhados, tentou contratá-los em 1973, mas foi barrado pelo diretor da gravadora (o grupo de Ney Matogrosso estouraria no mesmo ano, pela Continental). Veio o primeiro trabalho como produtor discográfico, mas pela Odeon: ainda em 1973, Pelão produziu o terceiro LP de Nelson Cavaquinho, segundo ele o primeiro a documentar e sublinhar a forte relação do sambista carioca com o violão, com versões autorais íntimas para “Juízo Final, “A Flor e o Espinho” e “Folhas Secas”. Tal trabalho abriu caminho para que Pelão lançasse Adoniran Barbosa, ainda pela Odeon. Só então o compositor registrou em voz própria sambas caipiras históricos como “Saudosa Maloca”, “Trem das 11” e “As Mariposas. “Adoniran me enchia o saco, queria gravar. Combinávamos gravar dia 30, ele já me ligava no dia seguinte pedindo”, conta.

Por Cartola, Pelão perambulou pelas gravadoras e ouviu do diretor da Philips (Manoel Barenbein, que fora produtor dos tropicalistas) a frase “você está achando que aqui é um asilo?”, segundo revela a biografia. “Estou parando de contar essas histórias, porque eu esculhambo os caras. Não ando falando mais mal dos outros. Não sou aquele briguento que eu era”, desconversa Pelão, dono de notória fama de irascível.

Cartola foi conseguir gravar na independente Marcus Pereira Discos, em dois LPs que agrupam “Acontece”, “O Sol Nascerá”, “Alvorada” (1974), “O Mundo É um Moinho” e “As Rosas Não Falam” (1976). O produtor recorda: “Cartola fez direitinho. Eu conversava antes com ele para preparar um pouco, mas muito de leve. Ele chegava no estúdio, fazia e ainda perguntava: ‘Saiu bom?’. ‘Saiu ótimo, um Orlando Silva‘, eu falava, para mim o maior cantor do mundo”.

Aquela que seria a estreia mais bombástica, de Donga, acabou incompleta devido à morte daquele inventor do samba, que, aos 84 anos, residia no Retiro dos Artistas. A Música de Donga (1974) saiu pela Marcus Pereira, com vozes primordiais como as de Elizeth Cardoso e Almirante. A mesma gravadora colocou nas mãos de Pelão o projeto de quatro LPs Música Popular do Centro-Oeste/Sudeste (1974), em que o produtor somou as vozes de Nara Leão, Clementina de Jesus, Dona Ivone Lara (mais uma estreante tardia) e Renato Teixeira, além de grupos de jongo e duplas caipiras. Pelão consolidava aí a ponte entre o samba litorâneo e a canção caipira interiorana, para ele faces da mesma moeda. 

“Eu não gosto muito de estúdio, enche o saco. Não gosto que técnico dê palpite, já cheguei a quase dar porrada em técnico”, afirma o homem que naqueles anos gravou as estreias do jovem Carlinhos Vergueiro (1975) e do veterano de 73 anos Carlos Cachaça (1976), uma coleção sobre a história do samba-enredo (1975), uma “cantata umbandística” do maestro Radamés Gnattali (1977), a antológica trilha sonora do Sítio do Picapau Amarelo (1977) e mais as estreias de Nelson Sargento (1979), aos 55 anos, e Guilherme de Brito (1980), aos 58, entre muitos outros. A experiência com o Sítio aproximou-o da Rede Globo, que o contratou como diretor musical do Fantástico por dez anos e deixou-o mais distante dos estúdios de gravação. 

Em 1994, Pelão inverteu a praxe que o consagrou e produziu um álbum do jovem Raphael Rabello, então com 32 anos. Relendo Dilermando Reis seria o último disco lançado em vida pelo violonista, morto em 1995. Em 1996, o produtor voltou uma vez mais à raiz caipira e gravou dois CDs da cantora Inezita Barroso com o violeiro (e acadêmico) Roberto Corrêa. Esse último também foi descoberta de Pelão, que produziu Viola Caipira (1988) quando o violeiro tinha 31 anos. 

À política, Pelão nunca mais voltou: “Descobri que podia fazer a revolução através da música. Foi por isso que eu larguei política. E acho que fiz muito bem”. O biógrafo Campos Jr. condensa a importância do produtor para nossa cultura: “Ele me apresenta gente de que eu jamais tinha ouvido falar, ‘escuta esse cara aqui’, gente que não teve repercussão. Hoje é fácil falar que o Cartola é bom”.

 

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