Beco do Rosário. Capa. Reprodução

Ao analisar modernização de Porto Alegre em 1920, HQ de Ana Luiza Koehler aponta paralelos com o Brasil de 2020

O recém-lançado segundo volume de “Beco do Rosário” [Veneta, 2020, 112 p.; R$ 39,90], HQ de Ana Luiza Koehler, une em si delicadeza e brutalidade, a um só tempo. Delicadeza no traço da autora, arquiteta e urbanista de formação, entre o bico de pena e a aquarela; brutalidade no despejo forçado de famílias da periferia (majoritariamente negras) em nome do progresso, durante o processo de modernização do traçado urbano de Porto Alegre na década de 1920.

Koehler urde bem uma trama que revela o drama social – qualquer semelhança com o Brasil de 2020 não é mera coincidência – e dramas particulares – no que também pouca coisa mudou: Vitória, jovem negra que sonha em ser jornalista mas é desencorajada de tentar essa profissão “de homem”; Teo, o engenheiro formado no exterior, cheio de idealismos; Fabrício, um jovem artista que não consegue ser valorizado no mercado. Detalhe (?): é negro.

A obra de Koehler é, ao mesmo tempo, um passeio pelo conjunto arquitetônico-urbanístico da capital gaúcha, pelas histórias de vidas de seus muito bem construídos personagens e uma denúncia social contundente.

Por e-mail ela conversou com exclusividade com o Farofafá.

Retrato: Lady’s Comics (2013). Reprodução
Retrato: Lady’s Comics (2013). Reprodução

ZEMA RIBEIRO: Após a leitura de “Beco do Rosário”, em busca de referências, achei menções ao trabalho desde 2015. Como surgiu a ideia e quanto tempo levou para finalizá-lo?
ANA LUIZA KOEHLER: Eu trabalhava muito com reconstituição arqueológica através de ilustrações para museus europeus e percebi que poderia recriar espaços perdidos das cidades brasileiras também, a começar por Porto Alegre. A ideia surgiu como uma pesquisa sobre a transição de Porto Alegre para a modernidade, no início do século XX, e quais histórias de pessoas que haviam vivido essa mudança. Perguntei-me como Porto Alegre passou dessa cidade que se vê nas fotografias de acervos para a que eu percorro hoje em dia. Comecei então a pesquisa em 2012 e até agora não parei. Com algumas interrupções, devido ao trabalho com outros projetos e a docência, eu consegui completar o desenho das páginas e o livro.

Você é arquiteta de formação e tua HQ está diretamente ligada a este aspecto. Foi fácil conciliar a arquitetura com a trama romântica que permeia a obra?
Sou arquiteta e urbanista de formação, e o meu interesse sempre esteve muito mais no urbanismo do que na arquitetura em si. A arquitetura é o marcador da época, o “pano de fundo” estilístico que caracteriza as construções que compõem o tecido urbano, que com o desenho ajudam a transportar quem está lendo para o tempo e o contexto da história. A cidade é onde a vida urbana acontece, onde os romances, brigas, conflitos, ganhos e perdas acontecem. E naquela época, a cidade em transformação estava presente na vida de seus mais diversos habitantes, como busquei retratar na trama.

“Beco do Rosário” se passa na Porto Alegre da década de 1920. Quais as principais semelhanças com o Brasil, um século depois?
Estudando aquela época para escrever essa história e minha dissertação de mestrado no PROPUR-UFRGS [Programa de Pós-Graduação em Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal do Rio Grande do Sul], fui percebendo que há muitas mudanças entre os dois momentos do Brasil, mas também muitas continuidades. Infelizmente, as populações pobres e negras continuam a serem discriminadas, marcando uma reprodução do racismo e da hierarquia social escravista, apesar de todo o discurso de celebração da nossa aparente miscigenação. Infelizmente, aceder a determinadas profissões ainda é muito mais difícil para a grande maioria da população e as cidades ainda são marcadas por grandes contrastes em termos de infraestrutura e qualidade de serviços entre zonas mais ricas e mais pobres, entre outros aspectos.

A remoção de populações em nome do progresso continua uma realidade brasileira, bem como o racismo e a escravidão, que apenas se reconfiguraram, para citar outros assuntos que você aborda na HQ. O quanto estamos distantes de superar este abismo social? E o quanto você acredita que a figura de Jair Bolsonaro na presidência da república serve para nos colocar ainda mais distantes de superarmos isso enquanto sociedade?
Avalio que a eleição de Jair Bolsonaro representa, entre outros vários fatores, um recrudescimento do reacionarismo no Brasil. Vejo a sua escolha como presidente, após um período em que se teve um grande aumento do contingente de estudantes negros nas universidades, uma discussão mais aberta sobre gênero e também um grande movimento de busca de justiça e informação sobre os crimes perpetrados pelos militares durante a ditadura, como também uma reação de todo o contingente da população que se sentiu ameaçada por esses movimentos progressistas. Somado a isso, a criação de redes de difusão de desinformação nas mídias sociais, consolidando teorias conspiratórias com grande lógica interna também veio a consolidar essa posição reacionária, que hoje se manifesta até com orgulho. Naturalmente, esse orgulho é sublinhado pelo exemplo do atual presidente da república, que, como ocupante do mais alto cargo do executivo, reforça e normaliza tudo o que, em última análise, alimenta a barbárie na sociedade brasileira. Contudo, também acredito que os jovens negros de hoje estão muito mais informados e muito mais conectados socialmente para mobilizar forças dentro e fora de seu meio direto para combater as práticas racistas, e que não permitirão que tantas formas de violência antes praticamente normalizadas na sociedade brasileira continuem o sendo. Acredito que eles são e serão os principais motores da luta pelo fim da violência policial, pelo direito à moradia e acesso à educação, entre outros.

“Beco do Rosário” sai pela Veneta, através do programa Rumos Itaú Cultural. Qual a importância destas chancelas e do apoio financeiro para sua realização, num tempo de desmonte das políticas culturais no Brasil?
A produção cultural no Brasil, para que seja livre e inovadora, sempre vai depender em grande parte de programas de financiamento, seja através de incentivos fiscais e captação de recursos junto a empresas, seja através de verbas públicas e instituições privadas. O programa Rumos é sem dúvida um dos mais reconhecidos e importantes para viabilizar a realização de diversos projetos culturais, e foi crucial para que esta história em quadrinhos pudesse ser produzida com o tempo e materiais adequados, situação quase inexistente entre os autores de quadrinhos independentes brasileiros. Frente às atuais políticas de austeridade fiscal que tendem a penalizar ainda mais os programas públicos de fomento à cultura, resta aos artistas independentes buscar financiamento junto à iniciativa privada.

Detalhe de página da HQ. Divulgação
Detalhe de página da HQ. Divulgação

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