Sem maiores explicações, o espetáculo Abrazo foi vetado pela Caixa Cultural no Recife - Foto Divulgação
  1. Montagem sobre livro do escritor uruguaio Eduardo Galeano é proibida de ser apresentada logo após estrear

Sem maiores explicações, a Caixa Cultural do Recife cancelou no sábado 7 de setembro a segunda apresentação do espetáculo Abrazo, do grupo teatral potiguar Clowns de Shakespeare. O veto surpreendeu os integrantes da companhia, que souberam que as demais apresentações do domingo e do próximo fim de semana, dias 14 e 15, também não ocorreriam.

O cancelamento inaugura uma segunda etapa na escalada autoritária no Brasil. Trata-se de um veto institucional, feito por um banco (ainda) estatal sob as garras de um presidente que trata o povo nordestino como “de paraíba”. Os argumentos da instituição até o momento da edição desta nota não estavam claros. Em nota da assessoria de imprensa, a Caixa Cultural Recife escreveu:

“A CAIXA informa que por descumprimento contratual cancelou o espetáculo Abrazo, com apresentações programadas no espaço cultural do banco. O contrato com o Clowns de Shakespeare foi rescindido, conforme comunicado ao Grupo nesta data.”

Mas a reportagem insistiu com a instituição para saber onde ocorreu o problema, mas a Caixa Cultural não informou qual o real motivo do descumprimento do contrato. “Esperamos que essa justificativa, genérica e lacônica, seja esclarecida pela Caixa, de forma a possibilitar ao grupo defender-se de tal alegação”, afirmou na tarde de segunda-feira o grupo, em nota à imprensa. O que se sabe é que entre as duas primeiras apresentações ocorreu um debate para tratar dos assuntos abordados na peça. Uma das hipóteses do Clowns é a de que as falas e o posicionamento do grupo podem ter incomodado a direção da Caixa Cultural e servido de pretexto para esse alegado “descumprimento contratual”.

Para o ator e diretor do espetáculo, Marco França, foi “uma censura travestida com argumentos jurídicos”. França foi participante do grupo por 15 anos e postou seu protesto no perfil do Instagram (@clownamado): “Vivemos um momento de barbárie no País, onde as verbas para pesquisa e educação são cortadas, onde livros são censurados, onde artistas estão sendo perseguidos e suas obras, censuradas. Não nos calarão. Enquanto houver espaço para falar estaremos aqui denunciando”.

Veto institucional inaugura uma nova etapa na escalada autoritária no País – Foto Rafael Telles

O Livro dos Abraços (L&PM Pocket) é um pequeno livro de histórias curtas, algumas curtíssimas, que tem como fio condutor a cultura dos povos da América Latina, que sofreu com as ditaduras militares. Galeano, com a obra, trata de forma singular dos afetos, mas também da falta deles e como isso acabam se tornando questões que transcendem o campo dos sentimentos. O escritor é autor de obras extremamente políticas como As Veias abertas da América Latina e Dias e noites de amor e de guerra.

Já na versão do Clowns de Shakespeare a história se desenrola por meio do olhar de um menino que vive em um país onde as pessoas estão proibidas de se abraçarem e demonstrarem afeto. Sem respostas oficiais, o grupo está cauteloso em relação aos próximos passos, mas, na nota, afirmou que aguarda um parecer jurídico da Caixa Cultural Recife: “Até o momento estamos perplexos diante dessa atitude, uma vez que não reconhecemos qualquer indício de infração que pudesse ter sido eventualmente cometida, pois cumprimos com tudo que estava contratualmente previsto”.

 

, montagem do grupo teatral potiguar Clowns de Shakespeare.

um dia após a sua estreia.

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