Luiz_Melodia

“Se a gente falasse menos/ talvez compreendesse mais/ teatro, boate, cinema/ qualquer prazer não satisfaz/ palavra figura de espanto quanto/ na Terra tento descansar.” É fácil falar isto só depois da morte de Luiz Melodia, quando não há mais tempo, mas se a gente falasse menos e escutasse mais provavelmente teríamos compreendido um pouco mais sobre nós mesmos através das palavras misteriosas do autor de “Congênito” (1976) e mais um punhado de pérolas negras da música brasileira de sempre.

 

Melodia é da estirpe de artistas brasileiros fazedores de versos por vezes difíceis de decifrar, tal como Jards MacaléDjavan, Itamar AssumpçãoCarlinhos BrownChico César e vários dos nossos rappers contemporâneos. Elejo propositalmente citar compositores negros (quando poderia elencar também Tom Zé, Sérgio SampaioBelchior RamalhoArrigo BarnabéTetê EspíndolaAlzira E etc. etc. etc.), porque o elemento preto é central no mecanismo de distanciar uma sociedade que se pretende branca (e é escravagista por debaixo de panos malpassados) de autores que têm muito, muito, muito guardado dentro do peito para dizer.

 

“Eu quero é mais/ muito mais/ ser um calado coração trancado/ eu tenho um recado/ um ódio interno/ guardado/ pregado fincado lacrado.” Wanderléa lançou estes versos de “Segredo” (1975), de Melodia, que revelam o mapa de todo o mistério. O relativo silêncio deste Luiz é o silêncio dos pretos, da humilhação, da sujeição a ditames feitos, todos, para deixar o preto (e mais ainda a preta) no final da fila do horror social brasileiro, americano, mundial. Conceição EvaristoDiva Guimarães Rico Dalasam, entre muitas outras, têm falado abertamente sobre esse assunto, digamos, incômodo. Melodia, como foi Belchior meses atrás, é o cara que não suportou ficar por aqui num momento em que tudo em que ele mais acredita está sendo posto, do modo mais violento, na lata de lixo por horrorosos homens (aparentemente) heterossexuais brancos ricos.

No mais, é ouvir Luiz Melodia, antes tarde do que nunca – porque, apesar de quem vai ficando pelo caminho, nunca é tarde mais para escutar. Segue uma seleção particular, que culmina com a pérola negra “Quem É Cover de Quem?” (1993), feita pelo gênio preto Itamar Assumpção para o gênio preto Luiz Melodia.
“Machismo, elegância paterna”: “Pra Aquietar” (1973).

 

“No CORAÇÃO do BRASIL”: “Magrelinha” (1973).

 

“Me chamam ébano/ o novo peregrino sábio dos enganos/ seu ato dura pouco tempo se tragando”: “Ébano” (1975).

 

“Lava roupa todo dia, que agonia”: “Juventude Transviada” (1976).

 

“Os velhos amigos, os dias fingidos, clarão do luar/ as caras fingidas que beijam na face tentando enganar”: “Veleiro Azul” (1976).

 

“No sonho dos meus sonhos quando eu sonho o mundo está pra se acabar”: “Mistério da Raça” (1980).

“Sou ferro, fera solta/ vim da África no couro de um pandeiro”: “O Sangue Não Nega” (1983), sobre a cobrança racista de que músicos pretos devessem se fechar (apenas) no samba.

 

“Estou doente do peito/ estou doente do coração/ a minha cama já virou leito/ disseram que eu perdi a razão”: “Que Loucura” (1987), de Sérgio Sampaio.

“Ideias, músicas, letras/ não são só feijão com arroz”: “Quem É Cover de Quem?” (1993), de e com Itamar Assumpção.

 

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