assucena, eu e raquel na esquina da aspicuelta com fradique



O melhor de ser um jornalista independente é que agora nem toda conversa precisa ser publicada. Nem todo encontro tem que “render”, pode ser apenas um encontro, apenas um avistamento. Aquela objetividade opressiva deixou de ter sentido e somente o sentido das coisas passou a ser o objetivo mais precípuo.
Isso dito, me vieram hoje à cachola uns flashes, nesse final de domingo sem gancho, de um chope que tomei outro dia num fim de tarde com as frontwomen da banda As Bahias e a Cozinha Mineira no Pasquim, antigo Bartolo, antigo Zeppelin.
Assucena Assucena e Raquel Virgínia, as vocalistas de As Bahias e a Cozinha Mineira, são trans.
Havia tempos que queria conhecê-las. Elegi seu disco, Mulher, como um dos melhores de 2015 aqui no blog, e elas adoraram, e foi assim que acabamos tomando um chope num dia em que eu estava acabado por ter passado o dia todo pintando a antiga casa para entregar à imobiliária.
Ambas são graduadas em História pela USP, o que turbina o hype. Elas sabem disso. Sabem tanto sobre o mundo em que vivem que me pergunto como essa consciência não as deixou demasiadamente alertas – são exatamente o oposto disso, o desarmamento em carne e vestidos tubinhos, o entusiasmo em tranças e brincos de brechós.
Pergunto a Assucena se não não sente um avanço das forças conservadoras no País.
“Bolsonaro sempre existiu”, ela me responde. “O que acontece é que nós avançamos nos nossos direitos. Direitos femininos, direitos dos negros, direitos trans, direitos dos índios. Por isso ele está em evidência, saiu das trevas para lutar pelo atraso. Mas não haverá recuo”, ela diz.
Parece um discurso áspero de ativista, transcrito dessa forma protocolar, mas raras garotas demonstram tamanha alegria e presença de espírito quanto essas duas.
“Pensa: alguns anos atrás, seria possível essa cena? Duas travestis tomando um chope num reduto de classe média em plena tarde? Digo travesti porque discordamos dessa hierarquização léxica – dizem trans e evitam dizer travesti porque “trans” é mais aceito, travesti tem conotação de prostituição, de underground, tem mais um banimento aí”, assinala Assucena. “O mundo mudou, os Bolsonaros estão com dificuldades de aceitar isso”.
Sangue do sangue de judeus sefarditas que imigraram para o Pará e depois se deslocaram em bloco para a Bahia, para Vitória da Conquista (onde nasceu), Assucena se diverte lembrando que uma mulher de sua família, judia, chegou a ser empregada doméstica de uma família palestina.
Já Raquel é de São Paulo, mas um dia rumou para Salvador movida pela ideia de seguir os passos de Ivete Sangalo. Não apenas cantar, mas “tornar-se” ela. Amava, como ainda ama, a diva do axé. Por isso elas são conhecidas como “As Bahias” – uma que é de fato, outra que é de alma. 

Salvador não deu certo, Raquel voltou, encarou a faculdade, revelou-se trans. No começo, lembra, a mãe ainda perguntava se ela se vestia “desse jeito” somente para cantar ou se ficava assim o tempo todo. “Veja: passamos o tempo todo encarando as barras da sociedade para afirmar o orgulho trans, e em casa ainda amaciamos o discurso por causa das pessoas que amamos”, conta Assucena.
Raquel Virgínia disse que não se importa de falar sobre ser trans o tempo todo, mas me confidenciou que anda obcecada com uma ideia: “Não posso me dar ao luxo de errar. Antes eu não me importava, mas agora eu me patrulho o tempo todo, não posso errar. Não posso pisar na bola, não posso usar as palavras erradas, não posso agir de maneira irresponsável.”
Ando ruim de memória, então não consigo reproduzir com alguma exatidão o que Assucena, marxista, me disse sobre seu fascínio aparentemente contraditório pela pós-modernidade. Mas lembro que me disse que vê também o fenômeno trans como uma conquista do pós-moderno.
Outra coisa que lembro da conversa foi a história que Raquel contou sobre sua ida à Academia Competition, onde sonha se manter em forma. Chegou no balcão e antes mesmo de pedir informações sobre as mensalidades e coisas do tipo, advertiu a atendente. “Olha, sou trans. Quero que tenham consciência disso e avisem as pessoas que trabalham aqui para que a gente possa se relacionar numa boa”, contou.
A moça disse que precisava falar com o gerente, que não estava, e pediu para ela voltar de tarde. Raquel voltou. Foram chamar o gerente. O rapaz disse que queria saber o que deveria fazer, que precisava ser orientado – era a primeira trans que recebiam na história da academia. De cara, aceitou que ela usasse o banheiro feminino. Comemoração! Raquel estava ansiosa para começar. Dessa história, não sei ainda o final.



DEIXE UMA REPOSTA

Por favor, deixe seu comentário
Por favor, entre seu nome