O guitarrista, compositor, poeta, cantor e produtor jamaicano Junior Marvin está no Brasil para um show no ABC paulista. Um dia ele enfrentou um dilema crucial: escolher entre Stevie Wonder e Bob Marley

Hospedado essa semana num hotel do Morumbi, zona sul de São Paulo, encontra-se um sujeito de dreadlocks e sorriso largo, que às vezes usa quepe de capitão de navio, às vezes boné de time de futebol. Trata-se de um certo Donald Kerr, que irá comemorar 66 anos no próximo dia 22. O nome registrado na recepção pode não lhe ser familiar à primeira audição, mas se disserem a simplificação do nome completo do hóspede Donald Hanson Marvin Kerr Richards Jr., que é conhecido simplesmente como Junior Marvin, um fã de música talvez mate a charada na hora.

Sim, o lendário guitarrista dos Wailers, de Bob Marley, está na cidade. Numa mesma tarde, em 1977, quando vivia em Londres, Marvin recebeu dois telefonemas: um de Stevie Wonder e outro de Bob Marley. Ambos o queriam em suas bandas. Marvin ouviu a família, parentes e amigos para decidir. Afinal, o chamado da terra prevaleceu: jamaicano como Marley, ele optou por seguir o ídolo do reggae.

Acompanhando Bob Marley, que o deixava livre para solos, Junior Marvin tornou-se o paradigma da guitarra no reggae. Naquele mesmo ano, ele produziu o disco “Exodus”, de Marley, que foi eleito o melhor do século 20 pela revista Time. A última vez que o guitarrista viu Marley foi em 1981, quando o ídolo do reggae estava internado na clínica Ringberg, na Baviera, Alemanha, tentando se curar do câncer. “Ele me disse: mantenha o reggae em alto padrão. Quero que você faça reggae como eu faria, nem melhor, nem pior”, contou hoje Junior Marvin, que está em São Paulo para o festival Afro System, na Estância Alto da Serra (região de São Bernardo do Campo) neste sábado, dia 13.

Junior Marvin está aqui para tocar com sua banda, mas também por outro motivo: é o produtor do disco de estréia do brasileiro Junior Dread, reggaeman da zona norte de São Paulo. Nesta quinta, ele participa do show de Dread no Estúdio, em Pinheiros. Leia entrevista exclusiva com o guitarrista, cantor, produtor, compositor e poeta jamaicano.

Jotabê Medeiros – Em 1997, você viveu um tempo no Brasil? O que o trouxe aqui e o que se lembra dessa época?
Junior Marvin – Sim, eu vivi um ano e meio em Goiânia. Ouvi muito samba e bossa nova naquela época, conheci muita gente do meio musical. Vim porque minha mulher era brasileira, e minha filha também. Hoje vivemos em Miami, na Flórida. Goiânia era um pouquinho longe de São Paulo e Rio para fazer shows, mas não foi tão ruim, peguei muitos aviões. A Brasília dava para ir de carro.

Junior Marvin, Bob Marley, Jacob Miller e Chris Blackwell - Foto: Reprodução site oficial
Junior Marvin, Bob Marley, Jacob Miller e Chris Blackwell – Foto: Reprodução site oficial

JB – Outro dia esteve aqui em o antigo produtor de Marley, Chris Blackwell, e ele disse que uma das melhores caras novas do reggae jamaicano é Jamar McNaughton, conhecido como Chronixx. Você concorda?
JM – Não. Junior Dread é melhor que ele. Junior Dread é melhor cantor e a mensagem de suas canções é mais forte, mais moderna. Jamar faz uma música que parece a mesma dos anos 1970, 1980, 1990. Dread é mais fresco, orgânico, ao mesmo tempo em que tem raízes.

JB – É curioso: sempre se ouve falar que o reggae bom mesmo é o que é feito pelos jamaicanos, o reggae de fora é meia boca. Assim como a bossa nova boa mesmo ainda é feita no Brasil.
JM – No começo era assim, mas agora não é mais. O reggae se universalizou. Muitos jamaicanos foram viver pelo mundo, e muitos aprenderam com viajantes como Sly & Robbie. Estrangeiros gravaram com jamaicanos e vice-versa. Os não jamaicanos aprenderam o mesmo sentimento, houve uma compreensão. Junior Dread é um desses: ele faz músicas que têm uma boa mensagem, e ele tem uma bela voz. Para mim, ele é o Bob Marley brasileiro, ele pode se tornar um ídolo internacional. Por essas razões é que resolvi ajudá-lo, como um irmão. O Brasil tem pessoas com o mesmo background da Jamaica, assim como um ambiente parecido: muita pobreza, muitos problemas sociais. Junior Dread pode fazer pelo Brasil o mesmo que Marley fez pela Jamaica, ou que Lucky Dube fez pela África, ou Miriam Makeba. Há problemas de educação, de política, que precisam ser tratados pela música. O povo brasileiro precisa de educação, de uma vida melhor, empregos. Samba e bossa têm um caráter mais de entretenimento, então o reggae pode carregar essa mensagem. Ele tem a capacidade de fazer as pessoas entenderem o mundo em que estão vivendo.

JB – Mas e o hip-hop? Ele também não tem essa capacidade?
JM – O hip-hop ainda carrega em si sua tradição gangsta. Está melhorando, mas é essencialmente um meio sexista e de entretenimento, e que trata mal as mulheres. Não estende o respeito que tem pela mãe e pela irmã às demais mulheres. Também está contaminado pela moda, pelo fashion, que não providencia consciência social. Gosto do hip-hop mais criativo, mas ele ainda vive muito na tradição gangsta, de ouro, carrões, etc. Não tem espiritualidade. O reggae tem. E nós precisamos que a vibe positiva se espalhe, que se diga não ao conflito, à violência, à morte. O hip-hop parece admitir que, para se ter algo, é preciso tomar de alguém.

JB – Aqui do lado do Brasil, no Uruguai, o comércio de maconha foi legalizado. Já no Brasil, essa é uma discussão mais complicada, como você deve saber.
JM – Complicam porque querem dinheiro. O Brasil tem corrupção na política, então fica mais difícil. Se põem alguém em cana por causa da maconha, porque não põem por causa do uísque? Não faz sentido, o álcool é muito mais perigoso. Mas é legal. Eu penso da seguinte forma: tudo na vida é questão de equilíbrio. Se você bebe muito, fica doente. Se fuma muita maconha, fica doente. Se faz exercício demais, fica doente. Se você educar as pessoas, ninguém faz nada em excesso, se cuida. A marijuana é eficaz no tratamento contra o câncer, contra o glaucoma, você pode fazer roupas do cânhamo. Deve-se liberar o uso, não o abuso. Acho que os governos querem ser os traficantes, querem lucrar com essa situação. A maconha tem seu lado bom, serve para combater problemas de saúde. O problema é saber como administrar.

JB – Li que, no ano passado, você criou uma nova banda chamada Force One. Ainda é essa com a qual excursiona?
JM – Tentei diferentes bandas, não funcionou. Diferentes nomes. Agora eu uso simplesmente Junior Marvin e Seus Wailers. Porque o que eu toco é o legado de Bob Marley, que é um bom legado.

JB – Além de Junior Dread, o que acha do reggae feito no Brasil?
Há um monte de boas bandas no mundo todo. Soja, que vem sempre tocar aqui, é ótima. Assim como Groundation. No Brasil, há o Skank, que é muito boa. O Rappa também. Gilberto Gil é grande. Gosto também do Planet Hemp. Tenho muito orgulho do reggae feito no Brasil.

JB – Você também é poeta. Foi influenciado por Gil Scott-Heron?
JM – Claro. Ele foi um dos primeiros a cantar versos com mensagem na música afro-americana. A mostrar que não é só música de festa que existe. E foi muito valente em fazer essa mudança, porque as gravadoras fechavam as portas para esses artistas. Hoje isso não existe mais. Em minha opinião, a música deve ser como um Lamborghini, uma Ferrari, um instrumento veloz para conduzir a mensagem. E é bom as pessoas se prepararem, porque há um trem a caminho!

JB – Apesar de declarar sua profissão de fé no reggae, você gravou com diferentes músicos, tocou funk, jazz, soul. Qual é sua filosofia musical?
JM – Cresci na Jamaica, vivi em Londres, Estados Unidos e Brasil. Fui ao Japão e à Índia. Toquei com músicos de todo lugar. A música é uma linguagem universal, você amplia sua compreensão do que é humano por meio dela. Um músico como B.B. King, com sua música, pode fazer gente se sentir bem no mundo inteiro. O blues, que tem uma história triste, pode transformar sentimentos em boas vibrações. Árabes, portugueses, indianos: com a música, tudo fica mais fácil.

JB – E quanto à guitarra? Há sempre novos guitarristas postulando um lugar mais alto no instrumento, como Gary Clark Jr. e Jack White fazem hoje. O que acha deles?
JM – São todos bons. Todos são o melhor, porque fazem algo que é especial, só eles sabem fazer e mostrar. Mas não há um só melhor. Jimi Hendrix foi muito especial. Mas também o foram Wes Montgomery, Steve Ray Vaughan, T-Bone Walker, Jeff Beck, Eric Clapton, Albert King, Jimmy Page. Todos foram especiais. Todo mundo pode ser especial se praticar muito.

JB – Mas você admite que há pessoas que mudam a história com sua música. Você participou do filme “Help!”, dos Beatles. Eles eram gênios ou pessoas comuns?
JM – Eles eram pessoas comuns que influenciaram o futuro. Sim, é verdade que existem os que mudam o futuro, que faz outros músicos dizerem: “Sim, quero tocar como ele”. Chamo a isso de Fundação do Futuro. Os Beatles eram rapazes normais que fizeram um monte de canções. Bob Marley fez mais de uma centena de canções. E eles fizeram boas escolhas, constituindo cada um deles um acervo, inclusive com canções que outras pessoas escolheram para eles. Passaram sua vida em busca dessas canções perfeitas, que muitas vezes era radicalmente simples. Por exemplo: “One Love”. É simples, mas faz com que gente em todo lugar do mundo se reconheça nela. “Sou eu!”. “Let’s Stay Together”, do Al Green, que conquistou Tina Turner e Whitney Houston. “My Song”, do Elton John, que conquistou Billy Joel, James Taylor, Crosby Stills Nash & Young. Todos querem cantar suas músicas, que durarão para sempre. Deus as abençoou.

* Publicado originalmente em El Pájaro que Come Piedra

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