A crise de legitimidade da imprensa é medida em números. Metade dos leitores de Folha de S.Paulo, O Globo e O Estado de S. Paulo, os três maiores jornais nacionais do país, e metade dos telespectadores do Jornal Nacional, da TV Globo, nunca ou poucas vezes confiam no noticiário apresentado diariamente. E 54% dos leitores da revista Veja desconfiam das páginas publicadas. Os dados são da Pesquisa Brasileira de Mídia (PBM), da Presidência da República, o estudo de recepção mais abrangente e representativo da população já realizado.

Esses são, na verdade, os números otimistas, o meio copo cheio da história. Um estudo coordenado por Pablo Ortellado (USP) e Esther Solano (Unifesp) aponta que a imprensa não goza da confiança dos manifestantes que foram à Avenida Paulista, em 12 de abril, protestar contra o governo Dilma Rousseff. Nada menos que 78,6% dos pesquisados disseram não confiar na imprensa. O Jornal Nacional (O Globo ficou de fora) teve a pior reputação entre esse público:
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Nas duas últimas semanas, Veja, Folha de S.Paulo e O Estado de S. Paulo promoveram cortes em massa de jornalistas. A principal justificativa é a perda de arrecadação publicitária – com a queda de anúncios, manter uma folha de salários elevada das redações se torna insustentável. Mas o problema está ligado muito mais à crise de legitimidade apontada acima – as vítimas, contudo, foram os colegas que tiveram seus empregos ceifados da noite para o dia.

O jornalista Ricardo Kotscho, em aula magna na Universidade Metodista, no último dia 16 de março, resumiu o tamanho da encrenca do jornalismo: “Criou-se imenso abismo entre a imprensa e o país, um cada vez mais distante do outro, vivendo realidades completamente diferentes.” Naquele dia, Kotscho lembrou, ainda, da fala da então presidente da Associação Nacional dos Jornais, Judith Brito, para quem a grande imprensa teria assumido a liderança da oposição, gerando o desequilíbrio na relação dos poderes.

Questão de ordem: se nem mesmo quem mais deseja que Dilma seja despachada do Palácio do Planalto confia na imprensa, que hoje se coloca como a principal atiçadora do discurso crítico ao governo, o que esses maiores veículos de comunicação podem fazer para sair da armadilha que criaram contra si? A política já está afundando, mas arrastará com ela a imprensa?

Manifestante com carta da revista Veja se posta diante da Tropa de Choque da PM no dia 12 de abril - Foto: Eduardo Nunomura
Manifestante com carta da revista Veja se posta diante da Tropa de Choque da PM no dia 12 de abril – Foto: Eduardo Nunomura
Observando os microdados da PBM de 2014 (os de 2015 ainda não foram liberados), uma constatação se destaca. A desconfiança dos três principais jornais impressos, do maior telejornal e da revista de maior circulação prevalece sobre a confiança que depositam na imprensa entre as pessoas de renda familiar superior a R$ 6.780,01.

(A PBM entrevistou mais de 18 mil brasileiros para saber os hábitos de consumo de mídia. Cerca de 80% das pessoas se informam primeiro pela televisão, 12,9% pela internet, 6,2% pelo rádio, 1,9% pelos jornais e 0,4% pelas revistas impressas. Para as comparações acima, foram examinadas as respostas de 3.661 entrevistados pela PBM que indicaram Folha de S.Paulo, O Globo, O Estado de S.Paulo, Veja e Jornal Nacional como suas principais fontes de informação.)

Alunos de jornalismo me questionam aflitos sobre o que vai ser o futuro da profissão, e só posso lhes dizer para resistirem. Costumo devolver esse drama com perguntas como: Quantos leem jornais e revistas ou assistem o noticiário televisivo? Quanto horas por dia dedicam para se informar pelos meios tradicionais, um jornal, por exemplo? Menos de 30 minutos, respondem alguns. E quanto tempo ficam no Facebook ou em outras redes sociais? Dizem o dia todo, mas procuro ser mais criterioso. O quanto ficam interagindo, lendo links compartilhados e vendo vídeos na plataforma? Reduzem para algo entre 3 e 4 horas por dia.

New York Times, National Geographic e Buzzfeed estão fechando acordos com o Facebook para publicarem diretamente suas reportagens como posts. É um caminho natural quando a montanha não vai a Maomé.

Pode ser uma saída para a imprensa brasileira, embora nem lá fora a mídia americana deposita todas suas moedas nesse cofrinho. Só que não é fazendo jornalismo-postagem que se encherá a outra metade do copo. É preciso retomar a credibilidade do jornalismo, um ingrediente visivelmente em falta para leitores, ouvintes e telespectadores.

Na quarta-feira, vi no Twitter que o Jornal Nacional tinha uma audiência na casa dos 22% na Grande São Paulo. Já foi de 40 pontos, uma década atrás. A soma das novelas Chiquitita (SBT), Os Dez Mandamentos (Record) e Mil e Uma Noites (Bandeirantes), exibidas no mesmo horário, supera a audiência do maior telejornal da Globo. O público tem feito suas escolhas.

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