Assassinato de jovem da periferia de São Paulo durante um show interrompe a carreira de um promissor talento do funk paulista. MC Daleste tinha 20 anos. Polícia investiga o caso

Na madrugada do dia 7 morreu, talvez, um dos maiores ícones da era pós-gravadoras – mas essa resposta só o tempo dirá ou mesmo nunca virá. Daniel, ou MC Daleste como era conhecido, começou aos 16 anos no funk como a grande maioria dos jovens da periferia, em uma lan house. Foi lá que ele fez a sua primeira música. Daleste tinha um talento para compor fora do comum, muitas vezes lançava duas ou três músicas novas na mesma semana. Os temas eram os mais variados, ostentação, como Angra dos Reis , músicas de amor, como Primeira Namorada, realidade/ conciente, como Mãe de Traficante, e claro, o proibidão que foi tendência até alguns anos atrás e que praticamente 100% dos MCs já cantaram, como a música Apologia.
As músicas do “Pobre Louco da Penha”, como ele se autodenominava, pulsavam o que ele sentia e via ao seu redor: a periferia pobre, onde tudo era na base do improviso. Ele gravava em estúdios caseiros, colocava uma base e jogava sua produção no You Tube. Foi assim que ganhou o público com Primeira Namorada e Todas as Quebradas. Cada uma de suas músicas gerava milhões de exibições, em centenas de canais de outros fãs que divulgavam suas músicas. Seu seguidores identificavam com suas letras e sua voz inconfundível.
Depois de muito tempo fazendo sucesso, resolveu gravar um clipe. Até então era um dos únicos MCs que nunca tinha precisado de vídeos com carrões e modelos para conquistar ou manter a fama. Fui apresentado a ele por um amigo em comum, Bio G3 da dupla Backdi e Bio G3, os pais do funk ostentação. Não era uma tarefa fácil. Nossa primeira conversa durou cerca de 3 horas, Daleste sempre falava: “Preciso fazer o melhor, é o mínimo que meu público espera de mim.”
A música escolhida foi São Paulo: “Onde 10 mil vai /e ao mesmo tempo vem/Claro que é São Paulo/ Capital das notas de Cem.” Depois do clipe finalizado, que teve um orçamento considerável, ouvi várias vezes de Daleste dizer que ele não tinha ainda uma data de lançamento, pois sua agenda de shows estava lotada, e por isso não via necessidade em lançar o clipe no momento.
Seus shows estavam sempre lotados e chegava a cobrar cachês de mais de 10 mil reais. Precisava de seguranças para ir embora, tamanho era o assédio dos fãs.

Seu assassinato, em cima do palco, transmitido ininterruptamente pelo You Tube, fez a derrota de Anderson Silva virar assunto secundário nas redes sociais e lembrou a minissérie da Globo, inspirada na obra de Nelson Motta, onde a cantora/protagonista morre assassinada em cima de um trio elétrico no meio do carnaval. Desde o tiro fatal e a publicação do vídeo, era como se milhões de jovens acompanhassem ao mesmo tempo a morte de seu ídolo maior, que tanta felicidade trazia com suas músicas, sem poder fazer nada mais do que orar e desabafar sua ira em perfis virtuais.
Daleste é o quinto MC de funk assassinado em São Paulo, sem que os outros casos tenham qualquer solução. Seu velório atraiu milhares de jovens que entoaram suas músicas como hinos da atual juventude da periferia.
O menino humilde da Penha que conquistou a fama, sucesso e dinheiro ignorando totalmente o “sistema” das gravadoras, rádios, programas de TV, jornais e críticos musicais se foi, mas virou exemplo para milhões de jovens que sonham em alcançar o sucesso e serem reconhecidos por seu talento.
Será sempre lembrado por milhões de jovens em São Paulo e no Brasil, não somente pelas suas letras, mas pelo sorriso inconfundível de quem triunfou diante do impossível e escreveu seu nome com letras maiúsculas na música popular brasileira.

* Renato Barreiros é produtor cultural, ex-subprefeito de Cidade Tiradentes e um dos primeiros a acreditar no funk paulista

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