Procede queixa da ex-ministra Ana de Hollanda, que, em uma entrevista ao jornal ‘Folha de S.Paulo’, se comparou à travesti prostituta da canção do irmão Chico Buarque?

Um estranhíssimo lamento partiu da ex-ministra Ana de Hollanda na semana passada, num depoimento ao jornal “Folha de S.Paulo”. Comentando sua passagem pelo Ministério da Cultura (MinC) no início do governo de Dilma Rousseff, ela se autocomparou a Geni, personagem da Ópera do Malandro, musical teatral de seu irmão Chico Buarque lançado em disco em 1979. “Virei a Geni! Todo mundo tacava pedra em mim”, queixou-se Ana, entre afirmações como a de que foi a Brasília sem querer ir.

A comparação faz sentido, mas não muito. Imortalizada na canção “Geni e o Zepelim”, a personagem de Chico era uma travesti prostituta que recebia o asco da população de sua cidade por ser quem era, mas terminava por salvar a vida dos conterrâneos deitando-se com um asqueroso invasor. Salva a população “decente” da cidade, voltava a cantilena hipócrita de sempre: “Joga pedra na Geni/ joga bosta na Geni/ ela é feita pra apanhar/ ela é boa de cuspir/ ela dá pra qualquer um/ maldita Geni”. Em privado, usava-se e abusava-se de Geni. Em público, só pedrada.

No MinC, Ana foi bem diferente de Geni. Desagradou não por “dar pra qualquer um”, mas por oferecer sucessivas demonstrações de que, no cargo máximo da cultura do país, servia especificamente aos seus — aos compositores de música instalados, por cargo ou fama, na infraestrutura fechada e obscura do Ecad, o escritório de arrecadação e distribuição de direitos autorais. A grita, na época de Ana e antes, é que o Ecad sempre foi “parapoucos”, e não “paratodos”, como diria o grão-irmão.

Além da comparação desfocada, impressiona na fala da ex-ministra a confusão entre público e privado que parece se instalar na gloriosa família Buarque de Hollanda. Não é só ela. Lançado em DVD e CD ao vivo, o recente espetáculo “Na Carreira”, de Chico, também parece tematizar obliquamente essa nada republicana misturança.

Curiosamente, Chico reelabora em “Na Carreira” um longo segmento de músicas que escreveu na primeira pessoa feminina, algumas delas extraídas da mesma “Ópera do Malandro”. “O meu amor/ tem um jeito manso que é só seu/ de me deixar maluca/ quando me roça a nuca e quase me machuca/ com a barba malfeita”, canta em “O Meu Amor”. “Me chamava de rainha/ me encontrou tão desarmada/ que tocou meu coração/ mas não me negava nada/ e assustada eu disse não”, continua, na pela da donzela narradora de “Teresinha”. “Parece que dizes/ ‘te amo, Maria’/ na fotografia estamos felizes”, segue em “Anos Dourados”, parceria com Tom Jobim feita para Maria Bethânia cantar.

“Eu sou sua alma gêmea/ sou sua fêmea, seu par, sua irmã/ eu sou seu incesto/ sou perfeita porque/ igualzinha a você/ eu não presto”, dá bandeira em “Sob Medida”, plena de irmandade e incesto. “Traiçoeira e vulgar/ sou sem nome e sem lar/ sou aquela/ eu sou filha da rua/ eu sou cria da sua costela”, prossegue “Sob Medida”, em clave algo católico-machista.

Ana de Hollanda, em Ananindeua (PA) - Foto Luiz Marques Ferreira
Entre essas todas, há ainda a crucial “Ana de Amsterdam”, canção-personagem do musical “Calabar — O Elogio da Traição”, censurado pela ditadura em 1973: “Sou Ana do dique, das docas/ da compra, da venda, da troca, das pernas/ dos braços, das bocas, do lixo, das fichas, das bichas/ sou Ana das loucas/ até amanhã sou Ana”.

Entre Ana de Amsterdam e Ana de Hollanda, houve um ministério, e é difícil ouvir “Na Carreira” sem se perguntar se Chico não está se afirmando, ele próprio, um travesti dessa Ana, prostituta de Amsterdam, ministra de Hollanda. Nem que fosse apenas por sua obra colossal, Chico seria, já e para sempre, um dos rostos por trás da instituição sem rostos chamada Ecad.

Adiante, Chico cantará “Geni e o Zepelim”, reencarnando também ele a travesti com que a ex-ministra-irmã sente tanta pena de se autocomparar. Há um abismo entre a denúncia comportamental que o Chico das canções femininas peitava em anos idos e a autopiedade com que ele e irmã se comprazem quando se identificam não com os agressores da Geni, que somos todos nós, mas com a própria apedrejada. Definitivamente, não precisamos de vítimas, nem nos governos nem na arte.

* Texto publicado originalmente no blog Ultrapop Ultrapop, do Yahoo! Brasil

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