Ídolos indie-pop brasileiros – Tulipa Ruiz, Luísa Maita (foto) – e estrangeiros – Beck, Devendra Banhart – participam de tributo aos 70 anos do tropicalista.

 

Caetano Veloso completa 70 anos e recebe homenagem multinacional da gravadora na qual construiu toda sua carreira discográfica, desde 1967, a Universal (ex-PolyGram, Phonogram, Companhia Brasileira de Discos): A Tribute to Caetano Veloso. Em 16 faixas, o CD se distribui entre artistas internacionais que têm declarado paixão por Caetano (Beck, Devendra Banhart, Jorge Drexler) e artistas brasileiros mais pendentes ao underground que ao mainstream (Marcelo Camelo, Mariana Aydar, Tulipa Ruiz, Céu, Momo, Qinho). Parecem mundos distintos, mas há entre eles conexão maior que a simples existência do artista homenageado.

O painel de releituras gringas configura um ambiente folk, flagrando a influência silenciosa que Caetano absorveu desde sempre de Bob Dylan. A banda The Magic Numbers abre o CD com “You Don’t Know Me” (1972), em inglês nativo e em português de sotaque folk tipo Joan Baez (ex-namorada e primeira madrinha de Dylan) no trecho de citação a “A Hora do Adeus” (1967), de Luiz Gonzaga: “Eu agradeço ao povo brasileiro/ norte, centro, sul, inteiro/ onde reinou o baião”. O forró nordestino, se alguém ainda não percebeu, é o folk do Brasil – e Caetano, como Gonzagão, é nordestino.

Há quem opte pela dissonância, como Beck, com reinterpretação pretensiosa e deprimida de “Michelangelo Antonioni” (1999), Seu Jorge, que elege “Peter Gast” (1983) para poder cantar “sou um homem comum/ qualquer um”, ou Céu, que faz feliz releitura new wave da new wave “Eclipse Oculto” (1983). Em geral, no entanto, os convidados gastam seu tempo delineando versões experimentais, mas gritantemente submissas às originais.

A sujeição ao tributado se soma a um amor direcionado predominantemente para a (genial) criação de Caetano nas cercanias da época do exílio (1969-1972). Isso se traduz, musicalmente, num ambiente depressivo a que os intérpretes se entregam com paixão. Amplia-se a experiência recente da cantora Alexia Bomtempo (nascida norte-americana, de pai brasileiro), que em I Just Happen to Be Here (Biscoito Fino, 2012) se derrama tristemente sobre as canções em inglês da tropicália e do exílio caetânicos. Mora aí o folk em levada dylaniana, estadunidense, nada forrozeira.

 

Marcelo Camelo escolhe uma canção pré-tropicália, “De Manhã” (1965), à qual dá leitura tipicamente folk-experimental. Seu grupo Los Hermanos foi o responsável pelo pontapé inicial na até aqui interminável linha neofolk brasileira – perseguida por artistas que não estão no tributo, como Mallu Magalhães, Thiago Pethit e Tiê, e por artistas que estão, como + 2 (Moreno Veloso, Domenico Lancellotti e Kassin), Momo, Qinho, Luísa Maita (foto).

Trata-se de uma conexão perigosa: depressão exílio-tropicalista, depressão folk, depressão neofolk. São corajosos os que peitam o estigma – mesmo os (vários) que o fazem aparentemente imitando até o modo de cantar de Caetano. Só não se parecem com homenagens à risca, e sim mais como filiação obediente tanto à veia (nova) Los Hermanos quanto à veia (antiga) do exílio político-musical, retomada por Caetano do queixoso “Cê” (2006) em diante.

Soam amorosos num sentido mais solar as poucas faixas que se afastam dos originais. Enquanto o uruguaio Jorge Drexler prefere imitar o jeito caetânico de cantar “Fora da Ordem” (1991), o espanhol Miguel Poveda dá identidade própria a “Força Estranha” (1978), transformada por ele em  Fuerza Extraña”, “yo vi un muchachito corriendo”. E a portuguesa Ana Moura (foto acima) fica responsável pelo mais emocionante momento do tributo, transformando “Janelas Abertas Nº 2” (1971) num fado de tirar o fôlego.

Em flagrantes como esses, ficamos orgulhosos do alcance transcendental, transnacional, da nossa tropicália, do nosso Caetano.

 

(Texto publicado originalmente no blog Ultrapop, do Yahoo! Brasil.)

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