O que há por trás do elenco de xingamentos levantado toda vez que alguém se refere à atual carreira política do cantor de pagode e animador de TV nascido na periferia paulistana?

 

No meu texto anterior para o Ultrapop do Yahoo, me detive em Leci Brandão e acabei deixando de lado a tarefa cruel de defender Netinho de Paula. Até certo ponto, foi de propósito, porque queria conferir as reações e imaginava um vendaval de xingamentos contra o vereador paulistano que na segunda-feira 25 desistiu publicamente de se candidatar a prefeito de São Paulo, já que seu partido, PCdoB, preferiu se coligar ao PT. Teoricamente, o cidadão paulistano periférico nascido em Carapicuíba se tornaria candidato automático a se candidatar a vice-prefeito na chapa encabeçada por Fernando Haddad – no fim das contas, a escolhida foi Nádia Campeão, também do PCdoB.

Na prática, as coisas são mais complexas. A cada eleição, a elite e as classes médias de São Paulo pregam mais forte em Netinho o carimbo de “candidato que bate em mulher”, por conta de um episódio de agressão física que protagonizou contra sua então esposa, em 2005. Confesso que esperava mais leitores evocando esse caso, e também o soco que ele deu no mesmo ano no humorista Rodrigo Scarpa, do Pânico na TV, para repudiar o candidato a candidato que já ganhou a vida como cantor de pagode.

De 2005 para cá, Netinho pediu desculpas várias vezes pelo descontrole e pela violência, inclusive publicamente, inclusive para a ex-esposa. Nunca foi perdoado pelos opositores — políticos?, empresariais?, musicais?, raciais? Esses, ao que tudo indica, seguirão repisando, enquanto Netinho viver, as agressões, mesmo que tenham sido delimitadas àqueles dois episódios, e àquele ano.

No mesmo 2005, acompanhei um dia na vida de Netinho, para uma reportagem para a revista CartaCapital. Testemunhei as gravações do quadro “um dia de princesa”, do programa televisivo que ele tinha à época, Domingo da Gente. Em meio a várias visitas algo marqueteiras às casas pobres de “princesas” pobres, vi Netinho falar com suas fãs sobre depressão, suicídio, vida nas ruas, assassinato, miséria, situações a que os povos das favelas estão expostos de modo mais cru, explícito e frequente que os povos não-negros, não-pobres e/ou não-marginalizados dispersos pelo resto da sociedade.

“Depressão é uma doença que a gente pensava que era só dos ricos. Mas estamos descobrindo que está mais aqui na periferia”, ele ensinava à “princesa” que foi encontrar deitada na cama, sem forças para levantar. “Não fica assim que corta o coração do negão.”

Naquela ocasião, o cantor-apresentador-empresário prestes a se tornar político falou sobre  discriminação racial, que sofria na infância e que continua sofrendo vida afora, e deu pista para que decifrássemos alguns de seus porquês: “Se eu reagir na hora, vou ser violento. Então, fico quieto”. Falou isso exatamente num momento em que não andava conseguindo ficar nada quieto.

Em 2010, quando ele já era vereador (com apoio amplo na comunidade rapper, inclusive de Mano Brown), foi mais assertivo e incisivo quando toquei de novo no tema racismo, dessa vez para uma reportagem sobre cantores-políticos para a revista Billboard Brasil: “Como bom negro que sou, quando eu vendia doce na estação de trem me chamavam de trombadinha. Quando montei um grupo de pagode que foi o maior sucesso nacional por mais de dez anos, falaram que eu produzia lixo cultural. Quando fui para a TV, falaram que eu era assistencialista. Tenho que entender que para uma parcela da nossa sociedade nunca nada que eu fizer vai ser levado em consideração de maneira positiva”.

Na época dos episódios violentos, ele se preparava para lançar uma emissora de TV direcionada para a população afrodescendente brasileira, a TV da Gente. Investiu R$ 12 milhões, e não obteve sucesso. A emissora fechou em pouco tempo, inclusive por conta de boicote de anunciantes (não somos racistas?).

Nas eleições de 2010, quando concorria ao cargo de senador pelo PCdoB de São Paulo, ele liderou pesquisas até o dia da eleição — acabou em terceiro, não-eleito, graças ao voto silencioso de parcela considerável da população local em outro candidato, Aloysio Nunes Ferreira (PSDB), que nem figurava entre os mais bem-posicionados nas pesquisas.

Emendo tantos dados aqui para tentar discutir um tema complexo e controverso. A rejeição a Netinho é forte, e tem base concreta: agressão física é de fato intolerável, em quaisquer circunstâncias, misóginas ou de outra natureza. Mas e ele pedir desculpas públicas e nunca ter voltado a repetir qualquer ato violento? São dados que contam ou não contam?

Gostei de um leitor do meu texto anterior no Yahoo!, que reclamou do tom autoritário do título, “lave a boca com sabão para falar de Leci Brandão“. Também detesto o autoritarismo, e cometi a temeridade conscientemente, meio querendo provocar os ânimos da moçada. Habitualmente leio, na caixa de comentários do Yahoo, centenas de comentários de viés autoritário, imperativo, desejosos de censura. Fiquei feliz de não ver, desta vez, tantas condenações maleducadas aos erros passados de Netinho.

Esse tipo de sentença mandona e definitiva, na maior parte das vezes, me lembra prisões perpétuas, condenações sumárias, cadeiras elétricas, paredões de fuzilamento, penas de morte. Não são democráticas, nem generosas. Tal retórica ameaçadora soa forte na boca de bravateiros, até o momento que algo parecido aconteça com alguém de suas famílias, ou com eles próprios. É menos comum acontecer com não-negros do que com negros, mas, se temos de girar em círculos sempre e sempre e sempre em registro negativo, não é demais lembrar aquela formulinha infalível da vovó, que, autoritária, mandava que nunca disséssemos nunca.

 

(Texto publicado originalmente no bloc Ultrapop, do Yahoo! Brasil.)

 

 

5 COMENTÁRIOS

  1. Tem coisas que parecem que marcam uma pessoa para sempre. Erros todos cometemos. Agora esse negócio contra o Netinho parace pena eterna que ele está pagando por orquestrações de setores que querem nublar o Netinho. Ele está ai na luta e deve prosseguir esforçando-se por lapidar-se a cada dia como a maioria de nós tentamos.Eu não gosto da música que ele fazia, entretanto não considero lixo cultural. Questão apenas subjetiva. Mas muita gente gosta . Agora racismo difarçado ou enrustido tem e muito nesse País, infelizmente.

  2. As pessoas criticam o Netinho,primeiro por ele ser negro,segundo por ele ter ascendido socialmente,terceiro por ser pagodeiro(e não jazzista)quarto por ter sido apresentador de programa popular e assistencialista,quinto por atos explícitos de violência e por último por ele estar quase sempre sorrindo,felicidade alheia incomoda.

  3. Adorei a matéria, Parabéns Pedro Alexandre Sanches, amo muito o Nétinho, acompanho sua carreira desde 1998,conheço pessoalmente, já fui em vários shows, ele nos recebe muito bem com muito carinho, admiro muito o grande homem que é, honesto, humilde,carinhoso … sei o que aconteceu foi de fato em um momento de raiva pois pelos motivos os dois mereceram mesmo, sou contra violência mas em certos casos perdemos o controle. Nétinho te amo muito meu negrão lindo.

  4. Entre muitos comentários, fico feliz po posições colocadas a respeito de Netinho. Conhece lo intimamente???. Não claro q não, meu dizeres se inscrevê aqui,por uma fã de início do trabalho,como uma fã q tentou como pode acompanha lo,nesses anos de carreira. Está qual, ele demonstrou q é preciso ser humilde p reconhecer e mais humilde ainda aceitar pedidos de desculpas. Feliz das,pessoas, q puderam conhecer trabalhos, atitudes pessoais e profissionais. e dar sua própria opinião a respeito desse ser humano chamado carinhosamente como Netinho. Nascida e criada com muita pobreza, posso destacar q em momento algum me fiz valer,pelo q a mídia quiz, e e bem paga p isso. A vida do ser humano não é novela, p ranking de audiência. E de se orgulhar SIM , como negra como fã, como estudada ,como mulher. Qto orgulho, dá mha negritude, qto orgulho m faz ver e presenciar tantas conquistas no nosso País p gente dá gente. A hipocresia existe, mas a democracia tbm.
    E p concluir, pegando uma frase de outro comentario “e por último, O netinho está sempre sorrindo”
    Assim q segue. Mto grata pelo espaço
    DAIANE MARTINS

  5. Racismo não tem nada haver com isso, o fato é que ele foi e é uma pessoa de comportamento duvidoso no quesito moral.
    Sei de histórias no mínimo indecentes que ele cometeu contra seu Ex Grupo artístico Negritude Jr. e contra aqueles que ele dizia ser como irmãos.
    Já presenciei também nos shows em backstage a arrogância desse rapaz, em fatos em que ele dizia em alto em bom som à um grupo de pagode iniciante..”Só vou subir no palco quando não tiver ninguém” como se não bastasse ainda tem o fato dele ser preconceituoso contra pessoas de pele mais clara, ora bolas se reivindicam tanto a IGUALDADE racial porque então faz isso praticando exatamente o racismo contra aqueles que não são negros, que não moram em uma favela?
    Enfim, fica claro que vai bem além da agressão que ele cometeu, e nada tem haver com Racismo, as pessoas tendem afirmar que qualquer coisa que é acontecida com uma pessoa de pele escura é racismo e na maioria das vezes não é verdade, na verdade muitos usam isso de escudo e de marketing para conquistas.

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