No ano do centenário de nascimento de Luiz Gonzaga, um de seus maiores seguidores fica de fora da programação do São João de Caruaru. Michel Teló e Chiclete com Banana tocam

Oswaldinho do Acordeon está triste. Qualquer um nota isso quando fala com ele sobre a festa de São João de Caruaru. O mestre da sanfona não foi convidado, mas Michel Teló, sim. E também vão estar presentes Banda Calypso e Chiclete com Banana, para seu desgosto. O sanfoneiro respeita o também sanfoneiro Michel Teló, assim como as outras duas bandas que destoam do universo do forró. Faz parte do gosto popular e esse deve ser acatado, ensina. Mas sua tristeza é porque o esqueceram justamente no ano em que se comemora o centenário de nascimento de Luiz Gonzaga. Oswaldinho queria prestar sua homenagem.

Show do novo CD, "Forró Chorado", no Auditório do Ibirapuera

Em entrevista ao FAROFAFÁ, o filho e neto de sanfoneiros baianos desabafa. “É uma forçada de barra, porque é uma festa original da cultura brasileira”, diz. Oswaldinho do Acordeon pensa nele, claro (acaba de lançar um CD, e participar dessa megafesta é uma vitrine e tanto), mas sobretudo na série de artistas nordestinos locais que sonham em tocar no São João de Caruaru e são deixados de fora. “Em cada município nordestino, em cada bairro, tem uma fogueira acesa e um sanfoneiro preservando essa cultura. É isso que temos de valorizar.”

O sanfoneiro, que hoje mora em São Paulo, onde tem feito uma série de shows, sempre reserva o mês de junho para as festas de São João. Desta vez, vai para tocar no dia 24 na de Campina Grande, na Paraíba, a outra megafesta que rivaliza com a de Caruaru, em Pernambuco. E também em outras cidades médias e pequenas. Oswaldinho do Acordeon não é nordestino, nasceu em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, no Rio. sua mãe é de Palmeira dos Índios, em Alagoas. Mas foi de seu pai, Pedro de Almeida e Silva, baiano de Euclides da Cunha, que aprendeu o ofício.

Pedro Sertanejo, como era conhecido o pai de Oswaldinho, foi o precursor do forró em São Paulo. Em 1966, ele fundou na Rua Catumbi, no Brás, o Forró de Pedro Sertanejo, por cujo palco passaram todos os grandes nomes do gênero. Foi radialista e também dono de gravadora, a Cantagalo, onde Dominguinhos gravou seu primeiro disco. Com exceção de Marinês e de Luiz Gonzaga, todos forrozeiros renomados fizeram seus registros fonográficos na Cantagalo.

Segundo o músico Leo Rugero, dono do blog Sanfona de 8 Baixos, foi Aureliano, pai de Pedro Sertanejo e avô de Oswaldinho, quem ajudou a sistematizar e consolidar o estilo nordestino de sanfona de 8 baixos. Isso ao lado de Januário, pai de Luiz Gonzaga. Oswaldinho afirma que teve o primeiro contato com o instrumento aos 8 anos, mas que desde pequeno convivia na sua casa com Luiz Gonzaga, Dominguinhos e Sivuca, outros mestres da sanfona. “É considerado um dos cinco seguidores mais influentes da legenda de Luiz Gonzaga”, afirma o Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira.

Formou-se sanfoneiro profissional no Conservatório Dante de Milão, gosta de frisar. No exterior, o instrumento também é muito apreciado. Já tocou com os medalhões da música brasileira, como Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, João do Vale, Tom Zé, Nara Leão, Milton Nascimento, Caetano Veloso, Ney Matogrosso, Raul Seixas, Fagner, Elba Ramalho, Rita Lee, Djavan, Renato Teixeira, Moraes Moreira, Pepeu Gomes, entre outros.

Com 24 discos gravados, lança agora mais um CD, o “Forró Chorado”, em que vai fundo na releitura do chorinho em ritmo de forró. Além de composições próprias e outras em parceria com Sivuca, Oswaldinho regravou “Treze de Dezembro”, música de Luiz Gonzaga e que depois ganhou letra de Gilberto Gil. Seu repertório é parte de um elaborado trabalho de recriação e releitura de músicas dos mais variados gêneros tocados na sanfona. Já gravou a 5ª sinfonia de Beethoven no ritmo de forró e, olha ele aí de novo, “Asa Branca”, no estilo blues.

A seguir a entrevista que o sanfoneiro concedeu a FAROFAFÁ:

Eduardo Nunomura: O São João de Caruaru vai ter atrações como Michel Teló, Chiclete com Banana, mas não vai ter o seu show…

Oswaldinho do Acordeon: Faz muito tempo que não trabalho no São João de Caruaru. Talvez uns 20 anos. Não posso criticá-los, porque não conheço os organizadores. Mas acho que há uma forçada de barra, porque é uma festa original da cultura brasileira, uma tradição no Nordeste. Se você abre para outros artistas que não têm relação com o ritmo e já estão bem na mídia, estão na mídia o tempo todo, quem perde é o povo.

EN: Isso lhe incomodou?

OA: Já aconteceu outras vezes, não é a primeira vez. Faz muitos anos, no São João de Campina Grande, o Ray Conniff virou atração principal e foi a maior polêmica. Aí caíram na real e voltaram a dedicar mais atenção ao forró original. Mas o que está acontecendo hoje é um problema que os organizadores têm de responder, um problema deles. Não podemos bater de frente, porque eles querem que a cultura do São João seja mudada.

EN: Você já tocou em muitas festas de São João no Nordeste, não?

OA: Tem anos que sou chamado, tem anos que não. Defendo a cultura nordestina, mas não vivo só do São João. Quem fica mais sentido com esse tipo de escolhas são os artistas locais, aqueles que trabalham o ano inteiro para esperar o mês de junho para poder expor seus trabalhos.

EN: Neste ano em especial, você procurou a organização para tocar no São João?

OA: Não, eles é que entram em contato, quando há interesse. A gente também não fica esperando. Quando querem que a gente se apresente, nos procuram dois ou três meses antes do São João, logo depois da Semana Santa. Quando não chamam, a gente passa a data para quem se interessa.

EN: Perguntei “em especial” porque é o ano em que se comemora o centenário de nascimento de Luiz Gonzaga…

OA: Nada contra o Michel Teló e outros, mas eles não têm nada a ver com o São João. Cada um tem seu momento, o seu público. Temos que respeitá-los, porque o povo gosta deles. Mas a festa de São João é muito forte, envolve muito mais que a música. Em cada município nordestino, em cada bairro, tem uma fogueira acesa e um sanfoneiro preservando essa cultura. É isso que temos de valorizar.

EN: Mas eles podem alegar que você não é nordestino…

OA: Nasci em Caxias, no Rio de Janeiro. Mas minha ligação com o Nordeste nasceu comigo. Meu pai era baiano, de Euclides da Cunha. Minha mãe era alagoana, de Palmeira dos Índios. Meu pai era sanfoneiro, tinha uma banda, o Pedro Sertanejo e Seus Meninos. Foi ele que primeiro montou um forró em São Paulo, o Pedro Sertanejo, no Brás. E também montou uma gravadora em São Paulo voltada só para gravar os nordestinos, a Cantagalo. Dominguinhos gravou seu primeiro disco lá. Dos grandes nomes nordestinos, só Marinês e Luiz Gonzaga não gravaram na Cantagalo.

EN: Sua relação com o Rei do Baião veio de berço, então?

OA: Comecei a tocar sanfona aos 8 anos, arranhando o instrumento. Com 12 fui para um conservatório e me formei aos 22, em Milão, na Itália. Viajei com ele desde os 18 anos, quando Carmélia Alves dividia o palco com o Luiz Gonzaga. Ele era padrinho de batismo do meu irmão, Ari, um zabumbeiro. O irmão dele, o Zé Gonzaga e a Chiquinha Gonzaga, são meus padrinhos de batismo. Foi na Igreja Raiz da Serra, perto da fazenda deles em Santa Cruz, no Rio.

EN: Já vi uma foto em que estavam tocando juntos Luiz Gonzaga, Sivuca, Fagner e você…

OA: Toquei com Luiz Gonzaga várias vezes. Uma de suas últimas apresentações, que hoje tem em DVD da Globo, de 1984, tocamos juntos. No programa de rádio do meu pai, ele vinha tocar três vezes por ano. Viajei também para Rio Branco, Caruaru, Rio, algumas vezes. Fui convidado por ele e pelo maestro Orlando Silveira para gravar um disco, quando o Dominguinhos não pode participar.

EN: Em seus discos, você costuma gravá-lo bastante, não?

OA: Sempre gravo músicas do Luiz Gonzaga. Neste último, o “Forró Chorado”, gravei “Treze de Dezembro”, um choro dele que pouca gente conhece. Na verdade, todos que tocam sanfona conhecem bem. O Gilberto Gil botou uma letra depois. No meu disco, quem canta é a Bia Góis.

EN: No CD “Ao Vivo no Estúdio”, de 1998, você fez uma releitura bem diferente de Luiz Gonzaga.

OA: “Assum Preto” transformei em heavy metal. “Sabiá” ficou no ritmo de rock. E teve também o “Asa Branca blues”, disco de 2002, que saiu pela Kuarup. Foi maravilhoso esse trabalho, porque com ele fui parar no Lincoln Center, nos Estados Unidos, quando fizemos um show em homenagem ao Luiz Gonzaga. Gosto de fazer essas adaptações para deixar a música nordestina com cara nova. Mas também faço muito forró chorado.

EN: E como vai sua carreira?

OA: Estou trabalhando, fazendo shows, acabei de fazer um no Auditório do Ibirapuera. Também fiz duas apresentações no Sesc Santo Amaro. Dia 15 vou para Vitória, no Espírito Santo. De lá, vou para Campina Grande, Alagoinha e mais algumas outras festas. Nessa época a gente sempre corre mais, porque quando se fala em sanfona todo mundo pensa no São João.

 

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2 COMENTÁRIOS

  1. O Teló que rima com curió e com tenha dó deve levar no enborná arguma coisa adaptada para o forró. O Teló canta bem e a despeito de algumas críticas que estão ocorrendo em razão da grande e eloquente composição “Ai se eu te pego”,sai prá lá rapaz, vai pegá as tuas negas, saliento aqui nesta zabumba farofeira que composições consideradas “baixo nível” sempre tiveram seu momento de apogeu no Brasil. Quem não se lembra daquela ” aonde a vaca vai o boi vai atrás”? À época em qualquer emissora de rádio que voce sintonizava estava tocando aquele diamante musical. Então pessoal deixem o Teló tentar pegar quem ele quiser em paz, que ele é filho de Deus e também tem conta pra pagar e esse São João de Caruaru promete ser um São João de pegação. Quanto ao “chiclete com banana” que foi um termo criado por Jackson do Pandeiro, quase mesmo antes do pandeiro existir, em uma de suas canções ele dizia assim:”….chicletes eu misturo com banana e o meu samba vai ficar assim…..” Então por extensão, já que Jackson do Pandeiro foi um nordestino músico e o nome da banda é uma singela homenagem a uma de suas letras famosas, nada mais justo do que chicletar bel e sua turma lá em Caruaru, do you understand me?

  2. Infelizmente o Brasil não dá valor aos que realmente tem valor. Oswaldinho é simplesmente um ícone do acordeon. Mas, para as novas gerações que desaprenderam o que é boa música, feras como ele vão cada dia para o anonimato. Uma lástima.

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