tudo que eu sei fazer é escrever, então escrevo.

tenho alguns amigos que dizem ter “superado essa fase”.
estão agora na publicidade, na organização de shows, abriram clubes noturnos bem-sucedidos, estão no doutorado que lhes vai emoldurar a carreira e livrá-los da efemeridade das reportagens de campo, daqueles personagens modestos e destinados a um “side” de matéria, um rodapé de página.
muitos demonstram achar desagradável (ou só desaconselhável) essa minha rotina de jornalista de pautas sucessivas e incontornáveis, aeroportos lotados, fechamentos inglórios e vigílias em portas de hotéis.

essa rotina de computadores obsoletos, hotéis que o dinheiro no bolso não cobre (o cartão cancelei há anos para poder sanear as finanças).

essa minha rotina de almoço self service, de carro com a gasolina somente para chegar no trabalho (nenhuma certeza de que vá voltar até a garagem de casa).

para muitos dos meus amigos que estão em outra agora, escrever não é mais importante, tornou-se acessório. estão ganhando algum dinheiro, estão fazendo outras coisas que consideram mais nobres e que lhes garantem um futuro melhor.

fico sinceramente feliz por todos.

só posso garantir que estamos todos, eu e eles, numa boa. no hard feelings.

encontrei uma velha amiga outro dia num café.

ela está trabalhando em uma sociedade com italianos de milão, tinha dois ipads e dois iphones na mesa.

perguntou: “onde você está agora?”

“no mesmo lugar”, eu respondi, já quase me obrigando a sentir-me constrangido.

ela (com sinceridade): “que horror!”.

o horror o horror o horror.

afinal, trata-se do lugar ou da satisfação com o que se faz?

um amigo mais politizado me aconselhou:

“o jornalismo impresso morreu, sai daí, meu garoto!”

meu problema, respondi, é que eu adoro aqueles salões de barbeiro da vila madalena, que resistem em uma portinha só.

gosto demais dessas barbearias do texto com horário de fechamento estreito.

se bem que, às vezes, é preciso paciência de monge zen.

outro dia, ouvi de alguém que eu era “tendencioso” em certo tipo de cobertura.
acho que incomodava mais o fato de eu ser “tendencioso” em direção ao lado errado, um lado que arranha prestígio, que não pode abrir as portas dos salões para ninguém. o lado sem brise-soleil.
sei que, por conta disso, nunca serei bem recebido nos rapapés, nos abana-rabos públicos, estou consciente disso.
não tem problema, fico lá fora com os guardadores de carros.
outra coisa é que cresceu a patrulha da “legalidade” jornalística que quer colocar almofadas nos conflitos.
sei lá, acho que deve haver algum estudo de “reengenharia” apontando os custos de incomodar o poder.

mas sinto por essa corrente, acho não vou me enquadrar.

não vou colocar almofadas e nem vou ceder aos trompetes da polêmica mole.

uma vez, um editor-executivo de uma grande revista me convidou para almoçar no américa do shopping villa-lobos (quando houve um américa lá).
me olhava com desconfiança enquanto eu comia.
disse que queriam melhorar a reportagem da revista, que eu seria uma boa aquisição.
alertou, entretanto, que sua revista tinha por hábito “dar a última palavra” em todos os temas, e que eu precisaria me habituar a isso.
se ainda estiverem me esperando por lá, melhor comprarem sofás novos.
conheci muitos garotos que já chegaram ao jornalismo cultural querendo dar a última palavra (antes mesmo de saberem qual era a primeira).
tenho ternura por todos eles, acho que eu também já fiz algo assim em algum ponto da vida.
vejo mais angústia do que arrogância em sua postura, mais insegurança do que autoconfiança.

só posso recomendar uma coisa aos novatos: a pulseirinha da área VIP de um show só dura umas duas horas e meia.

quando acaba o salvo-conduto, o que sobra é o que teu texto guarda de delírio, coreografia, visualidade.

óbvio que também ajudam a sinceridade, grandes convicções e suave honestidade (não moralismo, eu disse honestidade).
e tesão.
se acabou o tesão, melhor abrir uma barraca de souvenires.

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