No mesmo disco compacto de outubro de 1968 em que o baiano Gilberto Gil e os paulistanos Mutantes cantavam o levante pop-rock-plebeu “A Luta contra a Lata ou A Falência do Café“, havia um outro samba-rock-soul-protesto-MPB de Gil, desta vez com o grupo de iê-iê-iê argentino Beat Boys, chamado “Questão de Ordem”. Era mais ou menos assim:

Você vai, eu fico
Você fica, eu vou

Daqui por diante
Fica decidido
Quem ficar, vigia
Quem sair, demora
Quem sair, demora
Quanto for preciso
Em nome do amor

Você vai, eu fico
Você fica, eu vou

Se eu ficar em casa
Fico preparando
Palavras de ordem
Para os companheiros
Que esperam nas ruas
Pelo mundo inteiro
Em nome do amor

Você vai, eu fico
Você fica, eu vou

Por uma questão de ordem
Por uma questão de desordem

Se eu sair, demoro
Não mais que o bastante
Pra falar com todos
Pra deixar as ordens
Pra deixar as ordens
Que eu sou comandante
Em nome do amor

Você vai, eu fico
Você fica, eu vou

Os que estão comigo
Muitos são distantes
Se eu sair agora
Pode haver demora
Demora tão grande
Que eu nunca mais volte
Em nome do amor

“Questão de Ordem” era defendida por um Gil agressivamente black power no mesmo momento histórico em que Gal Costa cantava os perigos de “Divino, Maravilhoso” e Caetano Veloso berrava “É Proibido Proibir”, inspirado nos levantes da juventude francesa. Com “Divino, Maravilhoso”, Gal representava Gil e Caetano no festival da Record, mas os dois parceiros, em pessoa, se apresentavam no III Festival Internacional da Canção (FIC), da ascendente multinacional Rede Globo.

A desclassificação de “Questão de Ordem” numa eliminatória paulista do FIC precipitou um discurso iracundo e a auto-retirada de Caetano do festival, como todo mundo sabe, mas não foi só isso. Embora os livros de história não registrem, trata-se indubitavelmente de um dos (muitos) indícios antecipadores-detonadores do AI-5 do 13 de dezembro que estava para chegar – dia do aniversário da estrela decadente pernambucana Luiz Gonzaga, véspera do aniversário da anônima sem-estrela mineira Dilma Vana Rousseff.

Na mesma eliminatória de “Questão de Ordem”, eclodia “Pra Não Dizer Que Não Falei das Flores”, do paraibano Geraldo Vandré”. À parte a força descomunal do “caminhando e cantando e seguindo a canção” de Vandré, o III FIC foi vencido pelos cariocas Tom Jobim e Chico Buarque, autores de “Sabiá”, uma canção de amor, e de exílio, explicitamente inspirada no poeta romântico maranhense Gonçalves Dias: “Vou voltar/ sei que ainda vou voltar/ não vai ser em vão/ que fiz tantos planos de me enganar/ como fiz enganos de me encontrar/ como fiz estradas de me perder/ fiz de tudo e nada de te esquecer”.

Gil cobiçava repartir o grande espólio da casa-grande multinacional brasileira: uns iriam para o exílio, outros ficariam aqui, ainda não se sabia quem era quem. Enquanto isso, o veterano Tom e o novato Chico pediam para sair. Prometiam voltar, mas pediam para sair.

Tom e Chico enfrentavam aplausos & vaias “Protegidos” atrás das meigas e frágeis (como parece ser, em 2012, Ana de Hollanda) irmãs baianas Cynara e Cybele, do Quarteto em Cy, grupo vocal apadrinhado pelo diplomata bossa-nova carioca Vinicius de Moraes.

Inicialmente encarnados na fragilidade das duas irmãs Cy, os mancebos Buarque & Jobim escalaram as senzalas de raça, sexo e identidade sexual (que a tropicália rasgava e sangrava ao vivo e em preto-e-branco) e faturaram o festival pan-global – venceram, inclusive, a fase internacional do festival internacional. Um novo tempo se iniciava.

Na fatídica eliminatória de Gil, ele, sua guitarra hendrixiana,  seus gemidos mórbidos e sua bata africana foram amplamente vaiados, até pela esquerda festiva do carioca para sempre festivo Nelson Motta (que não pode reconstruir essa parte de seu passado) (*).

Por conta de “Questão de Ordem”, Gil foi acusado de se entregar gozozamente à cultura norte-americana – ironia, porque a letra da canção já antevia que uns partiriam, outros ficariam, mais tarde todos voltariam. O samba e a canção nacionalista de exílio do futuro namoradinho do Brasil Chico Buarque de Hollanda – atual (irmã@ [email protected]) [email protected] [email protected] [email protected] [email protected] [email protected] [email protected] [email protected] Brasil – “venceram” a luta contra a lata e (por ora) a falência do café.

Em poucas semanas, o triângulo (des)amoroso central dessa trama estaria fora de combate (embora não por muito tempo, de fato). Pós-AI-5, os baianos Gil e Caetano partiram para o exílio forçado na Inglaterra. O carioca Chico elegerua Itália como destino de exílio voluntário. Trabalhado no laboratório multinacional da filial italiana da gravadora RCA, voltaria mudado para o Brasil – inclusive fazendo elogios talvez irônicos à traição, e sendo censurado por isso.

Começavam ali também a derrocada da MPB televisiva em particular e da TV Record em geral (a emissora hoje resiste e reside nas garras do bispo universal – do reino de deus – Edir Macedo) e, concomitante, a escalada formidável da Rede Globo. Essa, sob a sociedade (não muito) oculta com o conglomerado norte-americano de entretenimento e informação Time-Life, dominou e domou o Brasil de então até 2012 (será?), sempre se jurando tão brasileira quanto uma palmeira de Gonçalves Dias.

Radicalizado pelo AI-5, o regime militar entregou as calças e as cuecas à supremacia estadunidense que o samba, Chico Buarque e a elite MPB sempre juraram detestar e combater. Em 1973, ano do elogio da traição de Calabar, nascia, sob militância aguerrida de Chico Buarque, Tom Jobim, Roberto Carlos e a nata MPB, o Ecad, Escritório Central de Arrecadação e Distribuição, futuramente tão centralizador, monopolista e autoritário quanto a ditadura civil-militar, a Globo e a MPB.

Neste 2012, tempo de luta feroz entre o eterno copyright e o efêmero copyleft (será?), ainda há em campo o futebol transnacional brasileiro na Copa do Mundo de Pelé (e, in memoriam, Wilson Simonal), o carnaval no sambódromo carioca da Globo e, por debaixo da avenida Presidente Vargas, o jogo do bicho de Carlinhos Cachoeira – todos (mal-)ocultos em algum desvão de um complicadíssimo enredo.

Fiquemos, por ora, com “Questão de Ordem”:

(*) Não só Nelson Motta tenta reconstruir seu passado: eu também. Afirmo aqui, em público, que meu livro Tropicalismo – Decadência Bonita do Samba (ed. Boitempo), de 2000, estava, em grande medida, equivocado.

 

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