“Você vai ouvir em primeiríssima mão esse filho, cara, minha nossa!”, sobressalta-se o saltimbanco Fernando Anitelli, de 37 anos, líder e mola propulsora da trupe musical paulista O Teatro Mágico. O som dispara e começo a ouvir, uma por uma, as 19 faixas de A Sociedade do Espetáculo, a terceira vinda discográfica do grupo paulista. Estamos na capital, no estúdio Oca – Casa de Som, onde tenho a honra de acompanhar uma tarde do trabalho de finalização das gravações do sucessor de Segundo Ato (2008), aguardado há três longos anos por uma ruidosa e ansiosa legião de fãs.

O disco deve nascer oficialmente entre o final de agosto e o início de setembro. Os fãs contam, por enquanto, com tira-gostos como o aperitivo colocado no início de junho no site oficial do TM, quando ainda ensaiavam para começar as gravações (veja vídeo abaixo).

Nesta tarde de 27 de junho, estamos em etapa bem mais adiantada, às vésperas do envio do conjunto de canções para ser masterizado no estúdio Sterling Sound, em Nova York, pelo engenheiro de som Chris Athens, responsável por trabalhos como as remasterizações da discografia dos Beatles e da edição de 25 anos do álbum Thriller, de Michael Jackson.

“É ele que vai passar aquele verniz bacana na madeira”, explica Fernando. Usando peculiar sinceridade, ele demonstra que a grife “masterizado em Nova York” não significa algo tão sobrenatural como gostam de fazer parecer certas campanhas mercadológicas: “O cara custa US$ 250 por música, um preço acessível, então vamos fazer, vambora. Foi só ligar e agendar com o agente dele”. Nem os integrantes do grupo nem o coprodutor Daniel Santiago (que toca há dez anos com o festejado bandolinista Hamilton de Holanda) acompanharão o trabalho ao vivo: o processo, chamado e-mastering, acontece via internet.

Não é nada tão excepcional ter um disco masterizado no Sterling Sound, nem o TM é um grupo assim tão excepcional. A segunda afirmação, em especial, pode parecer deseducada – mas tem sido esse o emblema distintivo do Teatro Mágico, que se transformou num fenômeno de venda de discos e lotação de shows sem jamais contar com suporte de gravadora multinacional, jabaculê em rádios, agenda aberta em grandes redes de TV ou críticas positivas nas seções musicais de jornais e revistas.

“O Teatro Mágico nada mais é que o que de mais comum existe em todo o cotidiano da sociedade, e a gente dialoga com isso tudo com música, brincadeira e crítica. É isso”, Fernando chega, já ao final do encontro, a uma fórmula possível para explicar o sucesso que não foi a “grande” mídia que moldou e modulou.

“Assim como circo não tem tribo, o Teatro Mágico entra em hospital, favela, presídio, ambulatório, escola”, esmiuça, ciente e orgulhoso das ligações íntimas dos espetáculos do TM com circo, teatro, commedia dell’arte. “Dentro da trupe temos todos os tipos humanos, desde homossexual, negro, japonês, amarelo, branco, mulheres feministas. Tem tudo ali, e esse debate é colocado pra todo mundo ali dentro. E, por não ter tribo, você encontra todas as tribos no show, um universo gigante, que traduz nada mais que a simplicidade do que acontece, por exemplo, dentro de uma sala de aula, que tem um menino que é gay, um negro que sofre preconceito da menina que não quer sentar do lado dele, a gordinha japonesa…”

Eis outra característica d’O Teatro Mágico, esta menos corriqueira: os irmãos Fernando e Gustavo Anitelli (diretor-executivo do projeto) e a trupe que os segue compreendem na carne os novos mecanismos da cultura, nestes tempos pós-internet e pós-falência da indústria musical como a conhecíamos – não à toa, dão a primazia de mostrar A Sociedade do Espetáculo a FAROFAFÁ, um site também independente.

De mão em mão, nos shows do grupo, foram vendidas mais de 350 mil cópias do primeiro disco, Entrada para Raros (2003). O papel de “lojinha” é executado pelo ex-bancário aposentado Odácio Anitelli, pai dos irmãos nascidos em Osasco, na Grande São Paulo. Foi ele quem primeiro afrontou a indústria fonográfica para tentar fazer-se ouvir a voz do(s) filho(s): diante do vai-não-vai da gravadora, jogou na internet as versões voz-e-violão de uma série de músicas de Fernando que a gravadora Kaskata’s mantinha na geladeira.

“15 anos atrás, eu tinha um trio que foi contratado por uma gravadora, Kaskata’s Records”, Fernando começa a contar, citando o selo que no início dos anos 1990 deu guarida a grupos paulistas emergentes de pagode e rap, como Art Popular, Exaltasamba e Sampa Crew. “Eu pensei: que lindão, uma gravadora na minha vida! Aquele moleque imbecil, aquele sonho romântico, achando que é isso, a gravadora te contrata, você vai gravar no estúdio e encontra ao lado Jorge Ben Jor, Pato Fu… Meu, tô famoso, acabou, não precisa fazer mais nada. Nada a ver. Na oitava música, o dono da gravadora ligou e disse: ‘Ó, refaz tudo em versão de forró universitário e ska’.”

Fez-se o impasse entre o que queria a gravadora e o que queria o artista. Diante da recusa da parte musical da história, a parte burocrática engavetou o disco (era 1999, e o primeiro álbum d’O Teatro Mágico só viria a sair em 2003, já sem gravadora por trás).

“Ficamos três anos sem poder gravar, sem poder lançar nada, o trio acabou. Meu pai ficou supertriste, era o cara que mais sonhava. Um dia ele me disse o seguinte: ‘Filho, peguei todas as tuas músicas e joguei na internet. Não é um cara lá, engravatado, preocupado com grana, que tem que rescindir contrato com você. Quem tem que rescindir contrato com você é o público’.” Assim foi dito, assim foi feito, e o boca-a-boca começou, primeiro devagarinho, depois em velocidade de gremlin.

O compartilhador de arquivos sonoros eMule se transformava, assim, na primeira (não-)gravadora do àquela altura ainda não batizado O Teatro Mágico. Até hoje, tudo que a trupe gravou foi liberado oficial e gratuitamente para livre consumo e circulação pelos fãs. É nesse mesmo espírito que o grupo integra, ao lado de nomes como Leoni Móveis Coloniais de Acaju, o movimento coletivo Música Para Baixar – MPB, para quem quiser entender e aceitar a provocação.

O mesmo procedimento se repetirá com o novo disco, em processo inverso ao que preconizam, entre sombras e esgares ameaçadoras, gravadoras, editoras, associações internacionais de “proteção à propriedade intelectual” e a atual ministra da Cultura do Brasil, Ana de Hollanda.

“Nós geramos e gerimos nossa obra. Licenciamos com Creative Commons. Criamos uma outra economia. Todo nosso conteúdo é disponível, e mesmo assim vendemos 350 mil cópias”, sublinha mais uma vez Fernando, que em breve deve lançar, também via internet, a canção (bem-humorada) de protesto “De Holanda”, uma paródia de “Iolanda”, versão de Chico Buarque para uma canção do cubano Silvio Rodriguez, lançada em 1984 por Simone.

“Apática, não entende ou não se informa/ defende o Ecad assim de forma escandalosa/ me engana/ me engana/ descaradamente me engana/ (…) até meu violão se sente violado/ por isso às vezes sei que necessito/ de um Ponto de Cultura/ de banda larga na rua/ um edital que não contemple só os amigos/ (…) De Hollanda/ De Hollanda/ o que cê tem na mente, De Hollanda?”, versam trechos do tema que Fernando canta ao violão diante de mim e eu gravo no celular, mas prometo não tocar para ninguém até ter autorização.

A ideia da livre circulação da música com respaldo por seus autores parece simples – e é. Mas virou o monolito que separa até hoje o TM da velha indústria fonográfica, mesmo depois de o grupo ter se provado amplamente vendável, rentável, comunicável. “Todas as gravadoras multinacionais já ligaram pra gente. Mas é sempre o mesmo discurso: querem comprar o nosso projeto, editar nossas músicas e nos administrar pelos próximos três ou quatro anos”, descreve.

“A gente sempre perguntou pra eles: mas e aí? Nosso CD pode custar R$ 5 na mão do público? Não. Podemos licenciar em Creative Commons, deixar nossa música disponível gratuitamente no site? Não. A gravadora não quer nada disso. Mas é tudo isso que faz d’O Tetro Mágico um ícone do independente pop, sem se render a caprichos dolorosos de gravadora, rádio, blablablá”, constata.

Não é quase de espantar que casas como Sony, Universal ou EMI digam esses nãos diante dos lucros mais que palpáveis que poderiam obter com um grupo com seguidores quase religiosos de tão fiéis e presentes? “Poderiam até abrir mão de certas coisas, a Sony foi quem mais chegou perto disso. Só que, mudando pra gente, todo o elenco ia querer o mesmo”, entende Fernando. “Os outros iam perguntar: ‘Pô, como o Anitelli pode editar as músicas dele e eu preciso editar com vocês?’.”

O precedente segue fechado. E o novo mundo segue roendo o mundo velho pelas beiradas.

(…continua.)

 

DEIXE UMA REPOSTA

Por favor, deixe seu comentário
Por favor, entre seu nome