Havia cinco anos, o catálogo da gravadora Kuarup estava desativado. Os antigos donos, Mario de Aratanha e Janine Houard, já tinham jogado a toalha. Se para as grandes gravadoras, a saída neste mundo conectado e de livre circulação de dados está cada vez mais difícil, imagine a situação para um selo independente. Mas Mario de Aratanha nunca quis colocar uma placa “família vende tudo” na frente de seu negócio. Quando ficou sabendo do interesse do jornalista Alcides Ferreira e do consultor artístico, Arthur Fitzgibbon, que já tinha trabalhado nas multinacionais Universal e EMI, por sua empresa, decidiu dar mais uma chance. E ouviu o que queria ouvir: a Kuarup estaria de volta ao jogo fonográfico, com novos lançamentos e reedição remasterizada das principais obras.


A falência da Kuarup podia ter sido decretada e, por tabela, todo o seu patrimônio cultural teria ido a leilão. Ou jogado no lixo. São discos históricos de choro, samba, músicas caipira e erudita de artistas como Renato TeixeiraElomarXangai Paulinho da Viola, e regravações de clássicos de Heitor Villa-Lobos Jacob do Bandolim. Ferreira pagou à vista a dívida da empresa com um fabricante de CDs, assumiu os impostos atrasados e conseguiu dividi-los em parcelas a perder de vista – R$ 400 mensais pelos próximos 15 anos. Os custos teriam parado por aí se fosse apenas para limpar o nome do selo na praça. Para torná-lo ativo, surgem os custos operacionais, igualmente elevados.

As despesas atuais incluem pagamento dos advogados, que vão renegociar os contratos com os artistas, o relançamento dos títulos antigos, a gravação dos novos nomes, a mudança da empresa para São Paulo e o salário da pequena equipe que mantém o negócio vivo. “Trouxemos a coisa boa e a ruim também. O catálogo é super rico e maravilhoso, mas vieram os enroscos também”, explica Arthur. Os problemas envolvem contratos com artistas e compositores que precisam ser renovados. E isso não é fácil. O cantor e compositor baiano Elomar, que com Xangai, Geraldo AzevedoVital Farias, gravou os antológicos discos da série “Cantoria”, reluta em dar autorização. Quer receber pelos CDs vendidos e mais um valor antecipado. “Nada vai ser relançado se o artista não topar”, adianta Arthur. “Teríamos muito prazer em voltar a editar os discos de Elomar”, acrescenta Alcides.

É por isso que nesse recomeçar da Kuarup, os discos “Cantoria” não estarão presentes. Serão nove relançamentos e apenas um título novo. É o disco de estreia de Luciana Pires, uma paulista de Bauru, intérprete de MPB, lançada pela nova Kuarup com a balada “Olhos Claros”. A gravadora vai cuidar de todos os interesses da artista, atuando como editora, produtora e agenciadora de shows. A aposta é que, com o controle maior da carreira dos novos nomes, as chances de eles vingarem aumentem. Inicialmente, a gravadora pretende lançar um artista novo por semestre.

Por anos a fio, a indústria fonográfica apostou em sucessos instantâneos para sustentar seu negócio. Multinacionais lançavam dez nomes, dedicavam-se a divulgar dois ou três deles e se um vingasse, a lavoura estaria salva. Uma lógica cruel que marginalizou muitos artistas. Graças a selos como Kuarup e Discos Marcus Pereira, devotados à produção nacional, músicos como CartolaPena Branca & Xavantinho puderam gravar suas obras. Só que, como tudo mais no mercado de discos, elas perderam fôlego.

A Kuarup não teria como sobreviver nesse mercado se não fosse a associação que fez com a Sony. Em tempos de multinacionais à deriva, o método é cada vez mais frequente: a grande gravadora recebe o produto pronto de selos menores, sem investir um centavo na garimpagem de novos artistas e na produção dos discos. O trabalho se resume a distribuir a obra – e, supostamente, divulgá-la.

O consultor artístico credita à parceria com a multinacional a redução do risco da empreitada. “Abrir uma alfaiataria teria o mesmo risco”, compara Arthur. “A gravadora ainda é um negócio e gera receita. Não é como há dez anos, mas estamos preparando-a para esse novo mercado. Não posso esperar vender 10 mil discos por mês, mas mil.” Sua expectativa é que quem já comprou os discos antigos e apreciadores de música quieam adquirir o catálogo. Nos sites UOL, Terra Sonora, imusica e Nokia Store, os álbuns poderão ser baixados. Os preços variam de R$ 19,90 a R$ 24,90.

Curiosa história de uma gravadora que na era da internet, dos downloads gratuitos e do compartilhamento desenfreado e livre das músicas ouse caminhar na contramão da história. Mas é algo que faz refletir que nem tudo precisa ter motivação financeira. “Não sei se vou ganhar dinheiro com isso um dia, mas acho que é importante devolvermos para a sociedade um pouquinho do que ganhamos ao longo da vida. Além disso, estou me divertindo”, afirma Alcides.

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